A curiosidade e a fome de mundo

A vivência em coletividade e com práticas solidárias auxilia no olhar e no criar para e sobre o mundo.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier ceara@svm.com.br
(Atualizado às 08:43)
Legenda: A curiosidade do ser humano é um motor que alimenta a alma, que instiga a vida, o olhar, que movimenta e é movimentada pelo desejo.
Foto: Pexels.

Nascemos em um mundo estranho: luzes, barulhos, rostos indecifráveis, cheiros. Precisaremos construir representações para organizar o interno, o externo, para controlar o corpo, para decifrar o que nos compete, para nos situar em uma família, um bairro, uma cidade, um mundo. Precisaremos costurar uma mente em um corpo e recriar um mundo a partir daquilo que nos é dado, precisaremos aprender sobre o tanto que nos antecede, em história, arte, conhecimentos físicos, matemática, biologia, e tantos outros saberes.

Precisaremos construir respostas para os desafios do mundo e para os desafios do ser e do estar com. Precisaremos aprender a conviver e a desenvolver uma ética que sustente a diversidade e a pluralidade da vida. Para alguns esse percurso será inebriante, repleto de novidades deliciosas, percursos criativos sedutores, repleto de desejo pelo saber, descobridor de uma fome de mundo inesgotável. Alguns serão curiosos, seres incansáveis diante do fascínio pelos enigmas do cotidiano, instigado pelas pulsações da vida e sedentos de viver.

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Outros experimentarão uma espécie de anorexia psíquica, nada os agradará, nada desejarão colocar para dentro (não haverá desejo pelo mundo), uma apatia mental, um desinvestimento diante do mundo, uma acomodação,  um desânimo profundo mesmo diante das novidades mais sedutoras.

Chegamos com os olhos brilhantes em busca de respostas. A curiosidade nos faz expandir, evoluir, pesquisar, criar, saber.  Entretanto, como tudo do humano, não se desenvolve sem suporte adequado. Como aquele olhar irá se manter ao longo da vida, a procura de respostas, intrigado com o que acontece ao redor? O olhar curioso necessita  das conexões, pois trocas e interações ajudam a pensar sob pontos diferentes e a encontrar soluções em conjunto.

A vivência em coletividade e com práticas solidárias auxilia no olhar e no criar para e sobre o mundo, os desafios com suporte tornam-se esperança de solução; para alimentar a fome e para a descoberta é fundamental ter espaço para o tédio, para poder divagar, pensar, para desacelerar.

O descobrir envolve acolher experiências emocionais que possam ser sentidas, elaboradas, suportadas, constituindo memórias, aprendizados, referências, ideias. O medo de errar, o julgamento, o excesso de estimulação sem descanso, o cansaço e esgotamento físico e mental retiram a fome de pensar e descobrir. Sem tempo livre a consequência é esgotamento e apatia, que minam a criatividade e o desejo; a vida sem pausas, com exigências e prazos apertados aliada à rigidez mental, anestesiando conflitos não elaborados, acumulando experiências emocionais bloqueadas, estancam também a curiosidade.

O que não posso saber nem pensar sobre mim também se estende para o mundo. Os silêncios sobre as questões internas podem virar silêncio sobre a vida. A curiosidade, o perguntar, o querer saber sobre pode incomodar, nos confrontar com enigmas, dores abafadas, silêncio camuflados, segredos familiares e pessoais. Não poder saber paralisa, não poder pensar, desvitaliza.

A curiosidade é um motor que alimenta a alma, que instiga a vida, o olhar, que movimenta e é movimentada pelo desejo. Alimentar a curiosidade dos filhos, permitir apresentar o mundo com as perguntas que ainda não possuem respostas, favorecer o sonho, a descoberta, o pensar, é fundamental para que alguém possa ter fome de mundo. Quando os pais apoiam a curiosidade, ajudam a ampliar o mundo,  a aprender, a desenvolver novas habilidades,  a saber de si e a pensar em soluções para os dilemas e problemas da humanidade.

A curiosidade se expande em perguntas desde o: " como nasci, quem sou" ao "como ir a Marte, como curar o câncer ", ‘ por que existem pessoas em situação de pobreza?”, “ por que as religiões defendem o amor e as pessoas usam a religião para serem violentas?”. Pais que incentivam os filhos a perguntar, que se interessam pelas descobertas, que dialogam, que disponibilizam tempo para ouvir e pensar junto, alimentam os filhos de desejo e mentalidade exploradora.

O mandar calar a boca, o desinteresse em apresentar o mundo, em mostrar as coisas para os filhos, contar histórias, incentivar o fantasiar, o silenciar os porquês vai "amofinando" a curiosidade e o desejo de aprender. A curiosidade em viajar, em ir para o mundo, em fantasiar abastece o adulto de sonho, esperança e confiança.

Quando silenciamos impedimos o crescimento.  Perguntar deve ser algo fluido, e que encontre um ambiente seguro e sem medo para pensar e explorar. É possível criar desafios para os filhos, mistérios, em coisas e situações simples do cotidiano. Como apoiar o pensar juntos? Incentivem perguntas como " porque o céu não cai, porque o mar é azul" ,"como você acha que o mundo começou?" " por que o avião tão pesado voa?" Procure coisas que seus filhos se interessem e incentive com novos desafios e possibilidades.

Se gosta de música, apresente instrumentos, outros ritmos, leve a espetáculos, pergunte na escolas quais atividades musicais irão acontecer. Varie as atividades de lazer, não faça sempre a mesma coisa, apresente lugares e experiências novas, possibilite coisas fora da rotina, amigos diferentes, lugares diferentes na cidade, conviva com pessoas com visões de mundo e histórias diversas, incentive seus filhos a se fazerem perguntas sobre o óbvio e o complexo. Diversifique as opções de lazer e de cultura: circo, cinema, museus, shows, praia, parque, praça, centros culturais, teatro, etc.

Assim, você estará oferecendo uma das coisas mais valiosas que um sujeito pode receber que é alimentar o desejo de saber, pensar e existir. E como diz Adélia prado:  "não quero a faca nem o queijo, quero é fome".

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.