Amar por culpa e dependência e amar por admiração

O amor é tema inconclusivo e presente em reflexões filosóficas, literárias, religiosas.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Atualmente, dois tipos de amor se sobressaem: o amor por culpa e dependência e o amor por admiração.
Foto: Shutterstock.

As relações são os grandes enigmas da nossa existência: através do outro nos constituímos, aprendemos, organizamos nosso desejo, repetimos comportamentos que nos desafiam na compreensão do sentido, buscamos experiências diversas de prazer, colo, compreensão, domínio, transformação, cuidado, parcerias, amizade, grupos, trabalho, construções e destruições.

O amor é um desses grandes enigmas. O que desejo do outro, o que o outro deseja de mim, o que desejo que o outro deseje, o que me encanta, o que me falta, o que desejo que o outro veja, o que desejo mirar no outro, o que me eleva, e o que me desnorteia passa pelas relações amorosas.

O outro que nos habita, nos movimenta e revela fantasias quando diante das relações. Assim, muitos do que é nosso, se revela na relação com o outro. Existem muitas dimensões e possibilidades do amor, e na relação com outros são revelados aspectos da nossa história e fantasias, assim como repetições das relações com os primeiros objetos amorosos.

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Transitamos ao longo das escolhas amorosas entre o que nos pertence, o que nos falta, o que idealizamos, o que buscamos repetir, completar, criar, conquistar, ressignificar,  transformar. Entre fantasias, palavras, comportamentos, ideias, afetos, vivenciamos o pior e o melhor de um ser humano nas relações amorosas, e nelas, muitas vezes, nos curamos e em muitas adoecemos.

O amor envolve uma posição subjetiva, revela os atravessamentos e sobre determinações da nossa vida, sejam inconscientes, econômicas,  políticas, as quais questionam  e compõe qual o  lugar que alguém ocupa em uma relação.

O que desejo, qual o lugar que o outro ocupa na minha fantasia, no meu desejo? O que vivencio nesse lugar? Por que fico, o que me mantém, o que repito? Quais sofrimentos e prazeres sustentam essa relação?

O amor envolve a posição de dois sujeitos, que mantêm uma dinâmica emocional alimentada pelos desejos e fantasias que se retroalimentam.

Descobrimos que não somos tão autônomos nas nossas escolhas, e que enquanto sujeitos precisaremos nos entender com a nossa responsabilidade diante do próprio desejo e com as estruturas sociais que influenciam nisso.

Vivemos em uma dinâmica social em  que ao mesmo tempo em que se prega a independência financeira, incentiva-se a dependência, seja enquanto seguidor, seja para se submeter a uma liderança religiosas, seja  de trabalho ou poder, abstraindo o livre arbítrio e a capacidade de aprofundar ideias  questionar, pensar e divergir.

Nesse contexto, afloram satisfação através de fantasias inconscientes de dominação e sofrimento que nos fazem repetir situações onde prazer e desprazer se misturam, que possuem aspectos masoquistas e que por vezes, mesmo sabendo do que acontece, não torna fácil o processo de mudança.

Na Grécia Antiga refletia-se sobre amor enquanto:

  • Eros (relacionado ao desejo, paixão, ao erotismo);
  • Philia (o amor da amizade, dos vínculos entre os iguais);
  • ou Ágape (o amor desinteressado, incondicional, generoso, o amor ao próximo e à humanidade).

O amor é tema inconclusivo e presente em reflexões filosóficas, literárias, religiosas porque nos conecta com a reflexão sobre quem somos e como lidamos com o outro e com o mundo.

Neste sentido, diante de muitas possibilidades, podemos pensar em algumas modalidades que têm composto o cenário atual: o amor por culpa e dependência e o amor por admiração.

O amor por culpa e dependência coloca um dos sujeitos, no lugar de cuidador, alimentado por culpas e dependência emocional, que pode se relacionar a ansiedades de separação e a construções sociais que defendem que amor é sacrifício e abnegação de um em detrimento de outrem, muito pautado por concepções patriarcais e machistas.

Quando nascemos, estamos totalmente dependentes e vulneráveis, e a construção para nos tornarmos interdependentes e com certa autonomia envolve um longo percurso.

Ao encontrar com alguém que reativa esses aspectos dependentes, muitas fantasias podem ser reavivadas ou construídas, inclusive a de aspectos narcísicos e onipotentes que criam a ilusão de poder cuidar sem limites ou a de culpa pelos lugares que os cuidadores ocupavam, onde talvez, em vez de cuidar dos filhos, os responsabilizavam pelos cuidados com os pais; ou as lacunas que ficaram  dos cuidados e amores não recebidos que espero agora, ser restituído com juros e correção no amor atual.

Assim, o sujeito permanece na relação, porque sente que precisa se responsabilizar e cuidar, como se cumprimisse uma sentença transferida da história dos amores iniciais, onde se sentia responsável pelas dores e sentimentos dos adultos.

O amor por culpa sustenta uma dinâmica relacional onde é preciso emprestar o que existe de saúde para transferir ao bem-estar do outro, até a hora que pela ausência de reciprocidade ou desrespeito ao tempo para se reabastecer, o sujeito se esgota e adoece.

O amor por culpa não permite diferenciação, é egoísta, exigente, e transfere ao outro a responsabilidade por todas as dores, angústias, vazios e solidões em um sutil movimento passivo-culposo.

Como se houvesse sempre uma busca por um cuidado incondicional que desrespeita as necessidades do outro e prioriza apenas os desejos de um. Quando frustrado aparece mágoa, rejeição, como se diante de qualquer mínimo pedido não atendido, todo o amor e relação fossem postos em questionamento.

Para o amor por culpa e dependência, nada é suficiente, não há reconhecimento, predomina a inveja, a agressividade e a culpa. A alegria é fugaz e rapidamente esvoaçante em ruminações e insatisfações.

Engendra um jogo passivo culposo onde o outro é posto como o responsável pelo que me faz sofrer e herdeiro de todas as minhas dores, atualizadas diante de cada impossibilidade de cuidar daquilo que demando.

O amor não aniquila a solidão, pois o amor deve envolver a existência da alteridade: dois não podem virar um. A busca pela completude, que o outro preencha meus vazios, que elimine todas as minhas dores, vira dívida emocional impagável e qualquer falta ou limite daquilo que não se pode dar ou tentativa de diferenciação passa a ser compreendida enquanto abandono.

O desejo de "fusão", o medo do abandono, a fantasia de rejeição podem ser cobranças de dívidas antigas atualizadas sobre o parceiro, que passa a ser cobrado pela "salvação emocional" do outro.

O amor por admiração faz o olho brilhar. O que o outro faz, o que outro diz é interessante, amplia, acrescenta. É uma parceria pela escolha de querer ficar, não pelo medo de não poder ir.

A história do outro provoca respeito e admiração pela identidade construída, pelo percurso travado, pela pessoa que se tornou. Não é pela conta bancária, pelo número de seguidores, não é pela superficialidade daquilo que aparenta ser. É pela relação com dois que são, em sua profundidade e posse de si.

A admiração envolve a reciprocidade da percepção das coisas boas, o reconhecimento do valor e da importância da diferença. A admiração reconhece a diferença de tempos, desejos e legitima ambos. O amor por admiração mobiliza o respeito, as trocas, o diálogo.

A admiração nasce do cuidado recíproco, da capacidade de conter a violência, permite ser visto enquanto uma pessoa com história, desejos, com limites, defeitos e vulnerabilidades,  com a refinada autonomia de posse e responsabilidade pelo que lhe pertence.

A admiração permite a gratidão, o reconhecimento, a delicadeza, os cuidados com os detalhes, a escuta, a incompletude. Na admiração são dois, em um movimento recíproco de reconhecimento e legitimação de desejo e existência: ver e ser visto, reconhecer e ser reconhecido, ser um e o outro, com tempos, desejos e existências distintas que escolhem partilhar o tempo e o espaço encontrando na diferença e incompletude, a possibilidade da criação do vínculo que alimenta vida, desejo e esperança.