Os fortes que adoecem em silêncio

Nos dias de hoje, o lazer não é apenas desfrutado, mas publicizado, criando um mundo interno superficial e ilusões de felicidade.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier ceara@svm.com.br
Legenda: Na sociedade da performance, tudo precisa ser rápido, útil e rentável.
Foto: Doidam 10/Shutterstock.

A sociedade da performance exige produtividade, sucesso, metas atingidas, visibilidade, aparências que denotem poder aquisitivo, que mobilizem inveja, que relatem pessoas que superam continuamente limites, que se distanciam de qualquer emoção que denuncie tristeza, vulnerabilidade, desamparo ou impotência. 

As pessoas que aparentam a performance e o sucesso, vendem receitas e angariam milhares de súditos em busca da obtenção milagrosa dos seus poderes de pretensa felicidade, resiliência e superação de dificuldades, como semideuses onde, diante da vulnerabilidade humana, só fosse permitida a vergonha e a culpa.

Nessa ilusão da fortaleza, do poder, do não parar, do não cuidar, do agir o tempo todo, do mostrar dinamismo e movimento ininterruptamente, da esteira de produção que carrega a si mesmo, constrói-se a ideia de que tem que ser forte o tempo todo. 

O forte não chora, não sente perdas, não adoece, não se cuida, não faz psicoterapia, não faz consultas preventivas, ele se automedica, ele vê lives e livros de autoajuda e recusa ajuda profissional, faz terapia pela IA, não dedica tempo a luto, não reconhece suas dores, não se envolve, não reconhece os erros, as dores, não admite falhar, perder, nem sofrer. Precisa ter controle de tudo, tudo planejado, não admite o improviso, nem o risco do afeto. Não aceita rejeições, racionaliza sofrimentos e emoções. O lazer não é desfrutado, é publicizado, e o mundo interno superficial e opaco, com repetições que aparentam ilusões de felicidade. 

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Na sociedade da performance todos precisam ser iguais, fortes, com a mesma estética, com a mesma força e coragem, com o mesmo perfil financeiro, que se ancora em padrões machistas e de dominação e que conduz esse sujeito a atacar a quem expõe a sua vulnerabilidade, e a executar atos de ataque e escárnio contra grupos e pessoas que ameacem suas ilusões. 

Na sociedade da performance, não há tempo dedicado ao cuidado genuíno, às relações. Tudo precisa ser rápido e ter alguma utilidade, ou rentabilidade. Quando não atende à lógica do sucesso e da funcionalidade, precisa rapidamente ser descartado.

O íntimo fica comprometido pela necessidade de publicicização e espetáculo. Dissemina-se a ideia de que só os fortes e bem sucedidos merecerão respeito e dignidade e desconsideram-se as multideterminações históricas culturais e sociais, a relevância do coletivo, e resume-se o êxito à meritocracia individual, como se todos tivessem o mesmo tempo e as mesmas oportunidades. 

Nesse redemoinho, quando alguém experimenta uma perda violenta, uma dor avassaladora, quando se depara com a impossibilidade de sustentar a imagem imponente diante da dor, pode surgir uma angústia e desespero avassalador.

Esse sujeito que precisa ostentar uma imagem de força, quando sofre, quando  se depara à beira do descarte, da exclusão, que não funciona de acordo com as expectativas do sistema, experimenta a solidão e muitas vezes a vergonha, como se desmoronasse a ilusão de si, tornando muito difícil recompor a máscara. Assim, lança-se na busca desesperada para magicamente recompor as dores, através de artifícios que deslocam ainda mais a posse de si e o alienam a medicações e êxtases de ilusão. 

Os fortes adoecem em silêncio, culpam-se por não darem conta, exigem uma perfeição e domínio sobre a dor que é impossível,  não pedem ajudam e constroem uma máscara que causa espanto quando aparece a própria face que revela a pessoa em sua existência real. 

Essa ideia de força, que aliena o sujeito de suas emoções, que faz ultrapassar limites, que coloca produtividade acima da saúde e dos afetos, que engendra solidões e violências,  que faz ver aos outros como competidores e inimigos, é uma ideia que distorce a força do coletivo, a força dos afetos, a força da solidariedade,  a força da doçura, a força da presença e do cuidado, a força da sabedoria e das aprendizagens partilhadas, a força da vulnerabilidade e da capacidade de recomeçar.

Repensando assim, talvez seja possível resgatar a força das palavras e da importância de dizer a um outro ser humano, que a ajuda é necessária e que o imaterial possui uma força inigualável. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.