Os inquilinos da vida alheia
O processo de construção de um mundo interno leva tempo. Nele habitarão sonhos, capacidade de pensar, resolver problemas, lidar com emoções complexas, amar, encantar-se com o mundo, produzir esperança e criação. O mundo interno é o solo onde ancoramos nossa identidade, nossa história, as memórias protetivas, para onde nos recolhemos nos dias difíceis para nos abastecer de proteção, confiança e perseverança.
O nosso mundo interno é onde sabemos que podemos contar conosco, onde é tecida a costura entre corpo e mente, onde emoções se integram e nossa história se conecta com a força de todos os nossos antepassados.
Nosso mundo interno é um museu vivo, uma biblioteca, um refinado centro de estudos e pesquisas do mundo, com respostas que fazem ponte para atravessarmos abismos. Nosso mundo interno abriga os amores recebidos, a gratidão, o senso de pertencimento, a visibilidade enquanto cidadão do mundo e a capacidade de saber de si, irmanar-se e diferenciar dos outros. Um mundo interno rico oferece vitalidade pulsante para desfrutar e saborear os dias.
Veja também
Quando não é possível construir esse mundo, seja pela ausência de políticas públicas, pela precariedade do ambiente, pelas falhas invasivas dos cuidados familiares, pela violência, pela falta de um olhar íntimo cuidadoso e protetivo, pelo que não veio de um mundo confiável e amoroso, temos um sujeito à deriva.
Esse sujeito à deriva sucumbe diante da angústia, do vazio, do medo, da solidão, da dor. Esse sujeito à deriva carece de recursos simbólicos para pensar, criar, aprofundar o complexo da existência. Esse sujeito à deriva não consegue falar de emoções, não sabe de si, da sua história. Quando olha para dentro, é um buraco silencioso e assustador. Assim, vira presa fácil de quem lhe encante, de quem ofereça uma parceria feito uma rêmora psíquica. De quem lhe diga o que fazer, o que ser, pensar, o que consumir, o que desejar.
Esse sujeito encontrará muitas promessas de que enfim conseguirá ser: pelo consumo, pelas redes sociais, pelos aditivos - seja em forma de jogos, álcool, outras drogas - por outros discursos que somente manterão a alienação de si.
Quanto mais desejoso de ser o outro, viver a vida do outro, sonhar os sonhos dos outros, pensar os pensamentos dos outros, acatar como suas as decisões e desejos dos outros, maior a despersonalização e maior a morada na existência alheia, tornando-se inquilino de uma vida da qual não pertence. Assim, feito um peregrino que não sabe onde quer chegar ou o que procura, não sabe nomear o que sente, não tem desejos próprios, não sabe da sua história, não sabe nem se é feliz.
Quando não se toma posse da própria vida, quando se foge da experiência, por vezes dolorosa mas reconfortante, de poder lidar com frustrações, vazios, lutos, de fazer vínculos, de pensar, de criar, perde-se muito.
Diante de um cultura que prega impulsividade, satisfação rápida, superficialidade, investimentos na vida alheia, esvaziamento de sentido e de reflexão, sem se dar conta, pode-se aos poucos perder o eixo da própria existência.
Olhe para sua vida, para sua história, para o que deseja. Pare um pouco ao longo do dia e olhe para si. Permita-se tempo para estar consigo, para se conectar com quem verdadeiramente lhe vê, não somente quem deseja seguidor ou espelho. Critique o que escutar, não absorva simplesmente, não tome palavras impositivas como se soubessem a sua verdade ou quem você tem que ser. Preste atenção para onde vai o seu trabalho, o seu dinheiro, o seu amor, a sua amizade. Questione as ideias que lhe são impostas de forma arrogante ou dogmática. Verifique as mentiras e os preconceitos que contam sobre as pessoas e se permita ter suas próprias experiências com elas. Leia, pense, ame, permita-se sentir o dia, a natureza, permita-se existir e habitar sua própria vida.
Quando se sente um desconforto, a sensação de ser uma visita indesejada, de não estar confortável consigo, é preciso encontrar seu lugar. Pode ter que arcar com as contas, mas poderá realizar o sonho de uma vida para chamar de sua.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.