Violência sexual e o roubo da experiência de confiar
A violência invade e quebra algo muito precioso dentro do sujeito.
Segundo dados do Ipea, estima-se 822 mil casos de estupro por ano no Brasil. Considerando a elevada subnotificação, isso equivale a 2 casos por minuto e mais de 2.200 por dia. No caso de violência sexual contra crianças e adolescentes, os principais agressores são familiares ou conhecidos, e 93% das adolescentes que sofrem violência sexual são meninas. Tal dado enfatiza que a violência sexual possui marcadores de gênero e uma relação direta com o patriarcado estrutural.
O corpo feminino e a sexualidade feminina sempre foram palcos de discursos de poder e dominação dos homens como forma de assegurar domínio político, social, econômico e simbólico. O lugar da mulher na sociedade e a segurança de usufruir da sua liberdade sexual denuncia os limites das proteções dos direitos humanos, dos princípios democráticos e da capacidade de determinada cultura ou sociedade lidar com as diferenças e com a equidade de gênero.
Quando a partir da diferença de gênero são estabelecidos códigos morais que legitimam violência, domínio, posse, submissão e direito à vida a partir da referência masculina sobre os corpos das mulheres, são impactadas as práticas pedagógicas, as relações afetivas, os códigos de trabalho, as referências sociais e culturais sobre o pensar, o ser, o agir do que deve ser uma mulher e a possibilidade de integrar ou não os aspectos masculinos e femininos que nos habitam.
Assim, vista como inferior, qualquer conduta que se aproxime do feminino enquanto manifestação afetiva ou de cuidado, será lida como menosprezo ou algo a ser distanciada e rechaçada, tanto pelos homens, como por muitas mulheres que se identificam, incorporam e legitimam o legado do patriarcado, julgando, atacando e condenando outras mulheres e a si.
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Não obstante, muitos homens se distanciam do afeto, do cuidado, do diálogo como se essas dimensões fossem exclusivas do feminino, sustentando uma visão do masculino baseada na violência, força, domínio e poder. Visão essa que torna muitos homens reféns do embrutecimento das próprias dores e silenciamento da vida emocional com consequências diretas sobre a saúde mental.
A violência sexual denuncia os efeitos do patriarcado sobre a capacidade de amar e se relacionar, expressando um modo de conquista baseado na posse, onde o desejo do outro não importa. Nesse mundo construído sob a ótica dos homens, com a verdade dos homens, a opressão das mulheres é naturalizada. Assim, os efeitos da violência sexual não incidem apenas sobre o corpo, atravessam a alma, a dignidade, o laço social, a autoestima, a sensação de pertença e principalmente, a confiança.
Quando nascemos, estamos completamente desamparados e à mercê dos cuidados daqueles que são responsáveis por nós. Os cuidados que recebemos, permitem sermos vistos pelos outros e são a base da relação de confiança a partir dos vínculos protetivos construídos. Quando esses cuidados são rompidos pela violência, ocorre um sequestro da sensação de proteção e da confiança. Essa desconfiança, abrange o próprio sujeito, que passa a desconfiar e duvidar das próprias emoções, do vivido, pois muitas vezes o agressor manipula a verdade, ameaça, desqualifica e transforma a vítima em algoz, o que sequestra a verdade do seu próprio corpo. Além disso, ocorre a quebra da confiança no outro.
Tal quebra possui impactos sociais, nas relações familiares, de amizade e na capacidade de estabelecer relações íntimas. Quando alvos da violência, o outro diz que somos inferiores, que não podemos ter a voz respeitada, que não temos direito ao desejo e que não nos pertencemos. Assim, ficar à deriva dentro de si produz no sujeito a sensação de vazio, como se uma parte de si houvesse sido arrancada de forma brutal pelo outro.
Reconquistar-se ou construir-se a partir dessa violência leva tempo e cuidado contínuo, aos quais infelizmente, muitas não têm acesso. Diante da violência, existem as que ficam presas, amarradas nesse registro e repetem de forma inconsciente buscando relações e situações violentas, direcionadas a si ou a outrem, na tentativa de na repetição encontrar possibilidades distorcidas de elaborar aquilo que o corpo ficou ancorado. Existem também aquelas que se distanciam de qualquer coisa que possa remeter a algo destruidor, invasivo, agressivo. E no meio disso, uma miríade de possibilidades.
Claro que as relações são ambivalentes, existem disputas, raivas, rancores, dissidências, mas é diferente da violência. Como o próprio nome diz, viola, avança sobre o mundo, os limites, as fronteiras físicas e psíquicas.
A violência invade, quebra algo muito precioso dentro do sujeito. Estar disponível a alguém, abrir o coração, estar sem defesas para aquela pessoa, mantém a sensação de que estarei protegido, serei amado, que essa pessoa cuidará de mim. Tal sensação é fundamental na construção da identidade, no senso de pertença, na autoestima.
Quando o não é atropelado, quando os limites são usurpados, quando não legitimo sobre o meu corpo e me oprime a ideia de que não me pertenço e o meu prazer passa a ser subjugado pelo desejo do outro, é como se a alma toda tivesse que ser silenciada.
Por isso produz nas mulheres o silêncio, a vergonha, o medo e a culpa, enquanto distorções da violência que afetam o ser. Por isso também, a violência sexual é um dos maiores fatores predisponentes ao comportamento suicida.
Quando a confiança é ameaçada, o simples torna-se perigoso: o andar na rua, na cidade, o escolher uma roupa, utilizar o espaço público, deslocar-se, estar no ambiente de trabalho, procurar ajuda profissional, somente pelo fato de ser mulher, pode ser perigoso.
É muito fácil um homem sair da proteção de cuidador e da função amorosa para se identificar com as questões patriarcais e atacar uma mulher. Diante da rejeição, pode querer dominar, controlar, ou agredir uma mulher que se negue a se submeter ao seu desejo, passando assim a desqualificar a sua vida e sua liberdade, amparado no discurso patriarcal de superioridade, domínio e liberdade da sua vontade enquanto legitimador da agressão e posse do desejo e do corpo da mulher.
Um corpo violentado produz marcas emocionais que podem atravessar toda a vida. Onde deveria haver cumplicidade e prazer pode ser palco da montagem de uma equação onde amor e sofrimento se mesclam em uma pele difícil de transmutar. Quais os impactos em um corpo em formação, em um sujeito em formação, quando o outro diz que o prazer é obtido a partir da sua dor? Quando ainda não se sabe fugir das armadilhas emocionais montadas por quem deseja ser amado? Quando não se consegue entender que pode ser preciso se proteger de quem acreditamos amar e que nem sempre a família será lugar de proteção.
Muitas vezes o que sobra enquanto resíduo da violência pode ser a raiva, a tristeza, tentando engolir a esperança e o sonho, afetados pela confiança no outro, que se quebrou. Esse sujeito precisará ter a pele revestida de amor e cuidado, de diálogo, respeito, arte, encanto e delicadezas, infelizmente tão incompatíveis com a ideia do outro enquanto objeto a ser consumido e descartado.
Discutir sobre questões de gênero, ampliar o debate nas escolas, qualificar profissionais, ampliar as garantias legais, as políticas públicas e o protagonismo feminino, perceber o entrincheiramento do patriarcado nas formas de pensar o feminino na sociedade e na cultura, e as relações de poder decorrentes do impacto moral dessa codificação são algumas das alternativas possíveis.
Mas acreditar em uma mulher quando ela denuncia uma agressão, buscar e disponibilizar o aparato legal para que se faça justiça, abraçar o direito à vida, ao não, à sexualidade e à liberdade das mulheres, embora ameaçador às estruturas de poder, pode ser o que nos encaminhe em direção a uma vida mais digna onde a capacidade de sonhar e decidir sobre o desejo de uma mulher caiba apenas a ela.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.