Todos os dias da semana, em diversos bairros de Fortaleza, jovens se reúnem para celebrar a cultura hip-hop. As batalhas de rima movimentam a cena musical cearense e contribuem transformar histórias por meio da arte. No rap improvisado feito por MCs independentes, prestigiado por públicos de até centenas de pessoas, temas como violência, saúde mental, desigualdade social e fama são ecoados como meio de colocar em destaque as demandas da juventude.

No Brasil, as batalhas começaram a fazer sucesso nos anos 2000, especialmente no Sudeste, e foram responsáveis pela projeção de artistas de destaque da cena nacional, como os rappers Djonga (MG), Emicida (SP) e Xamã (RJ). Já no Ceará, esse movimento começou a crescer no início dos anos 2010, quando os duelos de breakdance e de rap – dois dos fundamentos do hip-hop – começaram a se popularizar em todo o País e chegaram a Fortaleza.

Esta reportagem, publicada no Dia Mundial do Hip-Hop, faz parte de um especial do Verso sobre a importância das batalhas de rima para a cena cultural de Fortaleza. A segunda – que trata do impacto e desafios desse movimento na projeção de novos artistas– será publicada nesta quinta-feira (13), no Diário do Nordeste.

Rapper, doutorando em Sociologia e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV/UFC), Johnson Sales explica que as batalhas vão muito além do aspecto musical, trabalhando a percepção da juventude "sobre a comunidade, sobre a sociedade, sobre a indiferença da sociedade e do poder público em relação à sua realidade".

Para o sociólogo, as batalhas também funcionam como um contraponto à violência. Majoritariamente idealizadas por jovens negros e moradores de periferias, elas se tornam oportunidade de combate a uma visão estereotipada da juventude contemporânea. "As batalhas mostram a juventude como criativa, organizada, mobilizada. Ela tem muito o que dizer e ela está dizendo em cada praça, em cada esquina, em cada batalha que acontece na cidade", pontua.

MCs se cumprimentam após duelo na Cururu Skate Rap, na Parangaba.
Legenda: MCs se cumprimentam após duelo na Cururu Skate Rap, na Parangaba.
Foto: Ismael Soares.

Johnson destaca que as batalhas são uma ferramenta de formação cidadã, de educação e diversão, mas também de perspectiva de inclusão socioeconômica a partir da profissionalização da arte. "Muitos MCs ganham prêmios, disputam campeonatos nacionais, se tornam artistas permanentes, cantando rap, trap", aponta.

Espaços culturais e esportivos viram palco para novos talentos

Batalha do Ação ocorre há 12 anos no CCBNB Fortaleza.
Legenda: Batalha do Ação Hip-Hop ocorre há 12 anos no CCBNB Fortaleza.
Foto: Hiago Braga/Divulgação.

Na Capital, as batalhas de rua ganharam protagonismo não só em praças e outros espaços ao ar livre, que são habituais dos duelos, mas também em centros culturais e esportivos, como o Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB), o Centro Dragão do Mar de Cultura e Arte (CDMAC) e os Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cucas).

Organizada pelo rapper Felipe Rima, a Batalha do Ação Hip-Hop foi uma das pioneiras na capital cearense e segue em atividade até hoje. Criada em 2013 como um projeto do CCBNB, equipamento localizado no Centro da Cidade, a batalha começou com o intuito unir as vertentes do hip-hop – break, rap, grafite e DJ – e inserir Fortaleza no circuito brasileiro de MCs. 

“Estava começando um movimento nacional das batalhas de MCs, com vários MCs eclodindo, mas aqui não tinha um espaço que pudesse dar uma estrutura, mesmo que rudimentar, tipo um microfone, um lugar para o cara cantar”, conta. 

Felipe, que começou a rimar em 2002, aos 14 anos, conta que viu nas batalhas de rima uma forma de autonomia e autoestima – benefícios que se mantêm até hoje para quem é declarado vencedor nos encontros. 

Rapper e palestrante Felipe Rima é um dos pioneiros na organização de batalhas na Capital.
Legenda: Rapper e palestrante Felipe Rima é um dos pioneiros na organização de batalhas na Capital.
Foto: Divulgação.

“Quando um MC ganha a folhinha [documento informal que “certifica” o vencedor de cada batalha], que é como se fosse o troféu daquela batalha, é um espaço conquistado. Então, eles vivem em torno, imbuídos dessa energia de ganhar a batalha, porque isso o afirma como o melhor MC, isso mostra que o cara é desenrolado, que o cara se garante”, explica.

Na Batalha do Ação, além do título, também há uma premiação em dinheiro: R$ 500 por batalha, um valor alto em relação a outras premiações da Cidade. Essa remuneração, conta Felipe, é um dos aspectos que mais se transformou desde o início de tudo, há mais de uma década. Se antes havia uma diferença entre o rap feito nas ruas e o rap pensado para a indústria musical, hoje um pode ser caminho para o outro.

Organização e público de uma das edições da Batalha do Ação Hip-Hop, no CCBNB Fortaleza.
Legenda: Organização e público de uma das edições da Batalha do Ação Hip-Hop, no CCBNB Fortaleza.
Foto: Hiago Braga/Divulgação.

“Antes a gente rimava apenas para rimar e brincar. As rimas mais sérias, ou levar a vida na arte, era mais na música mesmo – criar um CD, fazer músicas que tocassem as pessoas. Isso era um caminho para eclodir dessa realidade dura que a gente via e vivia”, contextualiza. 

“Hoje, as batalhas de MCs também são um caminho para sair da vida dura que a gente tem e alcançar grandes palcos, viajar pelo Brasil, conhecer o mundo, ser reconhecido e respeitado. A batalha de MCs se tornou também um caminho, um viés de possibilidade de alçar novos voos na vida, e os jovens estão vendo isso de forma cada vez mais tangível”, aponta o rapper Felipe Rima.

Batalha do Dragão completa 10 anos em atividade neste ano.
Legenda: Batalha do Dragão completa 10 anos em atividade neste ano.
Foto: Kid Júnior.

Além do CCBNB, outro centro cultural que ganhou sua própria batalha foi o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), que desde 2016 sedia a Batalha do Dragão. Apresentado pelo rapper Erivan Produtos do Morro, o evento tem oito edições anuais e costuma ocorrer na última sexta-feira do mês.

Assim como Felipe Rima, Erivan não começou nas batalhas, mas em palcos e estúdios. A trajetória de duas décadas no rap cearense, à época, foi o motivo do convite do Dragão para o posto de organizador da batalha. Sobrinho de repentistas de Ipaumirim, cidade do Centro-Sul cearense, ele lembra de ver os tios e amigos fazendo desafios de repente, ação que mais tarde associaria a uma tradição oral brasileira mais ampla, que também inclui as batalhas.

À frente da Batalha do Dragão, Erivan começou a liderar batalhas de conhecimento, tipo de embate em que os competidores recebem um tema para rimar, como educação ou saúde.

São diferentes, explica, das batalhas de sangue, que incluem temas importantes e politizados, como acesso ao lazer e combate a violência, mas também xingamentos, “zoação” e foco em superar o adversário. 

Erivan Produtos do Morro (no centro da imagem) apresenta a batalha, focada em temas educativos.
Legenda: Erivan Produtos do Morro (no centro da imagem) apresenta a batalha, focada em temas educativos.

O embate verbal em forma de lírica, no entanto, é parte da batalha de rima, e costuma ser levada de forma amigável por todos que participam – muitas vezes, inclusive, em batalhas de duplas, trios ou grupos.

Para Erivan, a chegada da Batalha do Dragão foi fundamental para ampliar a cena local de MCs, por ocorrer “em um lugar central, de fácil acesso, onde as pessoas não têm medo de ir”. “Tanto o público quanto os MCs têm procurado um lugar tranquilo para andar, justamente por causa da violência”, destaca. 

O rapper ressalta, ainda, que a localização central e o estilo de rima não fazem da batalha uma “versão gourmet”, mas uma batalha formativa, acessível a novos públicos, inclusive adolescentes.

“A Batalha do Dragão foi feita principalmente para trazer novos artistas, porque existe uma rotatividade [na cena]. Nem todos os caras que rimavam em 2016 estão rimando hoje, porque não ganharam grana pra sustentar a família, não conseguiram uma projeção”, explica.

Cerca de 50 pessoas comparecem a cada edição.
Legenda: Cerca de 50 pessoas comparecem a cada edição.
Foto: Kid Júnior.

Quase em paralelo à criação da Batalha do Dragão, os Cucas começaram a receber atividades ligadas ao hip-hop e sediar batalhas que se tornaram conhecidas na Cidade, como a Batalha da Quadrinha, no Cuca Mondubim, e a Batalha do Jangu, no Cuca Jangurussu, ambas inativas atualmente.

Em parceria com coletivos de arte urbana, os espaços sediavam estrutura básica, como acesso a microfone e cessão de espaço. Atualmente, o Cuca Jangurussu é a casa de uma das batalhas mais famosas de Fortaleza, a Batalha da Sul, que surgiu da união de batalhas de diversos bairros em 2022.

Idealizada pelo jovem João Roberto Fontenele, 23, MC e microempreendedor, a Batalha da Sul surgiu como um encontro das batalhas do Jangu, dos Crias, do Curió e Rapducera, mas logo começou a receber nomes de outras cidades e estados, consolidando-se como uma nova batalha. Após um ano na ativa e um ano e meio de hiato, ela voltou a ser realizada em agosto deste ano e costuma ocorrer na última sexta-feira de cada mês, reunindo de 100 a 400 pessoas.

João destaca que hoje, mais do que nunca, as batalhas são “o início da carreira de muitas pessoas” – a exemplo do rapper cearense Leviano, que fez carreira no trap e hoje é contratado da gravadora Mainstreet.

“Ele se projetou na diante dos nossos olhos, praticamente,  como um artista nacional. Saiu da Messejana, da organização do Rapducera e se projetou pouco a pouco, até ter uma notoriedade”, lembra. Outro exemplo é o de Tonhão, MC cearense que hoje mora em São Paulo e participa das maiores batalhas do País. 

Para chegar longe, no entanto, batalha e artistas têm encontrado nas redes fortes aliadas para angariar novos fãs. A Batalha da Sul, por exemplo, investe em perfis no TikTok, Instagram e YouTube para transmitir as batalhas na íntegra e os melhores momentos em cortes, chegando às milhares de visualizações por edição. 

Nas redes sociais, há centenas de perfis dedicados a cortes de batalhas de rima, muitos deles dedicados a artistas de todo o Brasil.

“Independente do tamanho da batalha, é importante, porque é um conteúdo que chama atenção, então a tendência de qualquer batalha que esteja fazendo é crescer rápido”, aponta.

Mais importante que aumentar o número de seguidores, a participação nas redes também reflete no público a cada encontro, fortalecendo a batalha. “Sempre que o pessoal do bairro vê, vai acabar querendo engajar, vai querer saber quando vai ter”, conclui.

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Maior batalha ocorre na Parangaba e dialoga com questões sociais

Cururu Skate e Rap está na ativa há oito anos e é considerada a maior do Estado.
Legenda: Cururu Skate e Rap está na ativa há oito anos e é considerada a maior do Estado.
Foto: Ismael Soares.

Ainda que sejam acolhidas em alguns equipamentos culturais, a maior parte das batalhas ocorre nas ruas, em praças e outros espaços abertos. Exemplo disso é que, em todas as quartas-feiras, jovens começam a se aproximar da pista de skate do Ginásio Poliesportivo da Parangaba, na Capital, amontoando-se em pequenas rodas até chegarem as esperadas caixas de som, microfones e extensões.

Enquanto isso, barracas improvisadas vendem lanches e drinks e alguns dos presentes se inscrevem para participar da Batalha Cururu Skate e Rap, considerada a maior em atividade no Ceará.

Idealizador da Cururu, Peixe organiza a batalha junto a um coletivo de jovens produtores culturais.
Legenda: Idealizador da Cururu, Peixe organiza a batalha junto a um coletivo de jovens produtores culturais.
Foto: Ismael Soares.

Organizada pelo MC, produtor cultural e idealizador Matheus Rodrigues, 31 – que atende por “Peixe” desde a infância –, junto a outras oito pessoas, a batalha surgiu em 2017 e, desde então, se manteve firme e cativando um público cada vez maior e diverso. 

Em uma batalha acompanhada pelo Verso, praticamente metade da audiência era feminina. Além disso, a batalha tem promovido rodas de conversa sobre direitos da população LGBTQIAP+, numa tentativa de conscientizar as novas gerações de artistas e fãs sobre direitos humanos e termos e ações que devem ser evitados.

A vontade de criar uma batalha surgiu quando Peixe e amigos decidiram, por conta própria, fazer um evento de rap para arrecadar dinheiro para reformar obstáculos da pista de skate que frequentavam. Nessa época, o produtor começava a frequentar batalhas de Fortaleza, como a Batalha da Quadrinha, que acontecia no Cuca Mondubim, e percebeu que a Parangaba não tinha uma batalha própria. 

O que era um evento mais amplo, aos poucos, tornou-se uma batalha conhecida e respeitada entre MCs, produtores e fãs de rap. Já no primeiro evento, mais de 100 pessoas apareceram e o dinheiro arrecadado com a venda de bebidas foi suficiente para a reforma da pista – e para o grupo perceber que o bairro tinha uma carência nesse segmento.

Batalha ocorre na Parangaba.
Organização da Cururu Skate e Rap.
Público na Cururu Skate e Rap.
Legenda: Público e parte da organização da Cururu Skate Rap.
Foto: Ismael Soares.

“Vi que aquilo ali tinha um potencial muito grande, porque a gente também tava fazendo a batalha porque a gente tava num âmbito de violência muito grande na época, as facções estavam começando a dominar os bairros de Fortaleza”, lembra Peixe. Naquele momento, a batalha era uma oportunidade de reunir jovens de diversos pontos da Cidade em um lugar seguro, com foco na arte.

Com recursos próprios até este ano – quando finalmente conseguiu a primeira aprovação em um edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) –, a batalha tem sido mantida “de forma muito underground”, com recursos próprios e amor pelo rap. Cerca de 200 pessoas comparecem por edição, e cada encontro tem em torno de 50 MCs inscritos para duelar.

Duelos de rimas são definidos por sorteio, após inscrições no local do evento.
Legenda: Duelos de rimas são definidos por sorteio, após inscrições no local do evento.
Foto: Ismael Soares.

Para Peixe, a Cururu tornou-se um projeto fundamental não só pela música, mas por seguir sendo um espaço seguro e estimulante para a juventude. “Quando a gente fala que o rap salva é muito mais do que uma frase. Quando comecei a trabalhar com o hip-hop, tinha meus 14, 15 anos, eu era uma pessoa que tinha certo envolvimento com coisas erradas, e foi justamente o hip-hop que me salvou, de todas as formas”, lembra.

“As batalhas de rima têm um papel fundamental nisso. A gente sabe que hoje em dia não existe um território de Fortaleza que não seja dominado por facções, por violência, enfim, por todo esse cenário que a gente vive hoje. A gente conseguir reunir 200 jovens, naquela faixa entre os 16 e 26 anos, no mesmo lugar, de uma forma pacífica, é muito importante”, destaca.

Emely e Margot, ao centro da foto, costumam frequentar batalhas com amigas.
Legenda: Emely e Margot, ao centro da foto, costumam frequentar batalhas com amigas.
Foto: Ismael Soares.

Frequentadoras da Cururu Skate e Rap, as amigas Emely Barbosa, 23, e Margot Ferreira, 28, destacam a importância da batalha e de outros projetos com foco no rap para a Cidade. Emely, que é estudante e assessora parlamentar, destaca que as batalhas têm como protagonistas “a juventude periférica, negra e LGBT” e que hoje há um debate nacional e municipal para que elas sejam impulsionadas.

“Existem várias cenas de batalhas em Fortaleza, mas muitas são criminalizadas e tratadas como se não fossem cultura, inclusive sendo desvalorizadas em vários espaços. Por exemplo, aqui nós estamos na Cururu, que é a maior batalha do Ceará, mas tem uma série de conflitos – tanto para conseguir espaço, como para conseguir estrutura”, comenta.

Rimas incluem temas cotidianos e questões políticas.
Legenda: Rimas incluem temas cotidianos e questões políticas.
Foto: Ismael Soares.

Já Margot, que é educadora social, categoriza as batalhas como espaços democráticos, em que há um diálogo forte sobre as demandas da juventude. “Independente de localidade, de CEP, onde a gente sabe que existe uma dificuldade de atravessamento da juventude, eles se reúnem como um espaço de resistência mesmo, para debater”, pontua. 

“E não só debater, mas também desacelerar e desafogar todas essas violências que perpassam o nosso dia a dia. De uma maneira muito individual, eles vão estar lançando aqui uma análise de conjuntura do que eles estão vivendo, numa linguagem que não é acadêmica, na linguagem que é popular da favela de Fortaleza”, conclui.

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Ausência de políticas públicas ainda é desafio

Assim como a popularização, a valorização e o reconhecimento das batalhas como fator de impulsionamento à arte e à juventude tem chegado aos poucos. No ano passado, o Dia Estadual da Batalha de Rima no Ceará – celebrado em 3 de dezembro – foi instituído, mas MCs e produtores ainda enfrentam desafios para conseguir se manter na ativa. 

A maioria das batalhas mapeadas pelo Verso enfrenta problemas similares, como falta de estrutura, recursos e apoio logístico, além do estigma que ainda circunda linguagens artísticas consideradas à margem. 

Outro desafio é a repressão, que ocorre tanto pelas forças de segurança quanto pelas facções criminosas. “Infelizmente, muitas batalhas ao nosso redor não existem mais por conta da violência. A Batalha do Sul se mantém porque é no Cuca, é um local mais centralizado, mas ainda lá a gente infelizmente já chegou a ter eventos cancelados devido ao crime”, lamenta o produtor João Fontenele.

Para Peixe, da Cururu Skate e Rap, a principal forma de resistir é conseguir acesso às políticas públicas, superando as burocracias e profissionalizando as batalhas, como aconteceu com a Cururu após a aprovação na PNAB. Além dos recursos financeiros, o acesso ao recurso garante mais segurança e menos represálias, especialmente da polícia, segundo o produtor. "Com quase 10 anos de caminhada, hoje a gente tem um cenário diferente, né? Hoje em dia a gente é resguardado por leis", pontua. 

O sociólogo Johnson Sales, no entanto, avalia que as medidas ainda são insuficientes. Ele destaca conquistas como as leis que promovem a Semana Municipal do Hip-Hop e a Semana Estadual do Hip-Hop, além do Decreto de Valorização e Fomento à Cultura Hip-Hop, assinado pelo presidente Lula em 2023, mas afirma que essas políticas não são efetivas, já que há recursos suficientes destinados a esses eventos em nenhum âmbito governamental.

"Nós precisamos de dinheiro, de editais, de recursos, de poder fazer eventos de hip-hop espalhados dentro de todas essas comunidades. Se nós tivéssemos mais batalhas de MCs, mais campeonatos de breaking, mais apresentações de rap, mais painéis e oficinas, de grafite, se nós tivéssemos mais hip-hop apoiado e estruturado em políticas públicas dentro dessas comunidades, seguramente a nossa realidade talvez fosse outra", aponta.

A necessidade de medidas que validem o trabalho dos MCs e de outros artistas urbanos se torna ainda maior quando se considera que a cultura hip-hop enfrenta, além do preconceito de classe, o preconceito racial — sendo assim urgente a necessidade de um olhar institucional para essa questão.

"O hip-hop tem uma identificação clara com os de baixo, uma identificação clara com os mais pobres, uma identificação com os trabalhadores, com os oprimidos, com os excluídos da sociedade, com os injustiçados sociais", comenta Johnson.

"Se ele traz tudo isso na sua temática, na sua estética, é claro que ele vai sofrer retaliações e vai sofrer uma resistência muito grande de uma sociedade que ainda está fincada nas bases do racismo estrutural, um país que ainda não superou toda uma tradição escravocrata, patriarcal, uma sociedade ainda elitista, perversa", conclui.

Governos municipal e estadual pretendem ampliar políticas

Questionada pelo Diário do Nordeste sobre as políticas que a Capital dispõe para as batalhas de rima, a secretária da Cultura de Fortaleza, Helena Barbosa, destacou que o movimento tem grande relevância para a Cidade e que os duelos são "expressão de arte, identidade e resistência".

Segundo ela, a gestão tem realizado uma agenda de diálogo com os artistas de Fortaleza para mapear as necessidades de cada segmento. "Esse diálogo tem ocorrido, especialmente, a partir dos fóruns e dos conselhos setoriais, entre eles o Fórum de Artistas Urbanos e a Rede em Construção de Artistas Urbanos", explica. 

Até o momento, a gestão tem realizado parcerias e eventos pontuais em parceria com batalhas e MCs da Capital, como um workshop de rima com a Cururu Skate e Rap e uma série de atividades ligadas ao hip-hop no Festival Internacional de Danças Urbanas na Cena (Fiduc).

"No campo do fomento, executamos o Edital Cultura Hip-Hop e Práticas Urbanas, que contempla projetos voltados às expressões culturais do Hip-Hop e práticas urbanas em Fortaleza, com investimento total de R$ 480 mil, no apoio a 39 projetos. Recentemente, lançamos os editais Cultura na Calçada e Diálogos de Rua, que contemplarão múltiplas linguagens e expressões, entre elas as batalhas de rima. De fato, são novidades que ampliam as possibilidades de apoio", destaca a gestora. 

Já a Secretaria da Cultura do Ceará (Secult Ceará) afirma que, recentemente, as batalhas de rima têm ganhado mais espaço nas políticas de fomento por meio de apoio e valorização da cultura hip-hop.

"Em 2024, o Conselho Estadual de Políticas Públicas do Ceará (CEPC) foi reformulado, estabelecendo o Assento para a Cultura Hip-Hop. Esta medida reconhece a relevância do movimento e valoriza seus praticantes em toda a sua diversidade", explicitou a Pasta, em retorno aos questionamentos do Verso.

Apesar de não citar políticas especificamente voltadas para as batalhas, a Secult-CE afirma que a cultura hip-hop "já é beneficiada pelos editais de fomento às artes das diversas Coordenadorias da Secult Ceará, bem como pelas chamadas para a programação da Rede de Espaços Públicos". A Pasta ainda cita a presença de batalhas em eventos como feiras literárias e espaços como o CDMAC e o Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ).

A Secult também informou que não possui nenhum edital de fomento específico para o hip-hop, mas afirma que o principal avanço político ainda está por vir. "Está em avaliação a criação de um edital próprio para a Cultura Hip-Hop ou a inclusão dela no Edital Ceará das Artes, que atualmente abrange 13 linguagens", informou.

Ceará é terreno fértil 

Além da cena da Capital, outras dezenas de batalhas se espalham por cidades do interior e da Região Metropolitana de Fortaleza, como a Batalha da Cascavel e a Batalha do Cangaço, em Juazeiro do Norte, a Mina Rima, batalha exclusivamente feminina de Sobral, a Batalha do S.T, no Eusébio, e a Batalha da Areninha, em Caucaia. 

Outros municípios, como Maracanaú, Pacatuba, Itapipoca e Itarema também têm batalhas ativas. 

Na Capital, são pelo menos 15 batalhas ativas, com periodicidade semanal, quinzenal ou mensal. São desses territórios que se formam os novos nomes do rap. A segunda reportagem desta série, que será publicada na quinta-feira (13), conta algumas dessas trajetórias e amplia a discussão sobre os desafios da cena. 

Conheça as principais batalhas de Fortaleza:

- Batalha Cururu Skate e Rap (Parangaba)
Quando: Semanalmente, às quartas-feiras, a partir das 18h
Mais informações: @cururuskateerap

- Batalha da Arena GB (Genibaú)
Quando: Semanalmente, às segundas-feiras, a partir das 19h
Mais informações: @batalhadaarenagb

- Batalha da Ceart (Aldeota)
Quando: Semanalmente, aos domingos, a partir das 18h
​Mais informações: @batalhanaceart

- Batalha da Semi (Rodolfo Teófilo)
Quando: Semanalmente, às terças-feiras
​Mais informações: @batalhadasemioficial

- Batalha da Sul (Jangurussu)
Quando: Mensalmente, na última sexta-feira de cada mês
​Mais informações: @batalhadasul.085

- Batalha da ZW (Prefeito José Walter)
Quando: Semanalmente, às terças-feiras, a partir das 19h
​Mais informações: @batalhadazw

- Batalha do Ação Hip-Hop (Centro)
Quando: Quinzenalmente, aos sábados
​Mais informações: @ccbnb_fortaleza

- Batalha do Beira Hell (Vila Velha)
Quando: Semanalmente, às terças-feiras, a partir das 19h
​Mais informações: @batalhadobeirahell

- Batalha do Curió (Curió)
Quando: Semanalmente, às quintas-feiras, a partir das 19h30
​Mais informações: @batalhadocurio

- Batalha do Dragão (Praia de Iracema)
Quando: Mensalmente, na última sexta-feira de cada mês, a partir das 18h
​Mais informações: @batalhadodragao.ce

- Batalha do Girassol (Messejana)
Quando: Semanalmente, às segundas-feiras, a partir das 18h30
​Mais informações: @bdgirassol

- Batalha do Polo do Conjunto Ceará (Conjunto Ceará)
Quando: Semanalmente, aos sábados, a partir das 19h
​Mais informações: @batalhadopolocj

- Batalha Freiriana da Uece (Itaperi)
Quando: Mensalmente
​Mais informações: @batalhafreirianadauece

- Esperança Hip-Hop (Conjunto Esperança)
Quando: Quinzenalmente, às terças-feiras
​Mais informações: @esperancahiphop

- Panorama de MCs (Parangaba)
Quando: Quinzenalmente, às sextas-feiras
​Mais informações: @panoramademcs