Vício em jogos: apostas online e a vida em busca de sentido
É preciso compreender quais estímulos levam ao ato de jogar, para compreender quando isso vira um alerta.
Os jogos fazem parte da história da humanidade. Ajudam a resolver conflitos, disputas, auxiliam no desenvolvimento humano, na aprendizagem, nas interações sociais, nas experiências emocionais, trazem para o lúdico a tentativa de lidar com o complexo e doloroso da vida. Antecipam aquisições e permitem possibilidades que muitas vezes a criatividade alcança primeiro que a realidade.
No jogo podemos exercitar múltiplos papéis e experenciar o diverso que nos habita. Entretanto, diante de uma sociedade capitalista pautada pelo consumo, pela construção de objetos que vendem ilusões, pela desigualdade social, o jogo passa a ser apropriado de forma a se transformar em objeto capitalizado para oferecer tampões a vidas precarizadas, impulsivas, esvaziadas de sentidos, empobrecidas de rede sociais afetivas, ansiosas por ascensão social, com transtornos mentais não identificados e muitas vezes não tratados adequadamente e amparadas por um discursos midiático poderoso que envolve redes sociais e “influencers”.
Em um tempo não muito distante, para apostar era necessário sair de casa. Hoje o estímulo para o jogo chega na palma da mão e ao alcance do desejo de todos: crianças, jovens, adultos e idosos, comprometendo significativamente a vida de milhões de brasileiros, tornando-se um problema de saúde pública, com impactos no varejo, e em 2026, gastos mensais com apostas ultrapassaram R$ 30 bilhões.
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O prazer atrelado ao jogo, quando não problemático, quando não envolve um transtorno, é necessário à vida. Entretanto, quando vem imerso em culpa, quando o sujeito não consegue parar de jogar, quando compromete a renda familiar, quando faz apostas cada vez maiores, quando passa a mentir, quando joga escondido, passa a usar recursos que não são seus e a se apropriar indevidamente do dinheiro alheio para jogar, apresenta comportamento irritado se não joga, pensa frequentemente em jogar, interfere nas relações sociais, ocasionando sintomas físicos como insônia e estresse crônico aponta para algo que precisa de cuidados.
Quando nos envolvemos tão intensamente em algo, estamos impulsionados por desejos em busca de satisfação. Podem ser desejos autodestrutivos, desejos de experimentar a sensação do "agora irei ganhar, serei rico e poderoso, resolverei todos os problemas de forma mágica, poderei ter acesso a tudo que nunca tive, a condição de oferecer qualidade de vida para os meus, poderei mostrar que consigo fazer algo grandioso e ser melhor que os outros..." ou o desejo de na excitação do jogo oferecer um alívio a outros sofrimentos que nem podem ser transformados em pensamentos ou palavras.
Quando alguém suspeita que pode estar em um quadro assim, o que pode ser feito? inicialmente, o mais importante é descobrir o que alimenta o desejo de jogar, o que está por trás desse ato. Essa é uma reflexão profunda e existencial que pode não ter respostas fáceis. Procurar um posto de saúde pode ser o primeiro passo para obter ajuda profissional e encaminhamento para atenção especializada, se for o caso.
Pode ser importante desinstalar aplicativos, bloquear contas para pagamento de pix, transferência, identificar quais os momentos em que mais se joga e o que está relacionado a isso, identificar que as armadilhas virtuais são mensagens ilusórias que visam a prender o comportamento de jogar e não falam a verdade sobre os danos e os riscos. Construir outros sentidos para a vida e recuperar o valor do trabalho para a conquista dos sonhos, além da necessidade de regulamentação e fiscalização do poder público para as empresas que realizam os jogos.
A construção de alternativas e recursos para lidar com os dilemas de vida, suas injustiças, dores, prazeres, medos e angústias, pode ser apropriada por sistemas perversos. Que possamos alimentar o cuidado, a arte, a construção coletiva de soluções e a possibilidade de pensar e produzir esperanças e sonhos.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.