Da periferia de Fortaleza, mulheres constroem a paz como direito e resistência
No Dia Mundial da Paz, liderança do Mondubim mostra que viver sem violência é ter os direitos garantidos.
Em 2025, casos de feminicídios continuaram presentes na sociedade cearense. Mulheres foram vítimas dos namorados, maridos e até mesmo de desconhecidos. As ‘razões’? Término de relacionamento, recusa em ter relações sexuais ou resistência ao assédio e importunação. Como viver em paz numa sociedade que não oferece tranquilidade às mulheres?
A resposta vem da periferia de Fortaleza, com a liderança comunitária Silvânia Maria Vieira, 58, membro do Movimento de Mulheres Orquídeas. Para além da ausência da violência, ela afirma que a paz é efetivação de direitos. Além da segurança física, é preciso fornecer meios de sobrevivência, alimentação e oportunidades de emprego para as mulheres viverem em paz.
“Que elas possam ter segurança alimentar, os direitos respeitados, o acesso à educação. Não é só a paz de ver a viatura na rua, mas ter um espaço seguro de verdade para todas”
A luta para combater a violência contra a mulher é uma das principais bandeiras levantadas pelo Orquídeas, grupo que nasceu em 8 de março de 2010 na comunidade Parque Santana, no bairro Mondubim.
“Tínhamos um índice grande de relatos de companheiras sobre essa questão. Então, começamos a fazer vigílias, panfletagem, apitaços e até trouxemos mulheres de outras comunidades para compartilhar conosco essa luta”, diz.
Há 16 anos, elas constroem pontes de paz, aceitação e fortalecimento entre mulheres como forma de empoderamento e resistência. De uma família de sete irmãs, Silvânia diz que aprendeu que a união feminina é sinônimo de força e sonhos. “Promovemos a paz pelo diálogo. Sempre falamos muitos de tentar exercitar a conversa para evitar um conflito lá na frente”, diz.
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Uma das formas que elas trabalham é o acolhimento e apoio entre si. O objetivo, segundo ela, não é julgar mas sim “explicar, amparar e mostrar os caminhos” para sair da situação de violência. Para a liderança comunitária, cada pessoa tem uma missão nesse combate. “Quando você está aqui escrevendo, como repórter, você coloca o sentimento. Então, quem for ler, pode ser tocado ou inspirado pelas palavras. Isso vai fazer com que ela pense em suas atitudes”, afirma.
'Mudar o mundo para mudar a vida das mulheres'
Por meio do Orquídeas, companheiras de diferentes origens e credos se encontram para conversar, se organizar e lutar em prol de melhorias para a comunidade. “Escolhemos essa flor porque ela é resistente e diversa, assim como nós. Tem orquídeas brancas, lilás”, explica Silvânia.
O movimento integra a discussão sobre a temática em todas as suas atividades, seja em cursos de geração de renda ou em projetos voltados à juventude. “Tudo o que a gente faz na casa, a gente fala sobre violência contra a mulher. Se tiver uma oficina de bordado, trazemos esse assunto para a roda”, ressalta.
No trabalho com o público feminino, o foco é a geração de renda e a autonomia financeira, ferramentas cruciais no combate à violência. “Sabemos que, muitas vezes, as mulheres estão nessa situação pela questão financeira, porque não tem uma renda que permitam que elas saíam disso”, afirma.
Dentro do movimento, existe um programa do Ceará Sem Fome, que atende 100 famílias assistidas há 2 anos e 4 meses. Ao longo desse tempo, algumas mulheres desenvolveram confiança e conforto entre si, segundo Silvânia.
“Tem vezes que elas chegam na casa das Orquídeas para pegar as quentinhas e pedem para ficar 15 minutinhos conosco, calma e quietinha. Isso porque elas dizem que não podem chorar em casa, precisam ser fortes. Então elas usam esses minutos para se reerguer”, relata.
Comprometimento da comunidade
Neste primeiro dia do ano, ao se celebrar o Dia Mundial da Paz, o desejo de Silvânia é que a sociedade se engaje efetivamente no combate ao feminicídio e à violência contra a mulher. “Temos que discutir isso nas escolas, nas universidades, igrejas, e não só quando surgir a pauta, mas sempre dentro do campo de trabalho”, diz.
.“Para 2026, nós precisamos buscar essa paz para todas nós, por todas aquelas de foram silenciadas, pelos sonhos que foram desfeitos, pelas crianças que estão órfãs e as mães que choram. Que a gente consiga mudar esse número do feminicídio nesse novo ano”
O Dia Mundial da Paz foi criado pelo Papa Paulo VI em 1967. Numa mensagem em 8 de dezembro daquele ano, o papa propôs que a população mundial, para além dos católicos, celebrassem a paz em 1º de janeiro de cada ano.
Na primeira celebração, em 1968, ele escreveu: “Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro”.