Rap feito por mulheres nasce na periferia de Fortaleza e ganha destaque, mas tem menos oportunidades
A luta pela justiça social sempre foi pauta central do rap. Por isso, quando protagonizado por mulheres, o gênero musical pode se transformar em ferramenta valiosa de combate à violência e à desigualdade de gênero, além de promover autoestima e possibilidade de crescimento profissional por meio da arte.
Nos últimos anos, a cena do rap brasileiro, que por décadas foi majoritariamente masculina, tem tido novas protagonistas, com nomes como Tasha & Tracie, Duquesa, Ajuliacosta, Ebony e Nanda Tsunami tendo espaço de destaque nos streamings e palcos do País.
Na capital cearense, a tendência de um rap mais representativo também se faz presente: por aqui, cada vez mais as mulheres comandam os microfones e as rimas, lançam projetos, fazem parcerias e ocupam espaços importantes no Ceará e fora dele.
Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, o Diário do Nordeste ouviu quatro rappers que atuam na cena de Fortaleza – Ana Cris, artista e ativista do hip-hop há quase 30 anos, e Cabulosa, Má Dame e Ynaiã, nomes da nova geração – para entender de que maneira o rap narra a realidade das mulheres, como a vida na Capital inspira suas rimas e quais os desafios que elas encontram para se manter como artistas e alçar voos mais altos.
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Se há uma nova geração rimando em batalhas e palcos de Fortaleza atualmente, é justo afirmar que muito se deve aos artistas pioneiros da cultura hip-hop que, entre as décadas de 90 e 2000, começaram a pavimentar o caminho da Capital nos quatro elementos do movimento: DJ, break dance, grafite e MC.
Entre as MCs que participaram desse momento está a rapper Ana Cristina Souza, 50, que começou a rimar nos anos 2000, sob o nome artístico Cris do Rap, após se aproximar das ações do Movimento Hip Hop Organizado do Brasil (MH2O) no Conjunto Ceará, um dos bairros onde o hip-hop começou a acontecer com mais força na cidade.
“Me apaixonei pelo rap porque ele expressava a realidade do nosso cotidiano, histórias reais, superações reais de pessoas que vieram para a cultura hip-hop. E aqui no Ceará a gente tinha – e tem ainda – essa coisa do rap mais politizado, mais crítico, mais social”, explica. “E eu vinha do movimento religioso, da igreja católica, das pastorais, então sempre tive uma tendência a me aproximar muito daquela visão dos excluídos, da questão social”, completa.
Depois de anos rimando sozinha, Cris formou, em 2007, junto às MCs Preta, Fabiana e Gejyca, o grupo MIRA, considerado o primeiro grupo de rap feminista da cidade. A sigla, que significava “Mulheres Informadas, Revolucionárias e com Atitude”, antecipava o objetivo do quarteto antes mesmo de elas começarem a rimar. “Nas letras, a gente abordava muito a questão da desigualdade social e da cultura machista”, conta Ana.
À época, as artistas se apresentavam nos poucos palcos e eventos voltados para o hip-hop. Não havia mercado para o rap e os espaços para mulheres eram construídos por elas mesmas, do jeito que era possível, com uma ajudando a outra. “Vou ser bem sincera com você: os desafios ainda são os mesmos”, lamenta Ana Cris.
“O que mudou é o contexto. Hoje o contexto está mais favorável à participação das mulheres”, pontua a artista, que recentemente voltou aos palcos, após um hiato, integrando o grupo misto Siará Rappers.
“Mas a gente não tem mercado aqui no Ceará. Furar a bolha é muito complicado. Não são todos os artistas de hip-hop, de rap, que conseguem furar a bolha no estado do Ceará, e os que conseguiram furar a bolha foram todos homens”, completa.
Entre os principais nomes de destaque nacional atualmente são grandes representantes do trap, uma das vertentes do rap, como Matuê e WIU. Nos últimos anos, o subgênero virou tendência e se tornou um dos ritmos mais ouvidos no Ceará e no Nordeste.
Liberdade sexual e combate à violência doméstica pautam letras
Além do combate ao preconceito de gênero, outros aspectos voltados para os direitos das mulheres integram as rimas de MCs cearenses. Nas letras da rapper, DJ e produtora cultural Ynaiã, de 23 anos, por exemplo, a liberdade sexual também é um tema frequente – para ela, uma forma de combater o estereótipo da mulher como objeto sexual, de estimular o empoderamento feminino e relembrar as mulheres que elas são donas de si.
“Faço questão de abordar a minha liberdade sexual nas minhas letras, mesmo sabendo que incomoda, porque eu estou cansada de sempre ser vista como objeto sexual, sempre ser objetificada nas letras dos homens”, declara Ynaiã.
“Quando a gente fala do cenário do trap hoje em dia, as mulheres são o tópico principal, porque eles falam do nosso corpo, eles precisam dessa atenção. Eles precisam inflar o ego deles, estar rodeados de mulheres, porque isso significa que eles são bem sucedidos, que eles são legais. A gente não precisa disso”, completa.
A artista, que começou a rimar na adolescência, se dedicou por anos ao rap freestyle, ou seja, rimas improvisadas, feitas na hora. Por anos, trabalhou principalmente em ônibus de transporte coletivo de Fortaleza, saindo do Mondubim e circulando por toda a cidade.
Em 2023, Ynaiã lançou o primeiro single, a música “AS50”. Com a gravação, conseguiu levar o que fazia na rua para a pista e começou a dar palestras e oficinas. Agora, ela se prepara para lançar novos trabalhos em 2026, com foco em aproveitar o bom momento para o rap feito por mulheres.
“Eu acredito também que 2025 foi o ano do rap feminino, e que em 2026, 2027 e nos próximos anos a tendência é só crescer. Eles vão ficar mais incomodados, porque a gente vai continuar falando mal de homem”, brinca.
Apesar do tom bem-humorado, a artista destaca que as letras que falam sobre empoderamento feminino – dela e de outras rappers – têm um propósito firme: o de relembrar as mulheres de sua própria liberdade em um momento em que a violência doméstica só aumenta.
“As mulheres estão cada vez mais empoderadas, cada vez mais decididas a terminar relações, cada vez mais incentivadas, e isso graças ao rap feminino também, que as estimula a sair de relações tóxicas com homens, a reconhecer ciclos abusivos de violência”, ressalta. “Porque a gente está mostrando que a gente pode ter o posicionamento de decidir sair das relações, de decidir o que a gente quer para nossa vida. E eles não aceitam isso”, lamenta.
Rap feminino nasce nas periferias e conecta a cidade
Jovens rappers como Ynaiã, que por anos atravessou a cidade para divulgar seu trabalho artístico, são o retrato da cena do gênero musical em Fortaleza hoje. Com poucos palcos abertos ao rap, as artistas se auto-organizam e buscam nas conexões com outros artistas a possibilidade de impulsionar suas carreiras e o movimento hip-hop cearense.
“O rap aqui no Ceará é muito feito por meninas de comunidades, meninas periféricas, que têm que vencer vários desafios durante o dia, de sobrevivência, de se manter, se sustentar economicamente”, destaca a veterana Ana Cris. “E, além disso tudo, você tem que correr atrás do seu espaço, porque não existe um espaço em cada praça, em cada esquina, em cada equipamento cultural”, destaca.
Exemplo dessa autogestão no rap cearense são os saraus que, junto às batalhas de rima, movimentam e projetam talentos em diferentes bairros da cidade há mais de uma década. Um dos nomes de maior destaque da cena do rap cearense, a rapper e arte-educadora Má Dame, de 29 anos, é fruto desse movimento.
Em 2017, aos 21 anos, a moradora do Quintino Cunha costumava caminhar por pouco menos de meia hora para chegar ao Antônio Bezerra e participar do sarau Okupação, que existe até hoje. Na época, poucas mulheres rimavam nos eventos, mas a poesia falada estava em alta. Foi assim que a artista começou a se interessar pelo rap e buscar novas possibilidades artísticas.
Desde então, Má Dame já lançou diversos singles, colaborou com outros artistas de destaque na cena e se apresentou em palcos importantes, com shows recentes em Fortaleza, no Crato e em São Paulo. Mesmo assim, a artista ainda encontra impasses para solidificar a carreira – a profissionalização do seu trabalho, conta, tem impactado nos espaços que consegue ocupar.
“Eu sou uma das artistas que mais consegue se propagar através principalmente do rap pelo Ceará, mas eu ainda luto para ter o mesmo espaço que qualquer banda ou qualquer grupo masculino de rap de Fortaleza”, afirma.
“É um trabalho muito difícil, porque a minha carreira tinha tudo para não dar certo: uma travesti fazendo rap fazendo circulação nacional. Faço isso com meu esforço, mas ainda sinto que eu sou bem menos divulgada de forma orgânica do qualquer homem”, lamenta.
Segundo a artista, há equipamentos culturais que costumam abrir espaço para o rap, como o Centro Cultural Belchior e a Estação das Artes, mas geralmente com pouco diálogo para um show completo, com banda, balé e DJ – formato que foge à dupla MC e DJ e que tem sido adotado pelos grandes nomes do rap nacional e internacional. “Se não vier alguém de fora que cante rap, para que eu vá abrir o show, não cabe”, pontua.
No momento, Má Dame se prepara para apresentar seu novo show, Codinome Rosatômica, no dia 13 de março. A apresentação será no Foyer do Cineteatro São Luiz, às 12h30, com acesso gratuito.
Lírica cearense e nordestina na caneta do rap
Nascida e criada na Granja Portugal, a rapper e dançarina Cabulosa, 22, formou-se técnica em dança no Centro Cultural Bom Jardim, onde atua hoje como monitora. Além da cultura que flui na região, a artista foi influenciada pelo som de rappers que conheceu pela internet, como a carioca Kmila CDD e a paranaense Karol Conká, e pelo crescimento do slam, as batalhas de poesia falada, entre 2018 e 2019.
Em 2023, foi convidada pelo produtor KatHead para lançar seu primeiro single, “Hmm… Obcecado”. “Foi uma surpresa muito boa. Senti muita identificação das meninas, das meninas negras de Fortaleza que chegavam em mim falando sobre essa identificação, né? Na música eu uso palavras do nosso dia a dia, do nosso vocabulário, então gerou muito isso”, destaca a artista.
A gravação foi o pontapé inicial para a aposta na carreira e a produção de seu primeiro single solo, “Nam Man”, lançado no ano passado, que também se utiliza de gírias conhecidas entre jovens fortalezenses para demarcar a fala. “É muito legal as pessoas chegarem e dizerem que se identificam. Eu sinto que é para isso mesmo que eu faço as músicas”, celebra.
Neste ano, a artista pretende lançar a primeira mixtape e lançar um novo show, com músicas autorais e convidadas. “Se a gente lança uma música, o público tem acesso. Por isso, esse é o primeiro plano, porque quando as coisas estão no papel, as pessoas não têm dimensão”, comenta.
Nós somos nordestinas, então as oportunidades são menores ainda. A gente ainda tá tentando alcançar esse público que é próximo a gente para que, talvez o público do rap conheça um dia, porque o público daqui gosta muito dos homens. São homens que se interessam muito pelos homens, no geral.”
O uso de expressões que fazem sucesso na cidade, especialmente em bairros periféricos, fortalece a identidade de um rap genuinamente fortalezense, que foge das convenções do eixo Rio-São Paulo. A rapper Ynaiã defende que isso tem ocorrido em diversos lugares do Nordeste, e que hoje não é mais preciso ouvir apenas “a cena do Sul”.
“O Nordeste tem muita referência, a gente tem referência do forró aqui, da lírica, a gente tem referência do afoxé, do manguebeat de Recife. A gente tem muita referência cultural, então o rap do Nordeste, em si não só de Fortaleza, é grandão. E o rap feminino do Nordeste também tem uma identidade diferente”, garante.
O que pode fazer o rap feminino avançar em Fortaleza?
Um dos principais aspectos citados pelas entrevistadas como um fator decisivo na desigualdade de gênero no rap é a onipresença dos homens nos cargos de tomada de decisão na indústria, de contratantes a produtores.
“Os homens estão produzindo os festivais, os homens estão contratando, os homens são os donos das gravadoras. Então, existe essa escolha de [escolher] outros homens. A gente precisa estar nesses outros lugares também, nesses lugares de tomadas de escolha, para que a gente consiga continuar se escolhendo, inclusive”, pontua Cabulosa.
Má Dame destaca que esse protagonismo masculino prejudica, inclusive, as produções de mulheres e homens trans, já que muitos produtores não estão acostumados a ouvir rappers trans.
“Eu sempre tive essa consciência que eu preciso direcionar todo o corre, tanto visual quanto o áudio das minhas músicas, porque ninguém é acostumado a ouvir uma pessoa como eu, nem o melhor produtor do Brasil”, ressalta, destacando a necessidade de atenção a esses artistas e protagonismo trans de ponta a ponta.
O combate ao racismo estrutural também deve estar na pauta pelo protagonismo das mulheres no rap, lembra a artista. “É impossível a gente separar o racismo estrutural das contratações de hip-hop, porque o hip-hop vem de um movimento e de uma geografia que já é a que sofre mais racismo dentro do nosso mapa”, completa.
Cabulosa cita, ainda, a necessidade de políticas públicas formativas que conversem com a rotina das mulheres, que geralmente precisam dar conta de várias ocupações no cotidiano e não conseguem se dedicar 100% à carreira musical.
“Entendo que a gente precisa de mais oportunidades, de mais lugares pensando na gente, inclusive de formação. E [entender] como isso chega na gente também, porque na maioria das vezes a gente não faz só isso, a gente faz muitas outras coisas”, afirma.
“Esse é um grande desafio, porque se a gente não consegue ter o tempo para desenvolver o nosso trabalho, a nossa arte, as nossas letras, nossas produções, a gente não consegue desenvolver um trabalho super potente que poderia estar na rua”, completa.
Ana Cris reforça a ideia. “Para mim, o ideal é que a gente tivesse algo mais estruturante aqui na capital, como uma escola de formação, que desse todo o apoio às artistas para construir a sua carreira, pensar o seu projeto artístico”, aponta.
A artista destaca que ter uma cena mais diversa no rap não significa, apenas, ganhos individuais para as artistas, mas um ganho social para a cidade. “Ter uma mulher que cante rap em destaque na cena de Fortaleza é ter uma referência feminina que representa uma cultura que acontece em todas as periferias e comunidades do Ceará, e que amplamente não está nos espaços de visibilidade”, afirma.
“Ter mulheres de referência, que apareçam continuamente nos espaços culturais – na TV, no rádio, nos palcos – fortalece essa referência e abre sonhos para outras garotas”, completa.
Para a artista e ativista, palcos que já abrem seus espaços para as rappers – como os equipamentos da Rede Cuca, o Centro Cultural Belchior e o Museu da Imagem e do Som (MIS), que costumam lançar editais específicos para o rap – têm sido fundamentais nesse processo, mas ainda são “pouquíssimos”.
“É preciso aumentar esses editais e aumentar esses programas”, destaca. “O rap feminino hoje é muito mais forte do que era antes, mas ele ainda precisa de uma formação de plateia, no meu entendimento, porque nós, mulheres, quando vamos praticar algum tipo de cultura, a gente carrega também muito da nossa vivência, dos nossos conhecimentos e do nosso ser mulher”.
Para Cabulosa, os desafios ainda são muitos, mas o futuro guarda boas novas. “Eu me sinto bem esperançosa, porque realmente as proporções do reconhecimento de mulheres no rap estão sendo outras. Tem surgido muita mulher, e pode surgir mais, porque quanto mais a gente se jogar, mais coisas vão aparecendo”.