Ex-aluno de escola pública do Ceará recebe bolsa para estudar nos Estados Unidos

Moisés Rocha, natural de Itapajé, está na Universidade de Illinois desde o início de agosto.

Escrito por Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
03 de Outubro de 2026 - 07:00
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Legenda: Contemplado por uma bolsa da universidade americana, Moisés deve ficar em Illinois até dezembro.
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal.

Aos 20 anos, o cearense Moisés Rocha vive uma experiência que, até pouco tempo, parecia distante da realidade da família: desde o início de agosto, ele está nos Estados Unidos, onde realiza intercâmbio na Universidade de Illinois durante a graduação em Direito pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Natural de Itapajé, no interior do Ceará, Moisés foi aluno da Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Adriano Nobre, que é considerada a quarta melhor escola da rede pública no Ceará, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025.

O jovem deixou o Estado aos 18 anos para estudar no Rio de Janeiro. A oportunidade de chegar aos Estados Unidos faz parte do programa de internacionalização da graduação, resultado de uma trajetória construída a partir da escola pública e de medalhas em olimpíadas científicas.

Moisés foi duas vezes consecutivas medalhista de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e, ainda no Ensino Médio, participou do projeto do Centro para o Desenvolvimento da Matemática e Ciências (CDMC), da FGV.

Por meio do programa, alunos de escolas públicas com alto desempenho acadêmico são selecionados e recebem preparação para disputar uma vaga na instituição. Depois de aprovado no vestibular, Moisés conquistou gratuidade integral no curso de Direito e auxílio financeiro para se manter no Rio de Janeiro durante a graduação.

Durante o curso, Moisés passou a buscar uma oportunidade de intercâmbio. A FGV  possui programas com universidades estrangeiras, e os estudantes podem participar do processo seletivo a partir do sexto período.

A seleção interna da faculdade possibilitou a ida para os Estados Unidos, e a parceria entre as instituições também garantiu parte significativa dos custos do intercâmbio. Pela seleção, Moisés recebeu uma bolsa que cobre cerca de dois terços do valor total.

“Um terço do custo ela não cobre. Então eu já estava planejando esse intercâmbio há alguns anos, já tinha uma certa reserva em dólar. Meus pais também já tinham uma certa reserva e aqui na universidade eu também tenho a opção de trabalhar em serviços do campus”, dimensiona.

Moisés permanece nos Estados Unidos até dezembro e pode renovar a permanência para ficar até junho do próximo ano. As disciplinas cursadas no exterior também podem ser aproveitadas na graduação no Brasil.

A universidade escolhida tem forte relação entre Direito e Economia, área que se aproxima do projeto profissional do estudante. No futuro, ele pretende atuar como advogado nas áreas tributária e empresarial.

Primeiro da família a sair do Estado

A primeira grande mudança aconteceu logo depois da conclusão do Ensino Médio, em janeiro de 2024. Até então, Moisés nunca havia saído do Ceará. A decisão de aceitar a oportunidade de estudar no Rio de Janeiro significou também o primeiro contato da família com uma realidade muito diferente daquela vivida no interior.

"Minha família nunca tinha saído nem do Nordeste. Eles saíram do Nordeste a primeira vez pra me visitar no Rio”, relata. 

A distância também foi emocional. Moisés conta que precisou insistir para que os pais permitissem a mudança e lembra da reação do pai ao perceber que o filho seguiria um caminho que, até então, parecia muito distante da realidade da família.

“Nunca tinha saído do Ceará, mas eu bati o pé e falei para os meus pais: ‘Eu não vou deixar a oportunidade passar, eu vou agarrar, eu vou para o Rio e eu vou sonhar mais fundo’. Foi a primeira vez que eu vi o meu pai chorando na minha frente”, lembra.

A história do pai também é uma das principais inspirações para o estudante. Vindo de uma família humilde do sertão de Itapajé, ele deixou a escola ainda na sexta série e foi criado pela mãe depois de perder o pai aos sete anos. Já adulto, decidiu retomar os estudos por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), cursou Direito e, aos 50 anos, conquistou a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Meu Deus, se meu pai tem 50 anos e está fazendo isso, por que eu não posso fazer com 20?
Moisés Lopes
Estudante de Direito

Estudante do sexto semestre, Moisés prospecta atuar no Direito Tributário e Empresarial no futuro.
Legenda: Estudante do sexto semestre, Moisés prospecta atuar no Direito Tributário e Empresarial no futuro.
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal.

Bolsa da FGV abriu caminho para intercâmbio

O estudante chegou à FGV por meio do programa Seleção de Talentos, desenvolvido pelo Centro para o Desenvolvimento da Matemática e Ciências (CDMC).

Criado em 2017, o projeto busca identificar jovens talentos de escolas públicas de diferentes regiões do Brasil, especialmente estudantes com excelente desempenho acadêmico e medalhas em olimpíadas nacionais. Os selecionados são convidados a participar do vestibular da FGV para cursos como Matemática Aplicada, Ciência de Dados e Inteligência Artificial, Ciências Econômicas, Administração, Ciências Sociais, Direito e Comunicação Digital.

Moisés foi um dos estudantes beneficiados pela iniciativa. A preparação oferecida pelo programa e, segundo ele, ajudou a reduzir a diferença de condições entre estudantes de escolas públicas e candidatos de todo o País. Após a aprovação, o estudante passou a contar com gratuidade integral durante os anos do curso, além de um auxílio mensal para se manter no Rio de Janeiro.

Ao longo dos cinco anos, entre a gratuidade e o auxílio, o benefício representa cerca de R$ 600 mil, conforme o estudante.

Para ele, além da formação acadêmica, o ambiente da instituição foi importante para ampliar os horizontes e conviver com estudantes de diferentes regiões  que tinham trajetórias semelhantes. “Se você é o melhor do lugar que você está, você está no lugar errado. Você tem que sempre estar em lugares que as pessoas são muito melhores que você, que é pra você aprender com as pessoas”, afirma.

‘Mire na lua’

A experiência internacional também representa uma conquista pessoal para Moisés, que conta ter aprendido inglês por conta própria durante a pandemia. Agora, aos 20 anos, está inserido em um ambiente acadêmico no qual a maioria dos colegas é formada por estadunidenses.

“Eu nunca tive vergonha de nada, sempre dei a cara a tapa e, graças a Deus, sempre fui muito fácil de fazer amizade. Então a adaptação no Rio pra mim foi muito fácil, assim como aqui nos Estados Unidos. Não porque é fácil, mas porque se você dá a cara a tapa, se você vai sendo comunicativo com as pessoas, você consegue fazer novas amizades mais fácil”, relata.

A adaptação, segundo ele, também foi possível pela convivência que teve com outros estudantes selecionados pelo programa da FGV, vindos de escolas públicas de diferentes partes do Brasil. Ao deixar Itapajé, uma cidade com menos de 50 mil habitantes, para morar no Rio de Janeiro, capital com 6,2 milhões de pessoas, conforme o Censo Demográfico de 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Moisés precisou se adaptar a uma realidade completamente diferente.

Agora, vive uma segunda mudança, desta vez em outro país e em um ambiente acadêmico no qual precisa estudar em inglês.

Para o estudante, mirar alto foi parte importante do caminho. “Meu sonho era fazer intercâmbio em Harvard, que é a Lua, que é o topo. Não fui para Harvard, mas fui para uma das melhores universidades de Direito dos Estados Unidos. Aqui a mesma coisa: meu objetivo é ser o melhor da sala”, afirma.

A trajetória também passou a inspirar outros estudantes. Depois de anos longe das redes sociais, Moisés voltou a usar o Instagram quando chegou aos Estados Unidos e começou a publicar registros do cotidiano.

“Muita gente, muita gente mesmo, principalmente estudantes, e estudantes da minha escola, da minha ex-escola, que eu nunca conheci, não sei nem quem é, nem conviveram comigo, me seguindo e acompanhando e vendo diariamente, falando o quanto aquilo estava inspirando”, relata.

A EEEP Adriano Nobre, onde Moisés cursou o ensino médio, fica no bairro Esmerino Gomes, no chamado “pé da serra” de Itapajé. A instituição oferece ensino profissionalizante desde 2009 e aparece há anos entre as escolas públicas de destaque nos indicadores educacionais. A escola é pública, mas reúne uma estrutura de ensino em tempo integral e formação profissional.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo. 

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