Ceará tem floresta petrificada de 145 milhões de anos no Interior; conheça
Árvores fósseis são de quando o Brasil ainda era ligado à África.
Uma janela para a história do planeta de milhões de anos atrás está aberta no interior cearense. É a Floresta Petrificada do Cariri, um conjunto de árvores fósseis no município de Missão Velha, a mais de 530 km de Fortaleza, que é testemunha de quando o Ceará ainda era ligado à África, no “supercontinente” Gondwana.
As peças datam de cerca de 145 milhões de anos, dos tempos jurássico e cretáceo, e são resultados de um processo natural que transformou a madeira dos troncos em minerais e rochas. Por meio delas, cientistas fizeram diversas descobertas e “reconstruíram” digitalmente como era a paisagem cearense na época.
Há florestas petrificadas em outras partes do Brasil, mas no Ceará elas se concentram na Região do Cariri, na Bacia e na Chapada do Araripe, com áreas importantes próximas aos municípios de Missão Velha e Brejo Santo, explica a paleobotânica Domingas Maria da Conceição.
Domingas é pesquisadora visitante do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (MPPCN), da Universidade Regional do Cariri (Urca), e autora de artigo científico publicado em 2025 que descreve uma espécie fóssil inédita para a ciência no mundo: a Metapodocarpoxylon brasiliense, encontrada na floresta cearense.
O trabalho também registra pela primeira vez no Brasil a presença da espécie Agathoxylon mendezii, madeira fóssil de conífera extinta. Antes do estudo, a ocorrência dela era conhecida apenas na Patagônia, na Argentina. A relevância da “Formação Missão Velha” para a ciência, portanto, é incontestável.
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Como surge uma floresta petrificada
A Floresta Petrificada do Cariri é a principal entre as estruturas cearenses deste tipo. A paleobotânica Domingas Conceição explica que a maioria dessas peças é formada “quando as árvores são rapidamente soterradas por sedimentos ou rochas, especialmente com a ausência de oxigênio”.
“Isso pode ocorrer por eventos naturais como enchentes, deposição rápida de sedimentos, fluxos de lava ou até mesmo quedas de cinzas vulcânicas. O soterramento rápido em ambientes com pouco ou nenhum oxigênio impede a decomposição natural da madeira, favorecendo a preservação como fósseis”, detalha Domingas.
Dessa forma, florestas como a do Cariri – área protegida localizada no território do Geopark Araripe, oficialmente reconhecido como um geossítio de importância internacional – recobram um Ceará com clima e geografia totalmente inimagináveis para quem habita a região hoje.
Funcionam como uma verdadeira janela para a história da Terra. Assim como outros fósseis, essas árvores são fundamentais para a compreensão das paisagens do passado, dos ecossistemas, do paleoclima e da vegetação."
Os troncos fossilizados desempenham ainda outro papel importante: “contribuem para o conhecimento sobre a evolução das plantas e a distribuição espacial e temporal das plantas fósseis e das comunidades vegetais ao longo de milhões de anos, culminando nos padrões de vegetação observados atualmente na Terra”, avalia Domingas.
O “patrimônio natural de valor inestimável” é também parte da identidade do Estado. “Do ponto de vista histórico e cultural, a floresta integra a identidade do Cariri e possui grande valor educativo, aproximando a sociedade da história da vida no planeta e valorizando a natureza formada ao longo de milhões de anos”, reflete Domingas.
Ceará no “supercontinente”
Como é possível saber que essas árvores petrificadas têm 145 milhões de anos? A pesquisadora da Urca explica que isso é estimado “por comparação com rochas de outras regiões da América do Sul e da África”, com base em grãos de pólen e esporos.
“Como esses microfósseis são característicos de períodos específicos da história da Terra, eles funcionam como verdadeiros ‘marcadores do tempo’ na história geológica de grandes regiões e até de continentes”, diz.
Assim, é possível definir: a Floresta Petrificada do Cariri está diretamente relacionada ao Gondwana, um supercontinente que incluía o que hoje se conhece como América do Sul, África, Índia (Ásia), Austrália e Antártica.
“As árvores da Floresta Petrificada do Cariri faziam parte de uma vegetação amplamente distribuída no Gondwana no passado, hoje separada em diferentes continentes”, pontua a pesquisadora.
Características anatômicas e outros traços biológicos das árvores fósseis cearenses têm “afinidades com coníferas registradas em outras gondwânicas, como a África”, segundo Domingas, o que comprova a antiquíssima ligação.
Preservação de geossítios no Ceará
A Floresta Petrificada do Cariri, na localidade de Grota Funda, em Missão Velha, é um dos noves geossítios que integram o Geopark Araripe, área de 4 mil km² que abrange ainda os municípios de Barbalha, Crato, Juazeiro do Norte, Nova Olinda e Santana do Cariri.
O local passou a integrar, em 2006, a Rede Global de Geoparques da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que soma mais de 160 geoparques em cinco continentes. Foi o primeiro do Brasil e das Américas a entrar na lista.
É possível visitá-los, incluindo a floresta, mas a riqueza incalculável dos espaços exige “ações adequadas de proteção e gestão, que incluam monitoramento, conservação, pesquisa científica e atividades de educação ambiental”.
A interação do público, então, deve ser controlada, como opina Domingas.
“A inserção da área no território protegido do Geopark é fundamental para garantir a conservação aliada ao desenvolvimento sustentável. Os principais desafios para isso estão relacionados à necessidade de fiscalização contínua e ao desconhecimento da população sobre o valor científico e patrimonial da área”, diz.
Ela complementa que “a visitação deve ser permitida, mas de forma orientada e controlada, possibilitando o uso educativo e turístico responsável, sem comprometer a integridade dos fósseis nem ameaçar sua conservação por meio do turismo de massa”.
Hoje, segundo Domingas, “está sem muito controle para visitação”. “Antes, era preciso ligar para o Geopark para reservar, pois tinha uma chave do portão. Agora não tem mais esse controle”, preocupa-se.
O Diário do Nordeste contatou a direção do Geopark Araripe para saber informações sobre a visitação do público ao equipamento, bem como quais ações de guarda e proteção existem no local. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.