Por que o fumacê sumiu das ruas do Ceará? Conheça as novas tecnologias de combate à dengue
Muito usado no início dos anos 2000, o equipamento agora divide espaço com ferramentas mais modernas.
Quem viveu as epidemias de dengue nas primeiras décadas dos anos 2000 pode ter guardado na memória a imagem do “fumacê” percorrendo as cidades do Ceará. Naquela época, a nuvem de inseticida era enxergada como um sinal de proteção. Porém, nos últimos anos, o equipamento sumiu da maioria das ruas devido a fatores biológicos e à modernização das tecnologias de combate ao mosquito.
À coluna, o secretário-executivo de Vigilância em Saúde do Estado, o epidemiologista Antonio Silva Lima Neto, conhecido como Tanta, explica que a prática de nebulização de inseticida caiu em desuso por um motivo simples: a ineficiência a longo prazo. Fazer uso indiscriminado de borrifação de Ultra Baixo Volume (UBV), nome técnico para a ferramenta, pode elevar a resistência do Aedes Aegypti a pesticidas.
Sabe o que o fumacê produziu? A maior resistência do inseto. Por que você fica lançando sem ter surto. Só se faz fumacê quando se tem um surto ativo com transmissão comprovada. Por quê? Por que ele só age no mosquito adulto.”
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Por essa razão, atualmente a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) utiliza a tecnologia somente em situações de larga transmissão de arboviroses, como dengue e chikungunya. Conforme a Pasta, nos primeiros meses de 2026, o cenário epidemiológico da dengue no Ceará é de baixa transmissão, até então repetindo o que ocorreu no ano passado.
Tanta conta que a situação é consequência da imunidade coletiva resultante dos quase 40 anos que o Estado convive com a doença, que possui quatro sorotipos diferentes. Uma pessoa se torna imune ao se vacinar contra dengue ou se infectar uma vez com cada um deles. Como os sorotipos mais comuns no território atualmente são os sorotipos 1 (DENV-1) e 2 (DENV-2), que já causaram epidemias em anos anteriores, há menos pessoas suscetíveis.
"Imunidade de rebanho é quando a maior parte das pessoas já teve a doença e não deixa que ela vire uma epidemia. Por que a gente não teve [uma epidemia]? Por que temos uma horda de pessoas que estão como se estivessem vacinadas", explica o epidemiologista.
Embora os tipos 1 e 2 sejam conhecidos pelos cearenses, algumas cidades ainda registraram surtos localizados da doença neste ano, o que demandou medidas de combate mais emergenciais da Sesa. A borrifação de inseticida por meio do fumacê foi uma delas. Segundo secretário, em 2026, a tecnologia foi usada em cidades como Reriutaba, na região do Sertão de Sobral.
“Um município de pequeno porte, que tem maior dificuldade de acesso à elucidação laboratorial, você faz o fumacê logo quando aumenta demais os casos, para não perder o momento certo”, detalha.
Apesar dos baixos números, o Ceará está em alerta para a doença desde 2025, quando detectou o sorotipo 3 (DENV-3) nos municípios de Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte e Barbalha. Como o tipo não circula de forma sustentada no Estado há décadas, é possível que a imunidade da população esteja vulnerável a ele.
Fumacê pode ser nocivo à saúde e não age contra larvas
Outra característica que contribui para a redução do uso da borrifação de inseticida, ressaltada por Tanta, é que combate apenas o inseto adulto, sendo ineficaz contra as larvas. Além disso, a exposição prolongada ao pesticida utilizado pelo fumacê pode desencadear problemas respiratórios em humanos e matar outros insetos importantes para os ecossistemas, como abelhas e borboletas.
Você tem que fazer fumacê combinado com o dia a dia dos agentes, que é de eliminação de criadouro, porque o fumacê não elimina a larva.”
O secretário cita que uma ação efetiva contra a larva do Aedes Aegypti são as Estações Disseminadoras de Larvicida (EDLs), implementadas em Fortaleza recentemente. A nova ferramenta utiliza o comportamento do inseto contra ele próprio. Diferente das armadilhas tradicionais, conhecidas como ovitrampas — palhetas que fixam os ovos postos e servem para monitorar a densidade dos mosquitos em uma região —, a EDL possui uma tela impregnada com larvicida.
Quando a fêmea do inseto, atraída pela armadilha, pousa na tela com a intenção de depositar seus ovos, tem as patas cobertas por micropartículas do veneno. Então, ao voar para outros criadouros, muitas vezes em locais de difícil acesso para os agentes de endemias, como calhas e reservatórios elevados, o mosquito transporta e deposita o larvicida nesses novos pontos. Então, quando o ovo tenta eclodir, acaba não se desenvolvendo e reduz, portanto, a proliferação do inseto.
‘Mosquito do bem’ pode chegar ao Ceará em 2027
Outra tecnologia destacada pelo gestor é o mosquito Wolbachia, também conhecido como “mosquito do bem”. Apesar do nome diferente, a ferramenta é simples: são Aedes Aegypti inoculados com a bactéria Wolbachia, que age impedindo o desenvolvimento dos vírus da dengue, da Zika e da chikungunya no inseto.
"Você libera o mosquito na natureza para que ele copule, encontre um parceiro, e ele transfira para a prole. Aí, todos os que nascem já vêm com essa bactéria que impede eles de se infectar”, explica Tanta.
Ainda segundo o secretário, é possível que o inseto chegue ao Ceará no ano que vem, conforme a previsão de órgãos federais. Além dessa iniciativa nacional, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) constrói uma biofábrica de mosquito do bem em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). O plano é que os animais modificados produzidos no território cearense abasteçam cerca de 1.794 municípios nordestinos.
A tecnologia já é usada em pelo menos 15 países, onde apresentaram redução significativa das arboviroses. Na Austrália e na Colômbia, por exemplo, a queda dos casos de dengue foi maior do que 90%. No Brasil, em uma prova de conceito realizada na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, os mosquitos do bem diminuíram aproximadamente 69% dos casos de dengue, enquanto os de chikungunya caíram 60% e os de zika 37%.
Vacinação e vigilância constante
Aliado às novas tecnologias, o secretário ainda destaca a importância da vacina contra a dengue, incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) em 2024. Apesar de estar disponível gratuitamente para a população em um esquema de duas doses, o imunizante costuma ter baixa procura no Ceará, situação que pode mudar com a incorporação da primeira vacina em dose única contra a dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan.
No Ceará, a formulação foi aplicada em massa em Maranguape, na população de 15 a 59 anos, em um projeto-piloto conduzido pelo próprio Butantan. Segundo o Ministério da Saúde, a previsão é que a vacinação seja gradualmente ampliada para todo o País, começando pela população de 59 anos e avançando até o público de 15 anos, por meio da parceria de transferência de tecnologia entre o instituto brasileiro e a empresa chinesa WuXi Vaccines.
Apesar dos avanços tecnológicos no Estado e da inovação da imunização, Tanta frisa a importância de as pessoas continuarem a combater a proliferação do mosquito com medidas simples, como evitar deixar água parada e permitir que os agentes de endemia realizem as inspeções de rotina nas residências.