Para quem eu preciso pedir perdão?

É possível mudar a forma de agirmos, mesmo quando temos histórias de dores, violências e embrutecimentos na nossa estrutura.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Não há limites para o que sentimos, mas existem limites sobre o que podemos fazer com o que sentimos.
Foto: PeopleImages/Shutterstock

Relacionamentos nos confrontam com as diferenças, a existência do outro e inexoravelmente com conflitos decorrentes desse reconhecimento. Perceber que o outro não é igual a mim, que não irá se submeter aos meus caprichos, que irá possuir desejos diferentes, irá me frustrar, dizer não, produz tristezas, decepções, e pode magoar e ferir o narcisismo ou o amor que temos por nós.

Nos aprendizados nas relações, podemos testar com o outro o poder do nosso domínio, nossa indiferença, nossa maldade, nossa crueldade.

Podemos ser vis, covardes, injustos, não assumir responsabilidades, cuidados, deixar o outro desprotegido, falhar nos compromissos, atropelar seus afetos, desrespeitar sua história, quebrar acordos, mentir, querer tomá-lo como posse e subjugá-lo para que satisfaça apenas aos meus desejos.

Podemos não assumir a responsabilidade do que fazemos e ainda transferir para o outro a responsabilização sobre a nossa maldade, podemos negar a gratidão aos que nos servem e o reconhecimento aos que têm sido generosos e bondosos conosco.

Ao longo da vida é possível construir muitas dívidas emocionais por esses motivos e alguns simplesmente as negam, jogam para o esquecimento ou buscam um fiador para suas questões emocionais.

Quando machucamos alguém, aquilo se fixa enquanto memória. Muitas vezes, o devedor esquece, aquele que tomou o prejuízo, não. E nesse caso, o prejuízo é a conta aberta aguardando o perdão. Quem perdoa, zera a dívida e liberta a ambos. Mas como zerar uma dívida se ela é reaberta continuamente?

O perdão é algo maior que a desculpa; perdoar, etimologicamente vem de "per", completamente, por inteiro e "donare", doar, abrir mão da cobrar, de punir. Quem precisa pedir perdão tem uma dívida com alguém.

Uma dívida emocional, contraída no campo das relações, por falhas, intencionalidades, traições, violências, dificuldades de contenção emocional, imaturidade, egoísmo, maldade, necessidade de controle, adoecimentos, falta de habilidades emocionais, falta de regulação emocional, dificuldade em respeitar e ver ao outro.

E qual o prejuízo nas relações, quando alguém que nos magoa não nos procura para quitar sua dívida, com o justo ato da ação restaurativa e a artesania das palavras e dos afetos sinceros? A perda do vínculo, do desejo de estar junto, da alegria, do amor.

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O amor não resiste a grosserias reiteradas, à invisibilidade do outro, ao controle, desrespeito, manipulação, à violência, ao desprezo pelo que é importante, ao desaparecimento de si.

Para reconhecer que machucamos, que ultrapassamos a fronteira do aceitável, é preciso alguém que se disponha a caminhar emocionalmente, a evoluir e crescer na sua humanidade, ser capaz de superar a "birra" e perceber que há um limite para o que podemos fazer ao outro. Não há limites para o que sentimos, mas existem limites sobre o que podemos fazer com o que sentimos.

Algumas pessoas se apegam à defesa da autenticidade ou do “jeito de ser”. Realmente, a estrutura não muda, mas funcionamento sim.

Recentemente vi um vídeo de porcos-espinhos sendo alimentados pelo tratador e retraído os espinhos para não machucá-lo. É possível mudar a forma de agirmos, mesmo quando temos histórias de dores, violências e embrutecimentos na nossa estrutura.

Quem você precisa pedir perdão? Quais dívidas emocionais você precisa quitar e assumir responsabilidades pelo dano que causou ao outro? Que conversas sérias e honestas precisam encontrar espaço para existir? Como reparar o dano emocional? Como curar com gestos e palavras?

Muitas vezes, para fugir da decepção de termos machucado quem amamos, negamos que fizemos algo horrível, diminuímos a gravidade dos nossos gestos, não percebemos os sinais de distanciamento, a perda no brilho do olhar, o cansaço de quem já não acredita na capacidade de mudar e acolher.

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Deixamos ao tempo a responsabilidade daquilo que nos pertence. Fugimos das conversas difíceis ou nos cansamos porque sabemos que o perdão pedido não é verdadeiro. É somente para “limpar o nome” provisoriamente para realizar novas dívidas.

Uma dívida emocional pode atravessar transgeracionalmente, pode levar as marcas de uma violência ao longo de várias histórias e por personagens que vivenciam seus efeitos de forma colateral. Por isso que existem necessidades de perdões institucionais, entre países, entre povos.

O reconhecimento de um erro e a busca de sua reparação é caminho difícil. Entretanto, é necessário para reconhecer a humanidade no outro, sua dor, sua necessidade de cuidado e quiçá criar amor.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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