Solidão ativa áreas do cérebro semelhantes à dor física
Enquanto a dor física passa quando a ferida sara, a dor emocional pode ser revivida por anos.
Nascemos destinados a construir uma existência que possa abrigar uma pessoa que ainda não existe. Embora nasçamos com um corpo e um conjunto de reflexos e conquistas hereditárias e biológicas, precisaremos de um longo percurso para integrar mente e corpo, experiências, emoções, desenvolver a capacidade de construir representações, ideias, memórias.
A integração e o diálogo mente e corpo atravessa a filosofia, a ciência, a religião, as artes e o cotidiano. Para muitas pessoas, são campos distintos e dissociados, oferecendo validade apenas àquilo que se manifesta no corpo, como se a dinâmica emocional fosse inferior ou desqualificada.
Entretanto, existe vasta publicação científica e pesquisas que comprovam a relação indissociável entre o corpo, as ideias e os afetos. Um deles é o artigo de revisão publicado na revista "Nature”, que aborda "A dor do isolamento social: examinando as bases neurais compartilhadas da dor física e social” (tradução livre), escrito por Naomi Eisenberger.
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O estudo revela que a solidão e a rejeição social ativam o mesmo sistema cerebral da dor física. Ou seja: quando uma pessoa se sente excluída, abandonada, rejeitada, o cérebro ativa a mesma região de quando alguém sofre um machucado em alguma parte do corpo (ativando o córtex cingulado dorsal anterior e a ínsula anterior).
A dor emocional não é somente uma experiência abstrata, ela ganha corpo e o cérebro interpreta a rejeição como uma ameaça à sobrevivência pela perda de conexão social e isolamento, pois ao longo dos processos evolutivos, ficar sozinho ampliaria os riscos de morte.
Assim, como uma sabedoria sensorial ancestral, a dor da solidão funcionaria como ferramenta reguladora para buscar o vínculo social, pois o sistema cerebral que reduz a dor é ativado diante de conexões sociais. Ou seja: receber apoio e suporte social, produz alívio físico da dor.
Outra conclusão importante do estudo relaciona o fato de que quem sente mais dor física também está mais suscetível a sofrer mais com a rejeição social. Assim, pessoas com maior limiar de dor física teriam mais tolerância à rejeição, o que também comprova a relação entre os sistemas físicos e emocionais que regulam dor, alívio e estresse ou percepção de ameaça.
Além disso, enquanto a dor física passa, quando cicatriza a ferida ou quando o machucado se cura, a dor emocional pode ser revivida por anos, pois a mesma é sentida com a mesma intensidade apenas pela lembrança.
Esse estudo é valioso porque, muitas vezes, as pessoas apontam que uma dor emocional seria "frescura, falta de força", e os estudos apontam o contrário: o impacto e a existência da dor real no cérebro equivalente a uma grande dor física. Assim, afeta a imunidade , a saúde de uma forma geral, interfere em processos inflamatórios e na qualidade de vida.
Então, quando você disser que, diante da solidão, “parece que arrancaram um pedaço seu”, estará dizendo a verdade, porque é a mesma sensação sentida e interpretada pelo cérebro. Da mesma forma quando diante de uma dor física, a presença de amigos e estar com pessoas queridas, pode “fazer a dor passar ou arrefecer”, o que também é verdade, segundo os mecanismos neurofisiológicos encontrados no artigo.
Rejeição, término, isolamento, abandono, lutos, negligência, violência pode doer tanto quanto ataques à integridade física. Não é fraqueza, é comprovado cientificamente como algo físico. A solidão produz cansaço, inflamação, reduz e interfere na memória, causa cansaço constante, dor de cabeça e sensação de peso constante, além de interferir no funcionamento cerebral.
Assim, pequenas interações, contatos presenciais, conversar com alguém conhecido, enviar mensagens, partilhar o vivido é medida protetiva de saúde. Entretanto, se a conexão for apenas através de rede social, a solidão piora. As trocas precisam de presença.
Aprender a nomear a tristeza e a solidão ajuda a não acumular o que dói e a procurar formas de agir e se relacionar, pois não basta estar com pessoas, é preciso se sentir seguro e verdadeiramente vinculado a elas, pois somente assim, a sensação de prazer e alívio passa a ser experimentada.
As pesquisas sobre a interação entre o físico e o social comprovam o que há muito já se sabia e nos instiga a fortalecer vínculos solidários, a repensar as cidades, as experiências comunitárias e sociais, a relevância das redes de apoio, das amizades e dos afetos como remédios para as dores não somente dos afetos, mas do corpo também. Assim, o amor cura e diminui o sofrimento, não somente do que dói na alma, mas daquilo que também atravessa o corpo.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.