Como ajudar alguém que está em uma crise emocional

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Em situações de crise, é fundamental tentar ajudar a pessoa a diminuir a intensidade do que está sentindo e poder retomar a sensação de autorregulação sobre o próprio corpo e emoções.
Foto: PeopleImages/Shutterstock.

A saúde mental é dinâmica e influenciada por inúmeros fatores: condições sociais, econômicas,  genética,  hereditariedade, relações sociais, existência de rede de apoio, políticas públicas, experiências de vida, situações do cotidiano, experimentar situações de violência, existência de recursos internos e externos. 

Muitas vezes, alguém pode estar bem e se deparar com um evento traumático: uma dor emocional avassaladora, uma experiência impactante naquele momento de vida para a qual tem poucos recursos ou condições de ajuda ou suporte; uma situação de violência, uma mudança de medicação, uma perda, algo que extrapola sua capacidade de assimilar e encontrar alternativas.

Nesse momento, encontrar acolhimento e suporte pode fazer toda a diferença. Não significa substituir ajuda profissional, mas receber acolhida quando diante da dor ou da desorganização é encontrar abrigo e cuidado no laço social.

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Uma pessoa em situação de sofrimento intenso pode apresentar ideias confusas, coração acelerado, pode distorcer a realidade, gritar, chorar, pode apresentar atitudes bem diferentes do habitual.

As reações desencadeadas durante uma crise podem assustar, mas é importante saber que irá passar.

Nesse momento, é fundamental tentar ajudar a pessoa a diminuir a intensidade do que está sentindo e poder retomar a sensação de autorregulação sobre o próprio corpo e emoções. 

Algumas condutas podem ser de grande ajuda: pergunte o nome da pessoa, se apresente, fale calma e pausadamente de um jeito que seja possível compreender, caso verifique que a pessoa não consegue prestar atenção, repita as informações; procure um lugar calmo onde a pessoa possa se sentar, evite muita gente ao redor, não faça julgamentos, ofereça água, ajude a reconhecer o lugar (nomear o que observa no ambiente, apoiar os pés no chão, sentar na cadeira, segurar as próprias mãos pode ajudar a diminuir a ansiedade), pedir para nomear onde está e o que percebe no ambiente ajuda a aquietar e oferecer um ponto de atenção e regulação; não fique pegando na pessoa, ela pode necessitar de espaço e se incomodar com toques físicos;  explique quem é você e seu desejo de ajudar; pergunte se tem algo que possa fazer, alguém que possa chamar; deixe a pessoa chorar se ela precisar e fique por perto; ajude a respirar lenta e calmamente. 

Esses primeiros cuidados ajudam a diminuir a magnitude e permitem que a pessoa possa falar e contar o que está acontecendo. Uma escuta acolhedora pode ser fundamental até para ajudar a pessoa a encontrar ajuda especializada.

Escute sem julgamento, sem espanto, sem cobranças, sem culpabilizar a pessoa, não faça promessas que não pode cumprir, não fique se comparando, nem a comparando com histórias de outrem; não critique, não desqualifique o sofrimento (dizendo que ela tem tudo e devia ter vergonha de estar sofrendo); respeite as crenças, a história de vida da pessoa, ajude a perceber que ela já enfrentou situações difíceis antes; auxilie a perceber e identificar quem são as pessoas de rede de apoio que ela pode contar (professores, colegas de trabalho, amigos, vizinhos, lideranças religiosas, profissionais de saúde que a acompanham, familiares, etc), pense junto outras estratégias para solucionar o problema e alternativas de ajuda; fortaleça as coisas boas e os recursos que a pessoa tem. Ajude a identificar qual a necessidade da pessoa naquele momento e o que pode ser feito.

Não pressione para que a pessoa fique bem logo e não busque vantagens pessoais diante da situação; respeite o tempo que a pessoa precisa e busque ajuda caso não consiga oferecer os cuidados sozinho.

Lembre-se que todas as pessoas, mesmo diante da maior crise e sofrimento, possuem recursos protetivos internos que podem ser acionados e utilizados. Auxilie a entrar em contato com os profissionais que a acompanham (caso a pessoa já receba cuidados especializados) ou a encontrar o serviço mais perto que possa ser acessado e, se for possível, a acompanhe até lá. Caso a pessoa esteja melhor, pode acompanhá-la até em casa ou aguardar a chegada de algum parente.

Desorganizar-se, desestabilizar-se não é motivo de vergonha nem de recriminação. Pode acontecer com qualquer pessoa, não é questão de ser forte. Todos temos limites que se forem ultrapassados podem nos vulnerabilizar. E, nesses momentos, ter auxílio para retomar a posse de si é imprescindível. 

 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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