Perguntei para a IA: o que te diferencia de um ser humano?

Cabe a nós a invenção, o amor e o sonho, que são lugares onde a dureza de um algoritmo não alcança.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Embora tenhamos cada vez mais avanços em tecnologia e processos gerenciados por Inteligência Artificial, não podemos prescindir do humano para processos psicoterápicos, educativos, metafísicos, artísticos e éticos.
Foto: Pavel Danilyuk\Pexels.

O crescente uso de ferramentas de inteligência artificial tem trazido impactos profundos na saúde mental, no desenvolvimento acadêmico, nas relações e no vivido. Infelizmente, sem a reflexão ética e crítica necessária. Assim, como alguém que não usa dessa ferramenta, resolvi averiguar qual a reflexão da IA sobre si e seus limites em relação ao humano para propor o que nos é próprio: problematizar sobre a existência. 

Perguntei a uma ferramenta de Inteligência Artificial sobre o que a diferencia de um ser humano e ela me respondeu assim: 

"A diferença entre mim (uma IA) e um ser humano envolve vários níveis — biológico, emocional, cognitivo e ético. O humano tem consciência, subjetividade, sentimentos, desejos, sofrimento, prazer e vivências próprias. Eu (IA): não tenho consciência nem experiência interna. Não sinto emoções, dor, prazer ou vontade — apenas processo linguagem e dados. Um humano sente emoções genuínas (amor, medo, raiva, empatia). Eu IA posso descrever, reconhecer e simular linguagem emocional, mas não sentir. Um humano pensa de forma intencional, criativa e situada na própria história de vida. Enquanto IA gero respostas a partir de padrões aprendidos em grandes volumes de texto; minha “criatividade” é combinatória, não vivencial. Um humano é um ser biológico, com corpo, cérebro, hormônios, limites físicos. Por ser IA não tenho corpo nem cérebro biológico; funciono em servidores e algoritmos. Um humano é moral e legalmente responsável por seus atos. Enquanto IA não sou responsável por decisões; quem responde é quem me cria, usa ou interpreta minhas respostas. Um humano aprende pela experiência direta, relações e emoções. Uma IA aprende indiretamente, a partir de dados já existentes, sem vivência. Além disso, um humano se relaciona com base em vínculos afetivos reais. Enquanto IA posso apoiar, informar e dialogar, mas não substituo relações humanas. O humano vive, sente e escolhe; eu analiso, organizo e respondo".

A resposta acima, de uma inteligência que não tem experiência interna, não sente, não possui emoções nem vínculos, não escolhe, e nem se responsabiliza é um diferencial fundamental. Pensarmos sobre o que nos humaniza e fortalecer as experiências de vínculos, sonhos, empatia, esperança,  criatividade, criticidade, justiça e afeto são cada vez mais imprescindíveis contemporaneamente.     

Somos seres de dúvidas, desejos, dilemas éticos e podemos cair na cilada de achar que encontraremos respostas rápidas e práticas para questões emocionais complexas, para pensar aspectos éticos profundos, para articular ideias e reflexões sobre nós e sobre o mundo, que necessitam não somente de uma análise objetiva de um composto de algoritmos ou de dados, mas que urge considerar o sensível, o imperfeito, e o sonho das experiências. Nossas dores e nosso desamparo podem nos tornar presas fáceis da venda de respostas prontas.

A cada dia temos mais avanços em tecnologia e processos gerenciados por Inteligência Artificial, entretanto não podemos prescindir do humano para processos psicoterápicos, educativos, metafísicos, artísticos e éticos.

A tecnologia, aquilo que criamos para resolver os problemas da vida, os processos e ferramentas que construímos, os conhecimentos e a linguagem que desenvolvemos, faz parte da evolução e construção do humano. Instrumentos, métodos, avançam junto com a humanidade rumo à interdependência.

Atualmente, o avanço da tecnologia robótica, os algoritmos, a Inteligência Artificial, os softwares, permitem desenvolvimentos nos modos de viver e resolver desafios que parecem ilimitados e que são úteis e necessários. Entretanto, existem questões éticas e limites que não podem deixar de serem problematizadas.  A experiência interna, aquele mundo construído a partir da fantasia, dos desejo e da relação com os outros institui de forma única cada ser humano.

Se você ler com calma, o que a própria IA apresenta como diferença, verá a preciosidade do humano. Entretanto, para que essas especificidades tão valiosas que nos integram sejam desenvolvidas, precisamos construí-las. É preciso empenho, vínculo, cuidado, criatividade, trocas emocionais. Precisamos entender que humanos não são máquinas, e que aquilo que não conseguimos desenvolver de humanidade uns nos outros, afeta a todos; seja em forma de violência, seja de desamparo, seja de indiferença, injustiça e desigualdades sociais.

É preciso dedicar tempo no desenvolvimento das novas gerações e é preciso dedicar tempo ao desenvolvimento do seu próprio mundo interno. Aquele lugar onde vive a sua esperança, sua confiança, seus pensamentos, sua criatividade, sua capacidade de amar.

O amor, aliás, é uma das experiências emocionais mais profundas, que nenhuma máquina ou algoritmo consegue reproduzir ou simular. A ausência de consciência,  subjetividade, desejo, pode desqualificar o valor das experiências,  das trocas, das aprendizagens construídas nas interações e no percurso do vivido, nas trocas geracionais, na fruição de outra experiência de tempo, das dúvidas e nos enigmas daquilo que não têm resposta pronta nem definitiva.

A IA somente organiza, analisa e responde, não há criatividade, não há afeto, não há dúvidas. Não há inquietação, indignação. Onde fica o projeto ético da humanidade? Quem responde pela IA e como aprendemos a nos responsabilizar pelos nossos atos? Onde fica a linguagem com sua necessidade de pele humana? É inegável a importância da tecnologia, mas não se pode perder o encanto, a sabedoria, o mistério, a sedução, a esperança e o sonho que alimentam a vida.

Substituir relações reais por relações com algoritmos ou de inteligência artificial acarreta riscos para a saúde e perdas para o próprio desenvolvimento com inibição e passividade intelectual, criativa e afetiva. Priorize interações presenciais, leia textos completos, analise, critique, exercite contato com a natureza, o diálogo com as pessoas, permita-se maior contato com experiências artísticas, atividade física,  com a contemplação. Permita-se o uso da própria capacidade de pensar, criar, decidir. Permita-se o choro e os pedidos de ajuda. Permita-se o erro. 

O olho de outra pessoa não é igual tela. Olhar, escutar, tocar em um outro humano, escutar, interagir com outro ser humano demanda recursos emocionais e cognitivos complexos, espontaneidade,  assumir responsabilidades pelas escolhas, permitir a imaginação, a compreensão subjetiva, regular emoções, criar vínculos. 

Na busca pela rapidez, atropela-se o sentido do que se faz e se vive. O procurar, o pesquisar, o confrontar conhecimentos e saberes diversos. Permita-se descobrir e desenvolver seu potencial criativo e intelectual, pois isso é fundamental para os avanços da humanidade. Abrir mão do pensar sobre o que lhe acontece,  refletir e fazer escolhas, e terceirizar para a IA, possui impactos individuais e coletivos, como os ataques à democracia, às garantias sociais, aumento das desigualdades, desemprego, monitoramento e restrição de liberdades, discriminação algoritimica, disseminação de “fale news”, concentração de riquezas, aumento de ansiedade, isolamento e depressão. 

A IA só reproduz o que já existe. Cabe a nós a invenção, o amor e o sonho, que são lugares onde a dureza de um algoritmo não alcança. Quando perguntei se a Inteligência Artificial consegue substituir o humano, ela me respondeu:

         

 "A inteligência artificial consegue substituir algumas tarefas humanas — às vezes muito bem — mas não substitui o humano como experiência, vínculo, julgamento ético e presença no mundo. Ela é forte em: processar informação rapidamente; reconhecer padrões; automatizar tarefas; resumir, calcular, organizar; gerar texto, imagem, código. Mas há dimensões humanas que não aparecem só como “processamento”: afeto vivido; responsabilidade moral; intuição construída pela experiência; escuta genuína; criatividade ligada à história pessoal; corpo, memória, desejo, contradição".

          Quando a própria IA reconhece que processamento objetivo de informações não substitui dimensões humanas fundamentais da experiência,  criatividade, desejo, escuta genuína, é um alerta fundamental para compreender que se essas dimensões humanas forem subtraídas da relação interpessoal, os prejuízos subjetivos, os impactos em termos de desenvolvimento humano e coletivo podem ser irreparáveis, porque teremos humanos, parecidos com humanos, mas sem algo valioso e insubstituível internamente: a capacidade de amar, criar, simbolizar, sonhar e cuidar.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.