Dragão do Mar faz 27 anos com novo fôlego após revitalização e reacende vida noturna do entorno
Novidades na programação do centro cultural e revitalização da Praça Almirante Saldanha motivam o surgimento de novas estabelecimentos e atraem público para a região.
Primeiro complexo cultural público de grande porte em Fortaleza, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) completa 27 anos em atividade nesta terça-feira (28). Nas últimas décadas, além de atuar como importante centro de difusão artística, o Dragão se tornou propulsor de uma vida noturna pulsante na Praia de Iracema, protagonizada por bares, boates e casas de show.
Nos últimos anos, porém, tanto o centro cultural quanto esse ecossistema sofreram com sucessivas crises que afetaram o movimento na região. Primeiro, a pandemia de Covid-19, em 2020. Como consequência, o encerramento de casas icônicas, como o Órbita Bar e o Chopp do Bixiga, e a redução de público. Mais recentemente, houve a necessidade de uma reforma ampla na Praça Almirante Saldanha, que impactou parte do acesso ao equipamento e espaços do entorno do Dragão, entre 2024 e 2025.
Com a entrega da praça – realizada oficialmente em dezembro, para o evento de abertura do Mercado das Indústrias Criativas do Brasil (MICBR) – novas casas começaram a ocupar a região. E, nos últimos meses, imóveis desocupados nas ruas Almirante Jaceguai, Dragão do Mar e José Avelino se transformaram em bares, boates e casas de show, impulsionando o movimento na praça e o comércio local.
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As novidades se converteram em um aumento considerável de público no Dragão. Segundo informações registradas pelo equipamento cultural, no ano passado, entre janeiro e março – quando a reforma da praça já havia sido iniciada –, 59.906 pessoas circularam pelo CDMAC.
Neste ano, no mesmo período, 79.952 pessoas passaram pelo Dragão do Mar, um acréscimo de cerca de 20 mil pessoas.
Na última semana, o complexo cultural teve os números do mês de abril impulsionados pela programação de aniversário do Dragão, que contou com shows, peças de teatro, feiras criativas, oficinas e mostras de cinema.
Em alusão aos 27 anos do Dragão do Mar, o Diário do Nordeste conversou com público, comerciantes e empresários para entender de que maneira o novo momento do centro cultural tem impactado a rotina dos fortalezenses que frequentam e trabalham no entorno, cuja movimentação sempre se mostrou diretamente conectada ao equipamento e à Praça Almirante Saldanha.
Ao chegar ao local em uma sexta-feira à noite, é possível perceber que a tradição da abertura “em turnos” da região se mantém. Ao longo do dia e no início da noite, o protagonista é o centro cultural. Quando a programação do espaço vai se encerrando, vendedores ambulantes começam a ocupar as ruas e os bares do entorno começam a abrir. Por volta das 23 horas, as boates ao redor abrem as portas para dar continuidade à festa durante a madrugada.
Ainda cedo, a praça Almirante Saldanha é preenchida por grupos de amigos. Um deles conta com jovens fãs de trap que aguardam a abertura das boates após a apresentação de um artista do gênero no Espaço Rogaciano Leite Filho, no térreo do CDMAC.
A estudante e atendente de farmácia Maria Lara, de 19 anos, faz parte de um desses grupos e conta que vai ao local mensalmente para eventos de música e idas à Route, boate de funk que funciona na Almirante Jaceguai. “Venho mais para as festinhas”, conta. “Mas também venho para passear na passarela e para a biblioteca [Bece]”.
Amigo de Lara, o estudante e produtor musical Isaac de Sousa, 22, conta que passou a frequentar o Dragão de duas a três vezes por mês ao perceber as mudanças no entorno.
“Vou mais para as boates. Quando eu venho pra cá, é mais pelo lado da música. Quando tem um trap, um reggae...”, relata. “Pra mim tá ótimo porque o movimento melhorou. Está um movimento maior, porque antes tava muito parado”, completa.
Quem também voltou a frequentar os arredores do Dragão do Mar após um período sem se divertir nas boates e bares da região foram os amigos Bruno Rodrigues, 29, e Rodrigo Duarte Alves, 30.
“Depois da pandemia, eu deixei de vir mais pra cá e comecei a curtir mais em casa e deixei pra vir só agora”, conta Bruno, que é assistente de atendimento.
“Por conta da revitalização [da praça], ficou muito melhor pra gente transitar por aqui, a gente se sente até mais seguro”, afirma. Sempre com um grupo de amigos, ele diz que voltou também voltou a frequentar a região motivado pelo retorno do Gandaia e pela oferta de locais para comer e beber.
Já o auxiliar de farmácia Rodrigo Duarte conta que a volta à vida noturna do local traz memórias afetivas da adolescência e juventude. “Minha relação com o Dragão é muito importante, porque quando eu comecei a sair na cena de Fortaleza, eu comecei aqui”, afirma. “Foi muito nostálgico voltar”.
Para comerciantes que trabalham como ambulantes na região, o momento do coração da Praia de Iracema é de novo fôlego. Shyrlene Ferreira, 51, que há 20 anos trabalha vendendo bebidas nas ruas do entorno, conta que acompanhou com paciência quase todas as transformações da região ao longo dos anos.
Primeiro, ela trabalhou na frente do Órbita Bar e na praça. Depois da baixa de casas no "lado de lá", foi para a rua José Avelino, em 2023, para aproveitar o movimento das boates que chegaram pós-pandemia. “Muitos não resistiram à pandemia e fecharam. Quando abriram 'deste lado', eu passei pra cá. Mas nunca saí”, conta, orgulhosa.
Às sextas e sábados, Shyrlene chega cedo, às 19 horas, para organizar o carrinho e afirma ficar até o último cliente se despedir da noitada. “Fico enquanto tiver pessoas”, brinca.
Quem também acompanhou quase toda a história do Dragão do Mar e das casas que o rodeiam foi o empreendedor José Nunes, de 49 anos, que há 23 vende doces, cigarros e outros produtos na rua Almirante Jaceguai.
Ele conta que os últimos anos foram de dificuldade para quem, como ele, dependia unicamente da renda obtida com o auxílio da vida noturna da região. “Foi meio difícil, porque o movimento caiu muito, ficou meio fraco. Depois da reforma [da praça], deu uma melhorada, para todos nós”, afirma.
Questionado sobre o futuro, José diz que “não tem mais o que melhorar”, pois além de o movimento ter crescido, acredita que o Dragão não voltará ao auge dos anos 2000. “Já está bom, o máximo é isso mesmo”, ri. “Mas para mim e para os ambulantes que estão aqui está dando certo, porque depois da pandemia foi uma batalha, foi um sofrimento”, lembra.
Bares e boates são inaugurados após entrega da praça
Se há alguns meses as opções de lazer nas ruas que rodeiam o CDMAC eram poucas, hoje a oferta de espaços cresceu significativamente, num lembrete nostálgico da “era de ouro” da região, entre os anos 2000 e 2010.
Além das boates Valentina Club e Amsterdam, que chegaram ao entorno antes das reformas recentes, a rua José Avelino agora conta com uma nova versão do Gandaia Club, encerrado em 2024, e o bar Lambe Lambe, que tem como objetivo servir de “esquenta” para as boates do entorno. Já a rua Almirante Jaceguai ganhou duas casas de show – Dragão Hall e Havana Iracema – e deve receber mais dois novos estabelecimentos noturnos em breve.
Na praça, algumas das novidades são o retorno do tradicional Café Avião e a reformulação do espaço onde funcionou o Chopp do Bixiga, encerrado na pandemia após mais de 20 anos de funcionamento. Hoje o ponto é ocupado pela segunda unidade do Skina de Ksa, karaokê já famoso na Rua dos Tabajaras, na Praia de Iracema, que chegou ao entorno em março.
Para reviver os bons tempos, o espaço trouxe de volta o famoso chopp de vinho do Bixiga, que tem atraído público de diversas idades. A manauara Silvia Medeiros Valentim, 34, que mora em Fortaleza há cinco anos e chefia o bar com o esposo, Gilmar Christ, conta que buscava o espaço ideal para expandir o negócio quando recebeu dos próprios clientes a dica de investir no entorno do Dragão.
“No momento em que fomos [visitar], o Dragão do Mar estava meio abandonado. Mesmo assim, a gente foi lá, tomou a iniciativa de alugar o ponto e arriscar para ver se iria voltar o movimento”, lembra. O casal alugou o espaço em novembro, mas aguardou a reforma da Praça Almirante Saldanha chegar ao fim para abrir as portas.
Desde a inauguração, as 80 mesas do lugar costumam ser 100% preenchidas com frequência, o que superou as expectativas iniciais de Silvia e Gilmar, segundo a proprietária. “Agora, devido à chuva, está um pouco fraco o movimento, mas nos fins de semana está dando bastante gente”, conta.
Os donos do bar Lambe Lambe, inaugurado em dezembro do ano passado, também precisaram esperar para lançar o novo espaço. O empresário Matheus Franklin, um dos sócios, conta que alugou a casa de número 387 da rua José Avelino em 2019, mas, com a pandemia, “o bar ficou todo pronto e fechado, não chegou nem a abrir”.
Frequentador assíduo do entorno do Dragão do Mar há quase uma década, Matheus conta que a ideia do espaço era servir de “bar de esquenta” para as boates da região – especialmente a Haus, que funcionava ao lado do ponto e é administrada pelo companheiro dele, Eurico Moreno.
Com a crise e a queda de movimento no entorno, a Haus encerrou as atividades e o Lambe Lambe só abriu mais de cinco anos depois. Felizmente, em um momento propício para a novidade, analisa Franklin.
“Eu converso muito com os clientes e os amigos que chegam e muita gente diz: 'Matheus, a gente está voltando a ter a sensação de vamos para o Lambe Lambe e de lá a gente decide'. Isso era uma coisa que na maior parte da minha juventude se dizia: ‘vamos para o Dragão e lá e a gente vê o que a gente faz’, porque tinha opção para todo tipo e todo gosto”, comenta.
Com foco na música eletrônica e no estilo “bar de calçada”, o novo espaço ganhou adeptos rapidamente e chega a receber em torno de 300 a 400 pessoas aos sábados, dia de maior movimento.
O investimento no entorno do Dragão visava justamente atingir um público grande e diverso, como nos velhos tempos. “O Dragão do Mar é o ponto de Fortaleza mais democrático que existe, desde que eu me entendo por gente. Era um canto em que você não via diferenciação de classe, de credo, de cor, de gosto. Ele era como se fosse um guarda-chuva para todas as tribos”, lembra o sócio proprietário.
Segundo Matheus, além de servir de “esquenta”, o funcionamento do bar foi pensado também para atender uma geração "mais fitness", que gosta de sair cedo e voltar cedo para casa. A ideia funcionou: a equipe começou com quatro funcionários e hoje já conta com 14, para atender a demanda.
No momento, o bar aguarda que o Dragão “volte 100%” para aumentar os dias de funcionamento e abrir, além de às sextas e aos sábados, também às quintas-feiras e domingos. Vizinha do bar, a boate Haus também deve voltar à ativa neste ano, adianta Matheus, mas ainda não tem data de inauguração prevista.
Após reforma de praça, impasse com comerciantes retirados de trailers segue
Apesar de o futuro parecer promissor para empreendedores que investiram em novidades nos imóveis da região, há um grupo de trabalhadores que foi impactado negativamente pela reforma: os comerciantes dos trailers da Praça Almirante Saldanha, retirados do local em dezembro com promessa de realocamento.
A comerciante Ana Alves, 22, que trabalhava em um dos 13 foodtrucks do local, conta que a situação está inviável, já que a alternativa oferecida foi um funcionamento improvisado em barracas simples, que não têm estrutura para aguentar as chuvas desta época do ano.
“Ficou tudo horrível para nós. Quando chove, às vezes, os clientes comem na chuva”, conta. “Prometeram quiosques para nós. Disseram que ia sair em abril, mas nem começaram a fazer. Não tem mais nem reunião com a Prefeitura”, lamenta.
Desde a retirada, os comerciantes vivem “passando perrengue” e só têm boas vendas graças às boates, principalmente aos sábados, segundo Ana, o que reduziu consideravelmente os lucros. “Eu dependo só daqui, não vou mentir para você não. Eu dependo daqui, mas não está dando para tirar o meu sustento”, afirma.
Comerciante no entorno do Dragão do Mar há 17 anos, a empreendedora Vânia Gomes Ferreira, 47, encontrou na amizade com donos de bares da região uma alternativa para seguir com seu negócio. Dona do Vânia Burgers, ela está operando em parceria com o bar Lambe Lambe, em uma cozinha improvisada.
Apesar de estar numa situação um pouco melhor do que os colegas, ela diz que o movimento caiu, porque os clientes fiéis ainda não sabem onde encontrar os antigos foodtrucks. “A Prefeitura tirou todos os trailers. São 13 famílias que eles tiraram, prometendo os quiosques para maio. Mas não deram mais resposta, nem nada”, explica.
Segundo a superintendente do Dragão do Mar, Camila Rodrigues, o projeto de reordenamento da Praça Almirante Saldanha está sob responsabilidade da Secretaria Regional 12. A assessoria da Regional, no entanto, afirmou que a demanda segue com a Secretaria da Cultura (Secult), que assumiu, junto à Secretaria de Obras Públicas (SOP), a reforma da praça após entraves entre Governo e Prefeitura em 2024.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, a secretária da Cultura do Ceará, Gecíola Fonseca, afirmou que a Pasta recebeu uma proposta, via Mecenato, de construção de um mercado gastronômico com 12 quiosques fixos para abrigar os antigos foodtrucks da Praça Almirante Saldanha. A proposta foi aprovada pela Secult e será executada pela Quitanda Soluções Criativas.
De acordo com a secretária, a empresa está na etapa de elaboração de projetos arquitetônicos e de engenharia e de regularização das autorizações necessárias para começar a construir o mercado.
Ao contrário do que, segundo os comerciantes, foi repassado pela Prefeitura, não há previsão de entrega do espaço ainda neste semestre. Segundo a Secult e a Quitanda, a expectativa é que um cronograma mais detalhado seja divulgado em junho e que o mercado seja entregue no segundo semestre.
“Em junho a gente projeta que tenha as informações já mais azeitadas sobre como é que vai ser e que no segundo semestre a gente tenha esses quiosques já lá disponíveis para os comerciantes, que vão ficar no novo local para onde eles foram alocados até finalizar a construção desses quiosques”, explica Gecíola, que também afirma que Secult, Dragão e Prefeitura seguem em diálogo com os comerciantes para achar uma solução viável para as demandas do grupo.
Dragão vive 'momento positivo', diz gestão
Apesar dos transtornos causados pela reforma da Praça Almirante Saldanha, 278 mil pessoas visitaram o Dragão do Mar em 2025, segundo a gestão do equipamento. Entre os destaques de visitação estiveram o Cinema do Dragão, que se manteve em funcionamento durante toda a reforma, shows de artistas de alcance nacional no Anfiteatro no segundo semestre do ano passado e a chegada da exposição "Bloco do Prazer" ao Museu de Arte Contemporânea (MAC-CE).
Para a superintendente do CDMAC, Camila Rodrigues, o fim da revitalização da praça faz parte de uma nova fase do Dragão, que também contou com reformas internas e reestruturações nas equipes e na grade de programação. “É um momento positivo de uma trajetória que é longa”, afirma.
A gestora destaca que, além das reformas na praça e das manutenções internas e externas feitas no Dragão no último ano, o equipamento hoje conta com novas faixas de programação, como o estabelecimento de um calendário semanal para espetáculos de teatro, dança e circo e projetos voltados para a música instrumental e as expressões populares.
foram destinados pela Secult ao contrato de gestão do Dragão do Mar, gerido pelo Instituto Dragão do Mar (IDM), em 2026.
“O Fausto Nilo tem um negócio que ele fala assim: ‘o que traz segurança é gente na rua’. Gente na rua traz essa sensação de segurança. Então, a gente está vivendo um momento importante e que tem um horizonte melhor ainda”, aponta Camila.
A superintendente destaca que investimentos na requalificação urbana impactaram o equipamento e todo o entorno, o que possibilitou uma “nova ocupação econômica do território”.
O grande desafio, agora, é conseguir manter o público engajado nas programações da "região do Dragão", que conta ainda com outros equipamentos como a Caixa Cultural Fortaleza, a Escola Porto Iracema das Artes e a Biblioteca Estadual do Ceará (Bece).
“[O desafio] é a gente consolidar esse momento, porque infelizmente a gente ainda sente a pandemia, essa reverberação. Mas já estamos superando”, celebra a gestora.
Camila adianta que, nos próximos meses, a boa fase do equipamento cultural deve ser impulsionada em diversas áreas, inclusive na música, com mais shows na grade de programação da Praça Verde previstos para este ano, a partir de maio, e grandes festivais ocupando o Dragão no segundo semestre.
“Outro destaque que a gente tem são as férias, em julho e janeiro, que é um momento onde a gente retorna a oferecer uma programação nacional. Então, já estamos pensando também nessa ocupação”, conclui.