As mães que ensinam a amar
Sob a idealização da perfeição, a maternidade vira armadilha para o sofrimento e autocobranças para muitas mulheres.
A maternidade é uma experiência avassaladora e complexa. Um entre, um a dois, que no início se confunde, se mistura, se incorpora, para aos poucos se diferenciar, se perceber, se construir, ser. A maternidade está sempre atravessada por olhares, discursos, julgamentos, prescrições que poucas vezes permitem a uma mulher ser vista e perguntada sobre o que ela deseja.
Se uma mãe não possuir a própria vida, será o amor compreendido enquanto dor, sacrifício e peso, transferido em culpa com juros para a relação com filhos? E se a maternidade for vivida diante de uma vida precarizada, diante de violência, de racismo estrutural?
Sob a idealização da perfeição, a maternidade vira armadilha para o sofrimento e autocobranças insaciáveis para muitas mulheres. Como toda idealização, o mito do amor materno invisibiliza o desejo e as inúmeras possibilidades de exercício do maternar, como a prescindibilidade da presença biológica de um filho. Muitas mulheres exercem a maternagem de forma coletiva, em seus trabalhos, em suas amizades, em seu cotidiano.
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E, infelizmente, muitas se confundem e se perdem na maternidade de seus parceiros, descaracterizando o lugar de esposa e mulher, pelas cobranças sádicas do patriarcado, que lhes retira a sexualidade e o desejo. Muitos filhos não conhecem a história dos amores e desamores de suas mães. E muitos filhos fazem parceria cruel com o patriarcado no ataque à maternagem. E muitos e muitas, ao longo de gerações, infelizmente foram subtraídas da experiência de amar.
A maternidade funda a humanidade, e no laço entre filho e cuidado, a emoção mais valiosa vai se construindo: a capacidade de amar. O amor contempla as ambivalências e a diversidade. O que não cabe no amor é a violência. Pois se para o amor é necessária a alteridade, o reconhecimento do outro enquanto outro, os limites, o suporte para um outro exista diferente de mim e possa ser, a violência cinde e anula a diferenciação, o apoio e a proteção para ser.
O amor não é instinto, é construção, que necessita de trocas, tempo, espaço, suporte coletivo e social para acontecer. A maternidade é o amor possível dentro de existências imperfeitas.
O dia das mães deveria ser o dia universal do amor e do cuidado. Deveria ser o dia para olhar para todos que maternam e contemplar o mistério da vida, do vínculo, da esperança, do sonho, da criação. A maternidade é parceira da arte, da possibilidade de uma vida aberta a ser inventada e possuída por um sujeito. A maternidade fecunda o coração dos homens com a capacidade de se olharem e se perceberem fraternos porque vindos do mesmo lugar humilde do desamparo.
A aprendizagem do amor se inicia nas primeiras linguagens, no silêncio dos cuidados com o corpo, nos desapegos de si Para se dedicar a uma vida, que não se sustenta sozinha. O bebê nos lembra do desamparo inicial e de como todos, precisamos ser sustentados em nossas dores e agonias para sobreviver. No baú dos sorrisos infantis vivem as memórias que protegerão os adultos.
Feito as sábias de todas as gerações, as mães guardam os segredos preciosos de nossa história, do nosso dentro e do fora tão íntimos do próprio corpo e da própria mente. Por amor, elas nos ajudam a partir, a cortar mil vezes o cordão umbilical com a certeza de que não cairemos no precipício.
Ser amado é o maior presente, sentir-se e saber-se amado é o maior patrimônio que um ser humano pode receber. E que se tudo der certo, poderá ter a chance de retribuir a todas às mulheres, e se inspirar em amor, proteção e cuidado a todos os homens e a toda a humanidade.
Se em algum momento, alguém foi tocado pelos cuidados de uma boa maternagem, essa pessoa experimentou o amor e independente, se hoje, essa mãe está ou não presente fisicamente, a memória desse registro permanece no corpo, permanece no olhar, permanece nos gestos e na capacidade de oferecer a outrem o outrora recebido. Os vestígios do amor dentro de um ser humano, lhe dá energia para criar, para viver, para degustar a vida, e alimenta o amor por si.
O amor é parceiro do sonho e da esperança, das artes, dos ofícios, dos sabores, dos saberes, da invenção de todas as gentes. O amor é aprendizado sobre o tempo, a paciência, a generosidade, o perdão, a confiança, a admiração. A compreensão íntima da diferença e sua beleza. A compreensão íntima de se sentir o íntimo de alguém. O amor permite ser visto, respeitado, protegido e a exigir isso na vida.
O amor permite a gratidão, a reparação, a reflexão, a apresentação e descoberta do mundo, a celebração de tudo que nasce, a possibilidade de ficarmos confortáveis em sermos quem podemos ser. Para aquelas que maternam, de todas as formas possíveis, meu amorosamente muito obrigada.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.