Como o sono afeta o desenvolvimento infantil?

Irritabilidade e choro frequente são efeitos apresentados por crianças que dormem menos.

Escrito por Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
23 de Agosto de 2026 - 09:00
capa da noticia
Legenda: Ambiente familiar hostil e uso excessivo de telas são fatores que podem aumentar o estresse infantil e as interrupções durante o sono.
Foto: Shutterstock.

Uma noite mal dormida pode significar mais do que uma manhã de mau humor para uma criança pequena. Quando períodos de sono insuficiente ou fragmentado se acumulam, os efeitos podem atingir habilidades como aprender, se comunicar, memorizar, se movimentar e lidar com emoções. É o que aponta uma pesquisa realizada em Fortaleza com 278 crianças entre 18 e 24 meses de idade.

O estudo identificou que um período de vigília noturna mais prolongada estava relacionado a piores resultados nos domínios cognitivo, motor e socioemocional.

Cada hora em que a criança permanecia acordada durante a noite representou uma diminuição de 0,12 ponto no domínio cognitivo, 0,11 no socioemocional e 0,09 no motor. Considerando o desenvolvimento geral, o impacto negativo foi de 

0,11
Ponto por hora acordado

Os números fazem parte das escalas utilizadas pelos pesquisadores para identificar diferenças nos indicadores de desenvolvimento. Márcia Machado, professora do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC) e uma das autoras da pesquisa, esclarece que esses dados mostram o “estresse tóxico”, uma ativação longa e forte do corpo por causa de situações ruins e repetidas. 

“O ideal é que se tenha o mínimo do que chamamos de estresse tóxico, esse tipo de estresse pelo qual a criança passa pode interferir no sono. Assim, quando se obtém, por exemplo, um valor acima de 0,05 em cada item dessa escala, significa que é preciso acender o sinal de alerta. Um resultado de 0,12 representa o dobro do esperado”. 

A docente elucida que os números não significam, isoladamente, que uma criança tenha um diagnóstico ou apresente um transtorno. Eles sinalizam, contudo, uma associação entre o tempo em que a criança permanece acordada durante a noite e o desempenho em habilidades que estão em plena construção nessa faixa etária.

O que acontece no cérebro enquanto a criança dorme?

A relação encontrada pela pesquisa ajuda a explicar por que o sono é especialmente importante nos primeiros anos de vida. Entre 1 e 2 anos, a criança atravessa uma etapa de intenso desenvolvimento cognitivo, físico, motor, linguístico, social e emocional. É também um período de grande plasticidade cerebral, em que novas conexões são formadas e experiências vivenciadas durante o dia passam a integrar o repertório da criança.

Para Shamyr Sulyvan Castro, professor do Departamento de Fisioterapia da UFC e um dos autores da pesquisa, o sono não representa um intervalo de inatividade. Pelo contrário: enquanto a criança dorme, o cérebro realiza processos fundamentais para a memória e a aprendizagem.

“O sono não é um estado passivo, mas um momento de intensa atividade cerebral. Durante o sono, ocorre a consolidação ou fixação da memória. Ou seja, sem tempo e qualidade de sono adequados, a fixação do que aprendemos ao longo do dia pode ser prejudicada”, explica.

Durante o sono, o cérebro do bebê processa as experiências do dia, consolida a memória e libera hormônios essenciais para a maturação do sistema nervoso e o desenvolvimento físico.
Legenda: Durante o sono, o cérebro do bebê processa as experiências do dia, consolida a memória e libera hormônios essenciais para a maturação do sistema nervoso e o desenvolvimento físico.
Foto: Shutterstock.

Durante o sono, também acontece a transferência de informações entre áreas específicas do cérebro, processo que contribui para o aprendizado. Quando o descanso é curto ou fragmentado, esses mecanismos podem não ocorrer como esperado. Entre as possíveis manifestações, estão dificuldades de regulação emocional, irritabilidade e choro frequente.

A duração do sono também participa da consolidação das memórias e de processos ligados à plasticidade cerebral. Durante a noite, especialmente em determinadas fases do sono, ocorre uma reorganização das conexões entre os neurônios, como se o cérebro organizasse e fortalecesse parte das experiências vividas durante o dia.

Essa dinâmica também pode ajudar a compreender os resultados observados na linguagem. Durante o período em que está acordada, a criança entra em contato com palavras, sons, pessoas e situações que precisam ser assimiladas. Ao longo do sono, essas memórias são consolidadas e fortalecidas, contribuindo para a aquisição de novas habilidades.

O mesmo princípio vale para o desenvolvimento motor. A consolidação da aprendizagem motora também é favorecida pelo sono, que participa da organização das conexões neurais relacionadas aos movimentos.

A pesquisa acompanhou crianças nascidas em hospitais públicos de Fortaleza em julho e agosto de 2020, durante o primeiro lockdown da pandemia de covid-19. O trabalho integra o Iracema-Covid, estudo de coorte realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade de São Paulo (USP) e a Harvard T. H. Chan School of Public Health.

As mães e os filhos foram acompanhados em quatro momentos, aos 6, 12, 18 e 24 meses após o nascimento. Para a análise sobre sono e desenvolvimento, foram utilizados os dados coletados nas duas últimas etapas, quando as crianças estavam entre 1 ano e meio e 2 anos de idade.

A maioria dos participantes, 84,53%, dormia mais de 11 horas por dia. A média foi de 12 horas e 14 minutos, sendo 9 horas e 23 minutos durante a noite e o restante durante o dia. Ainda assim, os pesquisadores observaram que, quanto mais prolongados eram os períodos de vigília noturna, piores eram os resultados relacionados ao desenvolvimento.

Efeitos aparecem em diferentes áreas do desenvolvimento

Na prática, os efeitos de uma rotina de sono inadequada podem aparecer no comportamento cotidiano. Crianças que dormem por períodos curtos durante o dia podem apresentar irritabilidade, choro frequente e menor colaboração na interação com as pessoas ao redor.

Essa percepção também aparece no cotidiano de Luana Rodrigues, 36, jornalista e mãe de uma menina de 3 anos. Na rotina da família, os efeitos de uma noite de sono mais curta podem ser percebidos já na manhã seguinte.

“Quando dorme mal, ela acorda com bastante sono, acorda irritada, não acorda colaborativa. Quando ela acorda de boa, porque dormiu bem, já acorda animada, fica conversando, aceita brincadeira, aceita se arrumar para ir para a escola”, conta.

Márcia Machado explica que o estudo buscou justamente observar como diferentes dimensões do desenvolvimento estavam relacionadas às experiências vividas pelas crianças durante a pandemia.

Quando nós fizemos a última pesquisa, apontou que as crianças tiveram várias alterações no comportamento, e uma delas foi a redução do tempo de sono. Quando relacionamos isso ao desenvolvimento infantil, mostra que prejudica principalmente a formação de vínculos, a socialização e a questão da linguagem, com palavras muito mais reduzidas entre aquelas crianças que têm menos tempo de sono.
Márcia Machado
Professora universitária

Segundo a pesquisadora, a falta de sono também pode se manifestar na parte motora. “Isso gera uma inquietação. São crianças que ficam mais irritadas, choram mais, e essa falta de sono também abala muito a questão motora. Crianças que, por exemplo, começam a crescer e vão caindo muito, não têm uma coordenação adequada do corpo”, afirma.

O desenvolvimento infantil, contudo, não depende exclusivamente da quantidade de horas dormidas. Os próprios dados da pesquisa apontaram outros fatores associados a melhores resultados no desenvolvimento neuropsicomotor, como a escolaridade materna, o sexo feminino e a convivência com irmãos menores de seis anos.

Para os pesquisadores, aspectos familiares e ambientais também precisam ser considerados. No caso das crianças acompanhadas pelo Iracema-Covid, o contexto da pandemia acrescentou mudanças na rotina, isolamento social e sobrecarga de mães e cuidadores, elementos que podem ter interferido tanto no sono quanto nas oportunidades de interação e estímulo.

A curta duração do sono, por sua vez, não é um problema restrito ao grupo estudado. Segundo os dados apresentados no artigo, cerca de 33,3% das crianças entre 1 e 2 anos dormem menos do que o recomendado. A frequência varia de acordo com características como renda, etnia e escolaridade dos pais.

Dormir menos do que o necessário de forma recorrente pode ter repercussões para além da primeira infância. A insuficiência crônica de sono está associada, em crianças e adolescentes, a pior qualidade de vida e pode estar relacionada a condições cardiovasculares, metabólicas, pulmonares, alérgicas e à obesidade.

Por isso, para os autores, observar o sono deve fazer parte do acompanhamento do desenvolvimento infantil desde cedo. Mais do que uma questão de rotina doméstica, o descanso passa a ser entendido como uma das condições necessárias para que o cérebro processe experiências, consolide aprendizagens e desenvolva novas habilidades.

“Nossa pesquisa enfatiza a importância de intervenções precoces. Monitorar e ajustar o sono desde cedo é visto como uma forma de apoiar o crescimento motor e cognitivo ideal, aproveitando janelas de desenvolvimento que podem ser mais difíceis de compensar plenamente no futuro”, destaca Shamyr Castro.

Porém, o desenvolvimento das faculdades mentais não se encerra na primeiríssima infância. De acordo com Márcia Machado, principalmente na primeira infância, se estendendo até os 25 anos de idade, há janelas de oportunidades e o cérebro está aberto para receber estímulos. Quando se identifica precocemente o predomínio de estímulos negativos, é possível intervir e o cérebro “se readaptar”.

“Até os seis anos de vida, o cérebro está mais aberto para receber essas interações e informações, que a gente espera sejam mais positivas. Então você consegue resgatar, por exemplo, uma criança que, ao longo do tempo,  viu os pais brigando o tempo inteiro em casa, agressão, gritos… Quando você reeduca essa criança, ela vai ter um processo de readaptação. É o que nós chamamos também o processo de resiliência. Tem crianças que conseguem, mesmo vivendo em situação de extremo estresse tóxico, ela se recupera”.  

Hábitos que podem fazer diferença

Para Luana, estabelecer uma rotina de sono desde os primeiros meses também foi uma forma de ajudar a filha a entender que a noite era o momento de desacelerar. “Desde que ela era pequena, a gente procurava criar uma rotina. Quando era bebezinha, apagava as luzes, reduzia o som. A gente quase não assiste TV em casa nesse horário, justamente para diminuir os estímulos”, conta.

Hoje, aos 3 anos, o ritual começa com o banho e segue para o quarto. Depois de trocar a filha, Luana prepara o leite, a menina escova os dentes e escolhe uma história para ouvir antes de dormir. “Às vezes, na primeira história ela já quer dormir. E tem dias que ela está lá, deitada, e a gente tem que contar milhares de histórias”, brinca.

O horário de dormir, no entanto, varia conforme o sono durante o dia. Quando a filha dorme até mais tarde à tarde, por exemplo, demora mais para pegar no sono à noite.

A pesquisa, para além da coleta e interpretação de dados, tem por objetivo as sugestões de políticas e intervenções públicas que podem, posteriormente, alcançar famílias. Shamyr Sulyvan evoca que, a priori, os agentes de saúde pública devem incorporar a hora dormir como um pilar essencial do cuidado infantil, sensibilizando a população como um todo sobre higiene do sono e rotinas regulares para promover o desenvolvimento saudável e o aprendizado na infância.

Os pesquisadores também defendem mudanças dentro de casa, desde hábitos no ritual do adormecer até outras atividades que fazem parte do cotidiano infantil. Márcia Machado chama atenção para a atmosfera emocional na qual a criança está envolvida, contraindicando casos de discussões, gritos e agressões dentro do ambiente do descanso.

“Uma criança vive em uma casa onde os pais brigam muito durante a noite. Então, ela vai assimilando, vai escutando... Isso vai sendo um acúmulo. Não é um comportamento que surge do dia para a noite”, elenca.

A enfermeira também chama atenção para pequenos hábitos antes do sono que têm influência para um ritual mais tranquilo do adormecer e que permite menos interrupções. Banho morno, cafuné e pôr a criança no colo são alguns exemplos que, além de facilitar a hora de dormir, fortalecem laços parentais e de conexões. 

A pesquisadora incentiva atitudes que intensifiquem a conexão entre pais e bebês.
Legenda: A pesquisadora incentiva atitudes que intensifiquem a conexão entre pais e bebês.
Foto: Shutterstock.

Para além do descanso, Márcia frisa que o tempo em contato com telas também tem relação com o desenvolvimento cognitivo, podendo acarretar falta de concentração e irritabilidade. A pesquisadora lembra que o costume, por vezes, é estimulado pelo uso excessivo vindo dos próprios pais. 

Os pais, às vezes, querem controlar e regular isso nas crianças, mas são os primeiros a utilizar as telas de uma forma muito abusiva, principalmente quando estão em contato com seus filhos. Muitos pais começam a não brincar com o filho, a não parar para utilizar aquele momento livre para interagir, olhar no olho, levar a criança para curtir a natureza, para contar histórias…
Márcia Machado
Professora universitária

Na casa de Luana, a estratégia de reduzir estímulos à noite começou ainda quando a filha era bebê e permanece na rotina atual. A mãe conta que, além de diminuir as luzes e os sons, a família substituiu outros estímulos por músicas e, posteriormente, pelas histórias antes de dormir.

A rotina também é acompanhada pela família extensa. Luana mora com o marido e a filha e está grávida do segundo filho. A proximidade com a sogra, que vive a poucas casas de distância, também faz com que ela participe do cotidiano da criança.

A filha, segundo a mãe, costuma dormir durante toda a noite desde o primeiro ano de idade e só desperta em situações pontuais.

Assim, as relações de vínculo entre pais e crianças devem ser melhoradas principalmente no período pós pandemia. Ao Diário do Nordeste, a professora universitária enumera intervenções possíveis à primeira infância:

  • Fortalecer os vínculos afetivos: Priorizar momentos de conexão e convivência entre pais e filhos.

  • Incentivar o brincar ao ar livre: Levar a criança para brincar em parques e em contato com outras crianças.

  • Promover a exploração sensorial e com a natureza: Estimular o contato direto com a terra e o meio ambiente (como andar descalço na terra).

  • Estimular a movimentação corporal: Fomentar atividades físicas e brincadeiras ativas que façam a criança se mover.

  • Trabalhar a motricidade fina: Desenvolver exercícios e atividades manuais (como desenhar, pintar e manusear objetos) para recuperar habilidades de preensão, prejudicadas pelo uso excessivo do toque em telas.

*Estagiária sob supervisão dos jornalistas Dahiana Araújo e Nícolas Araújo.

Este conteúdo é útil para você?

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado

Colunistas