Em quem você deposita sua confiança?

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 09:09)
Foto: Lukas/Pexels.

O cuidado, o amor, a presença genuína e a compreensão permitem que algo de bom se instaure dentro de nós. Que um senso de valor e amor próprio se desenvolva e que possamos perceber ao outro enquanto alguém com quem se pode contar.

Confiança significa acreditar plenamente. Esse ato de acreditar no outro possui uma dimensão existencial que vincula, enlaça e constrói as bases da espiritualidade. É preciso acreditar que o outro se importa, que o outro cuidará, protegerá, acreditará em mim, que o outro não atacará, que o outro me acudirá quando estiver doente, me dirá a verdade, que o outro virá por mim.

Confiar que alguém sentirá minha falta, que buscará por mim se eu me perder, que não desistirá, é uma das experiências mais importantes e fortes da vida.

A confiança se constrói na presença, nos gestos, no diálogo. Não é possível confiança sem cuidado. E quando não existe confiança, o ambiente é percebido como inóspito e hostil. Há uma tensão constante e uma sensação de ameaça. A confiança gera um ambiente de calmaria e conforto, um respiro em meio ao instável e incerto.

Confiança reduz a ansiedade, o estresse, protege a saúde mental, fortalece o sistema imunológico, amplia a esperança e alivia a sensação de mágoa e culpa.

Quando acontece a quebra da confiança, a esperança fica ameaçada. É preciso confiar no corpo, nas ideias, nos sentimentos, nas intuições, naqueles a quem amamos, nas instituições. E algumas vezes é preciso desconfiar para confirmar a confiança.

Às vezes podemos confiar tanto em algo que está inadequado, incorreto, que pode ser uma manipulação, que podemos ser levados a desconfiar daquilo que pensamos e sentimos enquanto verdade. Quando perdemos a confiança em nós e a capacidade de checar se aquilo em que confiamos está no rumo certo, podemos ser manipulados. 

Cedemos uma parte da nossa confiança ao Estado, às instituições, aos que nos representam, àqueles em que acreditamos. Mas você checa se a sua confiança está sendo respeitada e merecida? Muitas vezes desconhecidos chegam e nos confrontam: “você não confia em mim?”. Deveria ser claro que não.

Como confiar em quem não se tem tempo de experiência e convívio? Quais seus critérios para confiar? Em quem você deposita sua confiança? Podem confiar em você?

Pessoas desconfiadas muitas vezes esperam o pior dos outros e de si, e tiveram ambientes iniciais de vida com muitas falhas, onde aquele que deveria cuidar e proteger não possuía constância nessa presença. 

Quando vivemos tempos inseguros, quando as instituições não são confiáveis, aumenta a ansiedade, instabilidade e a dificuldade em estabelecer vínculos, com repercussões individuais e coletivas.

Tendemos a acreditar em quem amamos e podemos acreditar em algo mais em função de quem nos diz, do que do fato; ou seja, se alguém que é importante emocionalmente para mim, me diz algo, é maior a probabilidade de que confie na veracidade do argumento, do que se fosse dito por um desconhecido. 

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Assim, torna-se importante, em momento de ampliação de redes sociais, que a confiança nas pessoas do grupo nem sempre seja transposta para as informações apresentadas. Muitas vezes podemos deixar de checar informações simplesmente porque alguém em quem confiamos nos repassou.

A confiança precisa, assim, de concordância e identificação, por isso, uma parte de nós pode se sentir perdida e machucada, quando enganada. Além disso, leva tempo e envolve intencionalidade e acordos. 

Um ambiente seguro, previsível, que permite a alguém se sentir real, integrar suas experiências e afetos, oferece a possibilidade de viver a vida, confiar nos outros, lidar com as adversidades. 

Quando o ambiente não oferece a estabilidade, a confiança, o cuidado e previsibilidade, a sensação é de contínua ameaça, tensão e desconfiança. Será que você oferece a estabilidade e presença segura para quem precisa de você? E será que você tem na sua vida ambientes e pessoas que lhe dão a certeza de poder confiar?

Embora exista um discurso corrente de autoconfiança, que também é importante, é necessário lembrar que a confiança é uma experiência construída a partir de um entre, que precisa de dois e de muitos.

Muitas pessoas experimentaram desencantos, quebra de confiança e abandono ao longo da vida. Muitos esperaram até desgastar toda a fé; e pela perda da esperança, a tristeza se manifesta em raiva e mágoas. 

Entretanto, a confiança exige uma disponibilidade para o outro. Eu sempre acho que a esperança precisa de muito pouco para se fortalecer e expandir. Assim, experiências de cuidado sempre podem construir ou ampliar o confiar. Seja nas relações que podem vir a serem construídas na intimidade dos encontros inesperados, seja no vínculo terapêutico ou na aliança terapêutica com um profissional.

Então, se ao longo da vida foi difícil confiar, por mentiras, mensagens de duplo sentido, falhas, ausências ou instabilidades do ambiente, pode ser possível, agora em outro momento da vida, refazer as rotas das relações e talvez entender, que dar uma chance ao outro pode ser dar uma chance a nós mesmos e que só devemos ficar onde for possível confiar.