Fortaleza soma quase 1.800 pontos vulneráveis à proliferação do mosquito da dengue; veja bairros

Cuidados domésticos e vigilância ambiental são essenciais contra o mosquito Aedes aegypti.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
Um agente de vigilância ambiental, visto de costas, inspeciona calhas de chuva no telhado de uma casa em um beco estreito. Ele utiliza as mãos para verificar possíveis acúmulos de água parada que possam servir de criadouro para o mosquito Aedes aegypti.
Legenda: Novas tecnologias devem ajudar complementar trabalho de agentes de endemias em áreas de difícil acesso.
Foto: Fabiane de Paula.

A preocupação com a circulação de doenças como dengue, chikungunya e zika aumenta no período chuvoso no Ceará, entre janeiro e maio, época em que os índices de infestação historicamente atingem seus picos. O monitoramento permanente da Prefeitura de Fortaleza identificou que a cidade possui 1.788 pontos classificados como vulneráveis à proliferação do mosquito Aedes aegypti, animal que transmite as doenças.

Esses locais são caracterizados por uma grande concentração de depósitos preferenciais para a desova ou pela facilidade de introdução do vetor, recebendo inspeções quinzenais e, quando indicado, a aplicação de controle químico.

Os dados constam no novo Plano Municipal de Contingência para o Controle e Enfrentamento de Epidemias por Arboviroses para 2026, elaborado pela Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covis) da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e aprovado no último dia 24. O documento traça o mapa de riscos da Capital e estratégias para conter as doenças. 

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O coordenador da Covis, Josete Malheiro, explica que os chamados "pontos estratégicos" são locais com alta rotatividade de materiais ou grande fluxo de pessoas. Eles incluem sucatas, ferros-velhos, centros de reciclagem, ecopontos, prédios antigos, praças e escolas. 

Grandes canteiros de obras, tanto públicos quanto privados – como as obras do Metrofor –, também entram nessa categoria e passam por vistorias frequentes para a eliminação de focos, buscando minimizar a proliferação descontrolada nos bairros correspondentes.

“O principal tipo de foco de mosquito está em médios reservatórios: baldes, tonéis e tinas. Depois, seguem-se as calhas e os reservatórios menores. Isso favorece a proliferação do mosquito tanto no período da quadra chuvosa quanto no período da estiagem”, detalha.

Mapa de calor da cidade de Fortaleza exibindo a densidade de focos do mosquito da dengue. Diversos pontos verdes e amarelos estão espalhados por quase todo o território urbano, com maior concentração nas zonas norte e oeste da capital.
Legenda: Mapa de pontos estratégicos de depósitos de ovos do mosquito Aedes aegypti.
Foto: Covis/SMS.

Clima favorável

O documento da SMS explica que as condições climáticas de Fortaleza, especialmente pela combinação de calor e umidade, funcionam como um “gatilho” para a postura de ovos e aumentam significativamente a sobrevida das fêmeas do mosquito.

Segundo Josete Malheiro, o inseto está “completamente ambientado” ao convívio urbano e tem demonstrado uma alta capacidade de adaptação, chegando a proliferar em climas frios, como observado recentemente em Estados da região Sul do Brasil. 

No contexto local, essa resistência é potencializada por hábitos culturais de armazenamento de água em reservatórios abertos, o que mantém o risco de transmissão ativo mesmo fora da quadra chuvosa (fevereiro a maio) e durante o período mais seco.

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Apesar disso, atualmente, Fortaleza apresenta uma transmissão de arboviroses dentro do padrão endêmico. Para a dengue, o Município registrou 301 casos confirmados em 2025, uma média de apenas 25 por mês (no ano anterior, foram 3.211, ou 267 mensais). Conforme o coordenador, até o momento em 2026, a cidade registrou 44 casos.

Após ondas epidêmicas em 2017 e 2022, a Cidade também vive um cenário de baixa transmissão de chikungunya, com 57 casos em 2025. Quanto à zika, a Capital não teve registros confirmados entre os anos de 2021 e 2025.

Mesmo com relativa tranquilidade, o Plano emite um alerta para a possível introdução do sorotipo 3 da dengue. Ele já circula em outros municípios do Ceará e representa risco epidemiológico, uma vez que grande parte da população fortalezense nunca foi infectada.

Áreas de maior risco

O perfil das áreas mais vulneráveis de Fortaleza está diretamente ligado à alta densidade demográfica e a problemas de infraestrutura urbana. Bairros mais populosos, que concentram mais de 50 mil habitantes, exigem atenção redobrada das equipes de saúde. A lista inclui territórios como:

  • Jangurussu;
  • Barra do Ceará;
  • Granja Lisboa;
  • Mondubim;
  • Passaré;
  • Prefeito José Walter;
  • Vila Velha.

Conforme o Plano, a distribuição dos pontos estratégicos e áreas de vulnerabilidade para arboviroses revela uma dispersão para toda a Cidade, mas uma concentração crítica nas zonas oeste e noroeste da Capital. As áreas sob jurisdição das antigas Regionais I e III apresentam a maior densidade de pontos. 

Bairros como Barra do Ceará, Pirambu, Vila Velha e Quintino Cunha, além da região que compreende o Grande Bom Jardim e o Grande Pirambu, exibem aglomerados intensos de pontos verdes e “pontos quentes” (áreas em laranja/vermelho no mapa de calor).

Em contrapartida, o mapa aponta menor presença de pontos à medida que se avança para o sudeste e o extremo sul da Cidade. Áreas nobres ou de ocupação mais recente, como o Meireles, Aldeota e Cocó (Regional II), embora possuam pontos isolados, não demonstram a mesma situação de vulnerabilidade observada na área oeste. 

Da mesma forma, bairros como Sabiaguaba, Cidade dos Funcionários, José de Alencar e a região da Sapiranga aparecem visualmente mais “descobertos” no mapa de pontos estratégicos, sugerindo uma menor incidência de fatores de risco.

Conforme o Plano, locais com fornecimento irregular de água – que obriga moradores a manterem reservatórios ao nível do solo – e descarte inadequado de lixo são considerados focos críticos para a manutenção da infestação.

Três agentes de endemias da Prefeitura de Fortaleza, vestindo coletes azuis, conversam com uma moradora à porta de sua residência. A ação educativa ocorre em uma calçada próxima a um cruzamento, com o objetivo de orientar sobre a prevenção da dengue.
Legenda: Conscientização permanente da população nos cuidados com os focos é trabalho de rotina.
Foto: Fabiane de Paula.

Segundo Josete, embora a infestação possa ocorrer em qualquer parte da capital, inclusive em áreas nobres, algumas regiões apresentam maior suscetibilidade histórica. Ele destaca bairros como Pedras, Conjunto Ceará, Granja Portugal, Planalto Ayrton Senna, Jangurussu e Prefeito José Walter como áreas de atenção constante. 

O coordenador aponta ainda que locais com muitos terrenos abertos ou em transição de ocupação, como o Guararapes e a Sapiranga, além de bairros tradicionais como a Praia de Iracema e Jacarecanga, demandam um monitoramento rigoroso devido ao comportamento sazonal e oscilante do vetor.

“Em outra frente, fazemos o controle nos nossos mananciais. A Cidade tem muitos córregos, riachos e galerias pluviais, e encontramos situações em que o lixo acaba represando a água. Temos uma equipe que faz a pesquisa nesses pontos e utiliza controle químico ou o peixamento (uso de peixes que comem larvas). Ao mesmo tempo, acionamos a Defesa Civil para a desobstrução e remoção de lixo. Tudo isso ocorre simultaneamente”, explica.

Estratégias de combate

Para enfrentar esse cenário complexo, a SMS implementa uma série de estratégias de combate ao longo de todo o ano. Segundo o coordenador da Covis, as frentes mais importantes envolvem ações de mobilização social e educação, com foco em transformar o comportamento da população. 

De forma prática, as ações detalhadas no Plano incluem:

  • Monitoramento tecnológico: expansão da rede de monitoramento para 784 ovitrampas (armadilhas para a captura de ovos depositados pelas fêmeas) em todos os 121 bairros da cidade;
  • Operação Quintal Limpo: estímulo à limpeza e remoção de resíduos das residências, com a dedicação de pelo menos 10 minutos semanais para inspecionar e eliminar focos do mosquito;
  • Vacinação: seguimento da campanha contra a dengue para o público de 10 a 14 anos, disponível nas 134 postos de saúde de Fortaleza;
  • Assistência: em caso de epidemia confirmada, o plano prevê a ampliação de 15 leitos nas UPAs municipais para reduzir o tempo de espera e garantir hidratação venosa imediata aos pacientes com sinais de alarme;
  • Bloqueio de casos: quando há o diagnóstico de um caso confirmado de dengue, faz-se um bloqueio de cinco quarteirões no entorno, com fumacê, a partir do ponto georreferenciado do paciente.

Além disso, a estratégia de mutirões é intensificada em áreas críticas, onde grandes grupos de agentes de endemias atuam simultaneamente para eliminar focos e realizar o bloqueio espacial de mosquitos adultos, o que aumenta a eficácia das ações, o engajamento das comunidades e a sensação de segurança das equipes.

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