Saiba quantos anos professor do CE leva para atingir ‘topo’ da carreira com R$ 16 mil

Na rede estadual, tempo médio para um docente chegar ao maior salário da carreira é o 3º menor do Brasil.

Escrito por
Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
Professora vista de costas escreve em um quadro branco com fórmulas matemáticas e um desenho geométrico de um triângulo inscrito em um círculo, com pontos identificados por letras.
Legenda: No Ceará, o valor mais baixo registrado ano passado era R$ 6.839,11, incluindo vencimento-base, gratificação de regência e Parcela Variável de Redistribuição (PVR)
Foto: Fabiane de Paula

Ter chances de crescer em uma área de atuação é, muitas vezes, fator decisivo para jovens escolherem que ofício seguir. No Ceará, a profissão-base de todas as outras tem se tornado mais atrativa: o tempo médio para um professor chegar ao topo e ganhar o maior salário da carreira é o 3º menor do Brasil.

O dado é do estudo “Planos de Carreira e Remuneração do Magistério das Redes Públicas Estaduais 2025”, elaborado pelo Movimento Profissão Docente e divulgado nesta semana. 

A pesquisa analisa, além de aspectos salariais, as jornadas de trabalho, chances de crescimento e desafios para a valorização prática da categoria.

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Um dos destaques positivos da rede estadual de educação do Ceará no estudo foi a amplitude temporal da carreira do magistério, ou seja, o tempo que um professor leva para percorrer da mais baixa à mais alta remuneração na docência.

No Brasil, esse tempo médio é de 25 anos – já no Ceará, cai para 17 anos. Somente os estados do Paraná (16 anos), na região Sul, e Piauí (12 anos), vizinho nordestino, se posicionam à frente da gestão cearense.

Salto salarial

Maria Cecília Gomes, diretora de Políticas Públicas do Movimento Profissão Docente e doutora em administração pública e governo, avalia que a amplitude temporal do Ceará “é boa”, e explica por que esse tempo não pode ser “nem curto demais nem longo demais”.

“Se o tempo for mais de 30-40 anos, na prática vai ser difícil um professor chegar ao topo da carreira – mas se for curto demais, tem um desincentivo pela falta de perspectiva. Tem que ter um equilíbrio”, destaca a pesquisadora.

Outra vantagem do Ceará é que a perspectiva de crescimento não está atrelada à obtenção de títulos de mestrado e doutorado. “Mesmo que o professor não tenha, ele consegue ascender. É importante pra que a gente não perca talentos, o professor não desista da profissão”, opina.

Um docente na rede estadual cearense já tem um grande salto salarial nos 15 primeiros anos de profissão: a pesquisa mostra que, nesse período, a remuneração cresce 89%. É a maior variação do País. 

Já a diferença entre o salário inicial e o final pago ao professor do Estado em 2025, considerando toda a carreira, chegava a 134,2%. O valor mais baixo registrado ano passado era R$ 6.839,11, incluindo vencimento-base, gratificação de regência e Parcela Variável de Redistribuição (PVR); e o mais alto atingia R$ 16.018,59, também incluídas as gratificações fixas.

Em dado atualizado enviado à reportagem nessa quarta-feira (4), a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) informa que “a remuneração inicial passou para R$ 7.181,41” e que, “no topo da carreira, o valor pode chegar a R$ 21.171,98”.

A variação atualizada, portanto, e que não consta no estudo de 2025, é de quase 195% – ou quase o triplo.

“Precisamos de uma remuneração inicial bem boa, para atrair os jovens, e ter um crescimento. A amplitude de carreira de países de alto desempenho é entre 70% a 100%. O Ceará tem crescimento significativo, é importante pra retenção. O Brasil está perdendo muito professor”, analisa Cecília.

Um estudo da Consultoria McKinsey, citado na pesquisa divulgada nesta semana, sustenta que a adoção de melhores remunerações nos primeiros anos torna a carreira mais atrativa e diminui a evasão docente.

Avaliação prática

Professor em pé diante de um quadro branco dá explicação para um grupo de estudantes sentados em cadeiras dentro de um espaço escolar colorido, decorado com bandeirinhas no teto. A cena ocorre em área aberta da escola, com paredes amarelas e outros alunos ao fundo.
Legenda: No Ceará, o tempo médio para um professor chegar ao topo e ganhar o maior salário da carreira é o 3º menor do Brasil.
Foto: Davi Rocha

A carreira do magistério estadual, de acordo com a Seduc, é organizada em 20 níveis, e os professores têm possibilidade de avanço anual. Os critérios para isso incluem “avaliação de desempenho, resultados educacionais e formação continuada”.

O modelo, acrescenta o órgão, “foi estruturado para garantir crescimento ao longo da vida profissional, incentivando formação, desempenho e permanência na rede, que conta com mais de 13 mil professores efetivos e ativos”.

A pesquisadora do Movimento Profissão Docente afirma que um dos principais critérios para a progressão de carreira no Brasil deve ser, justamente, a avaliação de desempenho – mas que ela ainda não é massivamente praticada.

“No País, 22 estados preveem isso como critério, mas só 12 implementam. O Ceará é um deles. Tem espaço pra melhoria, claro, mas está implementando”, frisa Cecília.

Um dos maiores desafios do Ceará, conforme ela avalia, é atrelar o avanço do docente na carreira “à melhoria das práticas de ensino”. Ou seja: garantir que o progresso impacte em sala de aula e no resultado dos alunos.

“Hoje, a progressão é por titulação e tempo de serviço. Mas acumular vários títulos de especialização não necessariamente vai melhorar a prática do professor. Ele deve crescer na carreira em função da melhoria da prática profissional, com instrumentos de avaliação adequados”, sugere.

Além disso, a pesquisadora é categórica ao afirmar que a forma como a carreira dos professores é tratada “precisa ser coerente com as políticas educacionais” praticadas no Estado, como a implementação do tempo integral, por exemplo. 

“As carreiras precisam estar conectadas com a aprendizagem dos alunos. Como penso uma carreira que vai estimular a melhoria das práticas de ensino e promover o desenvolvimento profissional desses professores? Esse é o grande desafio do Brasil.”

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