Nativo da África e adaptado ao Brasil, de hábitos diurnos e afeito ao calor humano, o Aedes aegypti existe há mais de 500 anos e é um dos principais vilões da saúde pública por transmitir arboviroses. Mas o que nele é capaz de fazê-lo quase indestrutível perante a ciência?
A resposta não admite premissa única. É multifatorial, ligada sobretudo à capacidade de adaptação do bicho. “É um mosquito extremamente competente em relação à habilidade de se adaptar ao ambiente urbano e, principalmente, ao ambiente doméstico”, situa Luciano Pamplona, epidemiologista e superintendente da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP-CE).
O mosquito, por exemplo, precisa de apenas dois fatores para transmitir dengue: sangue humano e depósito com água para reprodução. Mas nem todo inseto é vilão. O Aedes aegypti necessita estar infectado com o vírus da doença para contaminar uma pessoa. Embora pareça pouco para propagar algo tão grave, o combate ao mosquito e o controle de ambientes favoráveis a ele envolvem circunstâncias complexas.
Esta é a terceira reportagem do especial “Dengue - 40 anos”, do Diário do Nordeste, que relembra os primeiros casos da virose responsável por matar quase 700 pessoas no Ceará, identifica quais as tecnologias atuais aplicadas para erradicar o mosquito e como se proteger e prevenir a doença.
Fato é que, por mais que as pessoas consigam controlar o próprio espaço doméstico – eliminando criadouros em locais que possam acumular água, por exemplo – o Aedes aegyti sempre encontra alguma possibilidade de lugar para se reproduzir, o que explica a dificuldade de contê-lo ou mesmo eliminá-lo.
“Desde o século anterior, temos registros de uma epidemia de febre amarela urbana que ocorreu em vários municípios do Estado do Ceará, a exemplo de Sobral. E só depois a gente descobriu que quem transmitia a febre amarela urbana era o Aedes aegypti”, conta Luciano.
“O mosquito está no Brasil provavelmente desde o tempo dos escravizados, que vinham nos navios da África. Ou seja, está aqui há bem mais tempo – antes de o vírus da dengue ser detectado no Ceará, em 1986. Mas a circulação das doenças demorou um pouco mais porque o trânsito de pessoas doentes era muito mais lento antes”.
Como reconhecer o Aedes aegypti?
Há uma premissa básica: apenas as fêmeas do mosquito são capazes de picar porque precisam do sangue para amadurecer os ovos. Quando atacam, cospem saliva com substâncias analgésicas e anticoagulantes, o que ajuda o vetor a não ser notado pela pessoa e, assim, sugar a maior quantidade possível de fluido.
“Ela precisa basicamente de sangue humano para se alimentar e de depósitos que contenham água para fazer a reprodução – duas circunstâncias que a gente não consegue controlar no ambiente”, situa Pamplona. “É importante entender que o mosquito existe nos locais, mas, para que haja transmissão de doenças, é preciso que o vírus chegue”, completa.
Outra característica marcante são as pernas listradas de branco e preto – ainda que, segundo pesquisadores, na verdade essas pernas não sejam listradas. O que acontece é que as articulações do mosquito perdem pelo e, quando olhamos mais detidamente, embora difícil de detectar a olho nu durante o voo do inseto, temos a impressão de que são listras.
Luciano ensina um modo eficaz, espécie de receita caseira, para diferenciar o Aedes aegypti de outros mosquitos. O segredo está no som. Quando voa, a muriçoca, por exemplo, faz barulho; o Aedes aegypti, não. “Então, quando você fechar os olhos e o mosquito se aproximar, caso ouça barulho, será uma muriçoca, não ele”, ilustra. “Na prática, porém, as pernas listradas ainda são a melhor forma de identificação”.
Por hábito, há horários específicos nos quais o mosquito está mais presente no ambiente, a exemplo de nas primeiras horas da manhã e no fim da tarde – períodos em que o carro fumacê circula, inclusive.
Em relação à altitude, morar em lugares altos pode ser uma proteção, mas não é garantia de que o Aedes aegypti não acesse esses espaços. De novo: o que é preciso, para ele, é somente ter água parada e calor.
Outro detalhe relativo ao bicho é que cores escuras chamam a atenção dele, a exemplo de roupas pretas. E há tendência de ele criar resistência inclusive ao famoso fumacê. Não à toa, diante das novas gerações de Aedes aegypti nos quais inseticidas não exercem mais efeito, governos atualizam as substâncias a cada dois ou três anos, bem como a água utilizada em depósitos alimentares, para que a ação de combate realmente aconteça.
“É essencial compreender o que é preferência e o que é oportunidade. O mosquito tem, sim, preferências. Ele prefere água limpa à água suja, mas isso não elimina a possibilidade de colocar ovos em água suja; prefere se alimentar no início da manhã e no fim da tarde, mas isso não impede que, se não houver opção de pessoas para tirar sangue nesses momentos, ele ataque na hora do almoço”, enumera o superintendente da ESP-CE.
Secretário executivo de Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Antônio Silva Lima Neto, o Tanta, também explica que as fêmeas do mosquito não põem ovos em rios ou lagoas, nem mesmo em piscinas.
“A fêmea precisa que o ovo cole no recipiente. Os insetos não andam em bandos e costumam viver sozinhos. Sempre que alguém lhe disser que viu muitos Aedes aegypti juntos, isso não existe. A fêmea vive sozinha ou no máximo com duas fêmeas numa casa, não tem mais do que isso.
"Geralmente, a fêmea pode não botar os ovos todos no mesmo recipiente. Ela leva em conta aquele ditado: ‘não bote todos os ovos na mesma cesta’. Ela bota um aqui, outros ali, para garantir que a ninhada vá sobreviver pelo menos uma", descreve.
Ao que Luciano Pamplona complementa: “Precisamos, então, entender quais são as preferências dele: ficar, sobretudo, num ambiente domiciliar, com menos vento, onde estará protegido. Esses hábitos se aproximam cada vez mais das nossas condições, humanas, e, assim, aumenta a capacidade de transmitir doenças”.
Há preferência do mosquito por tipo sanguíneo?
Se o sangue humano está no epicentro da compreensão de como a dengue age, é necessário deixar claro: embora haja estudos sobre a predileção do mosquito por um ou outro tipo sanguíneo, não há nada conclusivo nessa seara. Na prática, ele picará as pessoas de qualquer forma dentro das circunstâncias favoráveis.
O mosquito-fêmea é infectado quando suga o sangue de alguém doente no curto período em que essa pessoa tem várias partículas do vírus circulando na corrente sanguínea.
Nesse momento, o Aedes aegypti terá o vírus no próprio “estômago”, mas ainda não é capaz de transmiti-lo. Entre 10 e 12 dias depois – ao todo, o mosquito vive, em média, 30 dias – as partículas do vírus da dengue se disseminam pelo organismo do inseto, se multiplicam e invadem as glândulas salivares.
O mosquito-fêmea, assim, poderá transmitir o vírus a outra pessoa. No Aedes aegypti, o período de tempo entre a alimentação com o sangue de alguém que possui o vírus da dengue e a possibilidade de transmiti-lo, ou seja, entre o mosquito estar infectado e se tornar infectivo, é chamado de “Período de Incubação Extrínseco” (PIE).
Animais de estimação podem pegar dengue?
Para quem tem pets, existe dúvida se cães e gatos podem ter dengue. Na prática, não, mas o mosquito infectado pode transmitir outra doença perigosa: a dirofilariose. Conhecida como “verme do coração”, é uma doença extremamente grave e que pode levar à morte do animal.
Isso porque o parasita, Dirofilaria immitis, aloja-se no coração, pulmões e vasos sanguíneos de cães e gatos. Os vermes são transmitidos por meio da picada de mosquitos infectados. Se não tratados, podem causar danos graves aos órgãos internos do animal. Assim como a prevenção para os humanos, é fundamental evitar a água parada próxima de pets.
“O que tem que se fazer ainda hoje é, de fato, ir de casa em casa. Não é fácil, mas é possível. Sabemos a forma como o mosquito se desenvolve na natureza, como ele se multiplica e quais são os lugares onde se desenvolve. É necessário fazer o que já chegou a ser alcançado: eliminar completamente o Aedes aegypti em todo o território nacional”, reforça Carlile Lavor, pesquisador e ex-coordenador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Ceará.
Mudanças climáticas e o mosquito
Não há como deixar de mencionar: urbanização, crescimento desordenado da população, saneamento básico deficitário e fatores climáticos são favoráveis à presença do mosquito da dengue, conforme detalha o Ministério da Saúde – o que leva a reflexões sobre como o hoje dialoga com aspectos da arbovirose.
Para Tanta, a sobrevivência do mosquito tem aumentado com a mudança climática, fazendo com que o inseto viva mais. Quando tentaram utilizar mosquitos geneticamente modificados, as fêmeas passaram a identificá-los.
“Alguns animais têm essa capacidade de entender a maneira de conseguir perpetuar a sua própria sobrevivência. A evolução natural é um pouco isso. É fruto da capacidade que alguns daquela espécie têm de sobreviver e outros não”, destaca.
Em cenário de emergências na temperatura, no qual pessoas precisam cada vez mais acumular água, cresce também a necessidade de proteger esse recurso. Além disso, os inseticidas desenvolvidos ganham resistência cada vez mais rápido. Esse cenário acende o alerta de que são necessárias novas tecnologias, conforme aponta Luciano Pamplona.
“A população precisa entender, definitivamente, que a casa é um ambiente que precisa ser protegido. Não adianta ter um inseticida eficiente se a população não usar nos depósitos adequados, nem um fumacê que mate os mosquitos, mas que não passe toda semana. É preciso aliar as tecnologias existentes, mas nada disso fará efeito se não houver controle da oferta de criadouros de depósito com água no ambiente domiciliar”, conclui Luciano.
Por sua vez, para Tanta, a questão é intersetorial, e o manejo de resíduos sólidos ocupa o lugar central. “Talvez o maior exemplo do mundo de mudança climática no que diz respeito a doenças transmissíveis foi a epidemia de dengue em Buenos Aires, em 2024. A cidade não sabia nem o que era um mosquito. Isso é aquecimento global, adaptação do vetor”, atesta.
“Não tem bala de prata, não tem uma única coisa. ‘Vou vacinar e acabar com a dengue’, nunca pensei assim. Vacinas são muito importantes – talvez a coisa mais importante – mas acabar com a dengue vacinando é muito difícil. Não acabamos nem com a febre amarela”.
Na próxima reportagem do especial “Dengue - 40 anos”, você conhecerá tecnologias para lidar com a dengue, quais delas efetivamente funcionam e as perspectivas científicas e sociais relativas ao tema.
Créditos
Clarice Nascimento e Diego Barbosa, Repórteres | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Louise Dutra, Arte/Animação | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo