Saiba quantos anos professor do CE leva para atingir ‘topo’ da carreira com R$ 16 mil
Na rede estadual, tempo médio para um docente chegar ao maior salário da carreira é o 3º menor do Brasil.
Ter chances de crescer em uma área de atuação é, muitas vezes, fator decisivo para jovens escolherem que ofício seguir. No Ceará, a profissão-base de todas as outras tem se tornado mais atrativa: o tempo médio para um professor chegar ao topo e ganhar o maior salário da carreira é o 3º menor do Brasil.
O dado é do estudo “Planos de Carreira e Remuneração do Magistério das Redes Públicas Estaduais 2025”, elaborado pelo Movimento Profissão Docente e divulgado nesta semana.
A pesquisa analisa, além de aspectos salariais, as jornadas de trabalho, chances de crescimento e desafios para a valorização prática da categoria.
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Um dos destaques positivos da rede estadual de educação do Ceará no estudo foi a amplitude temporal da carreira do magistério, ou seja, o tempo que um professor leva para percorrer da mais baixa à mais alta remuneração na docência.
No Brasil, esse tempo médio é de 25 anos – já no Ceará, cai para 17 anos. Somente os estados do Paraná (16 anos), na região Sul, e Piauí (12 anos), vizinho nordestino, se posicionam à frente da gestão cearense.
Salto salarial
Maria Cecília Gomes, diretora de Políticas Públicas do Movimento Profissão Docente e doutora em administração pública e governo, avalia que a amplitude temporal do Ceará “é boa”, e explica por que esse tempo não pode ser “nem curto demais nem longo demais”.
“Se o tempo for mais de 30-40 anos, na prática vai ser difícil um professor chegar ao topo da carreira – mas se for curto demais, tem um desincentivo pela falta de perspectiva. Tem que ter um equilíbrio”, destaca a pesquisadora.
Outra vantagem do Ceará é que a perspectiva de crescimento não está atrelada à obtenção de títulos de mestrado e doutorado. “Mesmo que o professor não tenha, ele consegue ascender. É importante pra que a gente não perca talentos, o professor não desista da profissão”, opina.
Um docente na rede estadual cearense já tem um grande salto salarial nos 15 primeiros anos de profissão: a pesquisa mostra que, nesse período, a remuneração cresce 89%. É a maior variação do País.
Já a diferença entre o salário inicial e o final pago ao professor do Estado em 2025, considerando toda a carreira, chegava a 134,2%. O valor mais baixo registrado ano passado era R$ 6.839,11, incluindo vencimento-base, gratificação de regência e Parcela Variável de Redistribuição (PVR); e o mais alto atingia R$ 16.018,59, também incluídas as gratificações fixas.
Em dado atualizado enviado à reportagem nessa quarta-feira (4), a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) informa que “a remuneração inicial passou para R$ 7.181,41” e que, “no topo da carreira, o valor pode chegar a R$ 21.171,98”.
A variação atualizada, portanto, e que não consta no estudo de 2025, é de quase 195% – ou quase o triplo.
“Precisamos de uma remuneração inicial bem boa, para atrair os jovens, e ter um crescimento. A amplitude de carreira de países de alto desempenho é entre 70% a 100%. O Ceará tem crescimento significativo, é importante pra retenção. O Brasil está perdendo muito professor”, analisa Cecília.
Um estudo da Consultoria McKinsey, citado na pesquisa divulgada nesta semana, sustenta que a adoção de melhores remunerações nos primeiros anos torna a carreira mais atrativa e diminui a evasão docente.
Avaliação prática
A carreira do magistério estadual, de acordo com a Seduc, é organizada em 20 níveis, e os professores têm possibilidade de avanço anual. Os critérios para isso incluem “avaliação de desempenho, resultados educacionais e formação continuada”.
O modelo, acrescenta o órgão, “foi estruturado para garantir crescimento ao longo da vida profissional, incentivando formação, desempenho e permanência na rede, que conta com mais de 13 mil professores efetivos e ativos”.
A pesquisadora do Movimento Profissão Docente afirma que um dos principais critérios para a progressão de carreira no Brasil deve ser, justamente, a avaliação de desempenho – mas que ela ainda não é massivamente praticada.
“No País, 22 estados preveem isso como critério, mas só 12 implementam. O Ceará é um deles. Tem espaço pra melhoria, claro, mas está implementando”, frisa Cecília.
Um dos maiores desafios do Ceará, conforme ela avalia, é atrelar o avanço do docente na carreira “à melhoria das práticas de ensino”. Ou seja: garantir que o progresso impacte em sala de aula e no resultado dos alunos.
“Hoje, a progressão é por titulação e tempo de serviço. Mas acumular vários títulos de especialização não necessariamente vai melhorar a prática do professor. Ele deve crescer na carreira em função da melhoria da prática profissional, com instrumentos de avaliação adequados”, sugere.
Além disso, a pesquisadora é categórica ao afirmar que a forma como a carreira dos professores é tratada “precisa ser coerente com as políticas educacionais” praticadas no Estado, como a implementação do tempo integral, por exemplo.
“As carreiras precisam estar conectadas com a aprendizagem dos alunos. Como penso uma carreira que vai estimular a melhoria das práticas de ensino e promover o desenvolvimento profissional desses professores? Esse é o grande desafio do Brasil.”