Mulher da periferia de Fortaleza mobiliza companheiras de bairro com ações de empoderamento
Trajetória da mobilizadora social Silvânia Vieira reflete compromisso com a vida de mulheres do Parque Santana, a partir de atos que evocam luta, trabalho e resistência
Sempre que se referir a Silvânia Maria Vieira, esqueça o termo “dona de casa”. Ela prefere ser associada a outros, aqueles dos quais verdadeiramente se orgulha: mulher, mãe, catequista, militante.
Isso ficamos sabendo com poucos segundos de conversa, na pequena sala de parede cor-de-rosa em que exibe, realizada, porta-retratos, certificados, símbolos religiosos e uma mesa, abarrotada de instrumentos manuais de trabalho. Ali, dá para sentir, o calor humano domina, embora não apenas: tudo tem cheiro de possibilidades.
“Eu venho de uma família em que nós somos sete irmãs, filhas de uma mulher forte. Acho, inclusive, que essa minha força vem dela, da minha mãe, que teve sonhos, mas não o tempo de realizá-los”, lamenta.
Assim, aos 53 anos, não deixa de pensar na condição daquela que a gerou para o mundo – Lucíola Moura Vieira, já falecida – a qual frequentemente retorna, no objetivo de reafirmar as raízes. Mas considera que, ela própria, é árvore plural, fruto de tantas sementes que nem sabe.
É justamente por entender ser resultado de muitas antepassadas, que Silvânia há anos se une a outras companheiras para cumprir aquilo que considera missão: o compromisso com a vida de mulheres. “É algo que assumi pra mim para que a gente possa ter mais vida”, diz.
E vida no sentido mais pleno da palavra. Por meio de diversidade de projetos e ações, a trajetória de dezenas delas adquire novo sentido, um que valoriza o lugar que ocupam. O resultado são mudanças. Muitas. Nesse caminhar insone, elas re-desenham a si próprias e, consequemente, a dinâmica de incontáveis famílias residentes no Parque Santana, bairro localizado na periferia de Fortaleza.
Chamam-se Orquídeas. O movimento possui 20 mulheres e nasceu a partir da necessidade de associar uma característica da flor com o espírito que paira entre elas: são diversas, vindas de muitas origens, apegadas a diferentes credos, gestadas em distintas realidades. Mas quando se unem – e é sempre – tudo vira combustível para passos concretos. Querem viver e se apegam umas às outras para fazer isso.
Não à toa, Silvânia, uma das criadoras do movimento, é enfática: todas elas compreendem que o 8 de março, data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, está para além da entrega da flor, do esmalte, do chocolate. Tem a ver com luta, e não deve se restringir a apenas um dia.
“Por conta de todo o retrocesso que atualmente está acontecendo na vida das mulheres – muitas perdas, devido a um governo que nos nega o direito de viver, com o feminicídio só aumentando – é que a gente quer gritar: ‘parem de nos matar’”.
Amplitudes
Quando evoca essa resistência, Silvânia chora. Um lamento silencioso, é verdade, mas que dá aquele nó na garganta das coisas. Porque é mulher periférica, cujos benefícios vão sendo minguados, um a um, não apenas por descaso do poder público, como também por toda uma estrutura machista que insiste em pautar a vida em comunidade.
Ela não abaixa a cabeça, porém, nem se deixa silenciar. E, sempre em companhia, semeia e floreia. Como quando conseguiram a instalação de uma creche no bairro e, de quebra, puseram o nome de uma companheira de luta para referenciar o equipamento.
“Ela se chamava Hercília. Foi vítima de atropelamento de trem, algo que motivou em nós um movimento para que a creche tivesse o nome de uma mulher do bairro. Daí que ficou Creche Maria Hercília Evangelista Martins”, conta.
“Esse lugar, por sinal, sempre víamos como necessário pra nós. Porque a creche possibilita que muitas mulheres voltem a estudar, possam ir atrás de trabalho. Procurem ter sua autonomia. Daí que, quando notamos isso, nos organizamos novamente pra reivindicar vários outros direitos”, complementa.
Além dos encontros, o estímulo à participação em conferências, oficinas e reuniões com membros de entidades como a Casa da Mulher Brasileira, e de projetos como o outrora Orçamento Participativo, da Prefeitura de Fortaleza, fizeram com que olhos e ouvidos ficassem cada vez mais atentos para que mais horizontes se abrissem.
Hoje, os desafios continuam diários. Contudo, a sororidade, a rede de apoio que criam entre si, fala mais alto e é capaz de promover uma conscientização interna e do todo. Silvânia se destaca nesse cenário exatamente por ser a pioneira nessas pequenas grandes revoluções. Ela lembra quando mudou do bairro Parangaba para o Parque Santana, há 22 anos, disposta a levar consigo a semente da mudança.
“O desejo de trabalhar com mulheres já vinha de antes, porque eu era envolvida em projetos sociais. Mas, quando chegamos no bairro, fomos tão bem recebidos por elas que me despertou algo pra fazer uma coisa diferente. Na época, a liderança da comunidade disse que todas as mulheres votavam num candidato. Um esquema de curral eleitoral. E eu, pouco a pouco, pensei que poderia estar conversando com elas para mudar aquela realidade”.
Segundo Silvânia, primeiramente incomodou esse fato de quererem enquadrar todas numa dinâmica de votar direcionado a alguém. Contudo, logo viu que havia mais: faltava muitos serviços no bairro, como um transporte escolar para conduzir as crianças de casa para o colégio, e vice-versa.
“Então, sentei e comecei a organizar as mulheres para irmos atrás desse transporte para os nossos filhos. Nisso, eu fui convidada pra participar de umas oficinas da Marcha Mundial de Mulheres e, nesses encontros, vi a necessidade de a gente se unir cada vez mais no bairro. Nos estruturar”.
Assim, durante algum tempo, elas mantiveram determinados locais fixos para reuniões, em que partilhavam as inquietudes da vida por meio do trabalho com costura. Atualmente, porém, se deslocam umas às casas das outras como maneira de continuar o trânsito de afetos, saberes e autonomia. Investem principalmente na economia solidária para driblar limitações e potencializar talentos.
“Fico muito feliz quando consigo perceber nas mulheres essa vontade de lutar pela vida delas. Embora às vezes a gente tenha a sensação de que tudo que ocorre no nosso bairro é ruim, devido às manchetes dos jornais, eu vejo que elas têm curiosidade de fazer um curso, aprender coisas novas. É algo lindo”, emociona-se.
Atos
A transformação, ela garante, é geral. Atinge não somente as mulheres-mães – confeiteiras, bordadeiras, artesãs – mas as crianças que as acompanham em cada reunião. Outrora pequenas, algumas hoje se tornaram donas de seus próprios destinos e conseguiram ingressar na universidade pública; outras, aliadas às mães, querem não somente aprender a fazer bolo, por exemplo, mas a abrir o próprio negócio, montar a própria equipe.
Não à toa, as Orquídeas estão organizando várias atividades neste mês para ecoar esse incansável espírito de protagonismo. Na quarta-feira (11), elas realizam uma roda de conversa baseada na escuta das mulheres, de modo a saber quais impactos da vida na periferia mexem com elas e de que modo podem solucioná-los.
No dia 24, acontecerá o Café Lilás, com o objetivo de apresentar os movimentos de mulheres para além da comunidade. Neste, membros da Marcha Mundial das Mulheres e da Casa da Mulher Brasileira vão estar presentes para mostrar os serviços oferecidos pelas entidades.
Por fim, no dia 27, a caminhada intitulada “Parem de nos matar” vai atravessar o Parque Santana até chegar no Balão do Mondubim, na Avenida Godofredo Maciel, onde farão um ato simbólico estampando as frases mais ditas às mulheres que estão morrendo.
Além disso tudo, Silvânia ainda tem uma atividade na manga: quer filmar as companheiras nos seus cotidianos, em suas próprias casas e cumprindo a rotina diária, para depois produzir um mini-documentário e apresentá-lo num telão.
“Vejo que é invisível para as pessoas o trabalho de uma mulher que se diz dona de casa, quando, na verdade, é algo tão árduo quanto o de uma pessoa que trabalha fora. A ideia, então, é fazer com que elas se enxerguem como protagonistas das próprias histórias. Muitas são empreendedoras, cuidam de idosos, vendem cosméticos em suas casas… Temos que valorizar isso! O momento, assim, é para que elas parem e se vejam. Observem quão grande é a atuação delas no lugar em que estão. Seja aonde for”, situa.
Há, então, uma ansiedade no ar para tudo o que vem pela frente. Inquietação que se confunde com beleza e ânimo. Sentimos que Silvânia, na conversa que a fez sorrir e chorar, olha, com as retinas do coração, para os sete filhos, o esposo, a neta, a mãe. Para as amigas que com ela sempre vão. E vê que o mundo é tão complicado, mas, ao mesmo tempo, simples, quando se leva em conta o abraço, a acolhida, a união. E, claro, a revolução. Porque, como diz e repete: “A gente precisa mudar a vida das mulheres para mudar o mundo”.