Namorar para quê?

Os critérios da escolha amorosa e a importância de enxergar, no outro, mais a verdade do caráter e apreço pela essência do que o brilho das aparências

Escrito por
Adalberto Barreto ceara@svm.com.br
Legenda: O namoro pode ser entendido como um tempo de aproximação e conhecimento.
Foto: Ron Lach/ Pexels

A pergunta do título parece sem sentido, mas não é. Num tempo em que muita coisa nasce ligeiro e se desfaz ligeiro ainda, perguntar “namorar pra quê?” é quase remar contra a correnteza. A própria palavra já traz uma pista. Durante muito tempo, “namorar” significou cortejar, fazer sala, chegar com delicadeza, rondar o coração do outro sem atropelo.

Não era, necessariamente, um compromisso firmado, mas um movimento de aproximação e compromisso futuro. Hoje, embora o verbo costume nomear uma relação assumida, ele ainda guarda esse miolo antigo: namorar é achegar-se a alguém não para usar, possuir ou consumir, mas para conhecer, discernir, repartir afeto, conversa e silêncio, e escolher uma companhia saudável para a caminhada.

Ficar ou namorar, qual a diferença?

É aí que se abre a diferença entre “ficar” e “namorar”. Não se trata de botar banca moral nem de condenar os modos de amar do nosso tempo. Cada geração inventa seu jeito de se encontrar. Mas, em geral, “ficar” sugere algo mais solto, breve, sem compromisso desenhado, enquanto “namorar” aponta para continuidade, intimidade construída aos poucos e algum grau de responsabilidade afetiva.

O problema não está na brevidade de um encontro, mas na ilusão de que todo laço pode ser vivido sem consequência. Relação nenhuma passa em branco: deixa rastro, acende expectativa, produz encantamento, às vezes frustração, e sempre pede cuidado.

O que importa na hora de escolher uma morada para o amor?

O namoro, por isso mesmo, pode ser entendido como um tempo de aproximação e conhecimento. Um tempo de ver de perto o feitio do outro: afinidades, valores, limites, sonhos e o modo como cada um responde às durezas e bonitezas da vida.

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Nesse ponto, lembro uma história de meu pai, daquelas que parecem pequenas, mas carregam uma lição inteira. Aos 18 anos, já noivo de sua primeira namorada, ele voltava do trabalho numa tarde de sábado, na carroceria do caminhão de meu avô, ao lado de alguns amigos. Vinha suado, com a roupa simples de quem passou o dia no batente, trazendo no corpo a marca honesta do trabalho.

Quando o caminhão passou em frente à casa da noiva, ele se alegrou ao vê-la na calçada. Mas ela, em vez de acolher aquele gesto espontâneo, virou o rosto e entrou, como se aquele homem trabalhador, sem compostura de festa nem roupa de domingo, não merecesse ser reconhecido. Meu pai sentiu o golpe. Não apenas como humilhação, mas como aviso.

Entendeu, ali mesmo, que uma união não pode se firmar no gosto pela aparência, e sim no reconhecimento da essência de uma pessoa. Foi então que tomou uma decisão dura e clara: separou sua melhor camisa, sua melhor calça, levou-as até a casa da noiva e, em gesto seco e eloquente, deixou entendido que, se ela prezava mais a superfície do que o caráter, então ficasse com aquilo que lhe parecia mais valioso. O noivado terminou ali.

Homem e mulher idosos se beijando
Legenda: Uma união não pode se firmar no gosto pela aparência, e sim no reconhecimento da essência de uma pessoa
Foto: Caleb Oquendo/Pexels

Mais do que orgulho ferido, havia nesse gesto um critério. Para meu pai, a futura esposa precisava enxergar além da roupa, do brilho passageiro, da conveniência social. Precisava reconhecer a dignidade do homem simples, o valor do trabalho e a inteireza do caráter. Talvez ele não dissesse isso em linguagem de tratado, mas viveu como quem sabia: quem não ama a essência dificilmente sustenta o amor quando o verniz do mundo começa a descascar.

Os rituais de uma escolha

Na natureza, antes do acasalamento, muitos animais cumprem seus rituais de atração. Entre os pássaros, por exemplo, há canto, dança, exibição de penas coloridas, construção de ninho, oferta miúda que vale como promessa. Tudo isso compõe uma linguagem, um cenário de escolha.

A fêmea observa, compara, recusa, aceita. Há um tempo de atenção antes do vínculo. E essa imagem diz muito. Escolher nunca foi coisa sem importância. Mesmo no mundo animal, há sinais, critérios e demonstrações. Entre os humanos, que têm consciência, liberdade e responsabilidade moral, a escolha amorosa deveria ser ainda mais pensada, porque dela pode depender a paz ou a aflição de uma vida inteira.

E então a pergunta se impõe: o que deve orientar uma escolha amorosa responsável? Só a aparência? O encanto da primeira vista? A química, tão celebrada quanto passageira? Ou valores menos espalhafatosos, mas decisivos, como caráter, respeito, gentileza, equilíbrio emocional, capacidade de escuta e sentido de dignidade?

O namoro serve justamente para isso: para revelar o que o entusiasmo do começo costuma esconder. Como a outra pessoa trata quem discorda dela? Como reage à frustração? Sabe pedir perdão? Respeita limite? Escuta de verdade ou só espera sua vez de impor? Fica feliz com as conquistas do outro ou se ressente delas? São sinais sutis, é verdade, mas quando se repetem acabam mostrando traços profundos.

Valores que sustentam uma relação

Não se trata de escolher um objeto de vitrine, mas uma pessoa com quem se pode repartir dias, decisões, silêncios, crises, alegrias e, quem sabe, um projeto de vida. Por isso, namorar é também reparar em comportamento, e não apenas se deixar embalar por promessa bonita. Toda convivência duradoura precisa de valores que sustentem a casa quando o encanto da novidade arrefece.

A atração física tem seu lugar, mas não pode carregar sozinha o peso da relação. Sem companheirismo, admiração, confiança e disposição para crescer junto, a parceria afrouxa. O amor maduro não se confunde com vigilância, posse ou ciúme fantasiado de prova de afeto.

Relação saudável se firma em respeito, autonomia, diálogo e confiança, não em controle. Quem ama não aperreia nem aprisiona; cuida. Não reduz o outro a troféu; reconhece nele uma liberdade tão sagrada quanto a sua.

Amar é alegrar-se com a alegria do outro, apoiar seu florescimento, respeitar seus gostos, seu espaço, seus vínculos e sua singularidade. Isso não acaba com os conflitos, porque viver junto nunca foi flores sem espinho, mas muda o jeito de enfrentá-los.

Homem beija a mão de seu namorado
Legenda: Sem companheirismo, admiração, confiança e disposição para crescer junto, a parceria afrouxa.
Foto: Uriel Mont/Pexels

Dia dos Namorados uma ocasião para celebrar

Talvez por isso o Dia dos Namorados possa ser mais do que data de vitrine, rosa embrulhada, jantar marcado e fotografia caprichada para as redes sociais. Pode ser ocasião de exame sereno, desses que a gente faz em silêncio, no terreiro da consciência.

Para alguns, será tempo de aprofundar a experiência do encontro; para outros, de rever a estrada e perguntar, com honestidade, se há reciprocidade, respeito e paz nessa relação. Namorar para quê?

Para descobrir se o afeto tem raiz, se a admiração resiste ao correr dos dias, se a presença do outro alarga a vida em vez de apequená-la. Namorar, no melhor sentido, é ir levantando uma morada para o amor. E casa boa, no sertão ou na cidade, só aguenta inverno e estiagem quando assenta em alicerce firme.

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