Conheça os cinco tipos de câncer que mais matam no Ceará e saiba como se prevenir

Balanço se refere a mortes causadas por neoplasias entre 2016 e parte de 2025, conforme dados da Secretaria da Saúde.

Escrito por
Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
Legenda: Estima-se que 30% dos casos de câncer podem ser evitados a partir de mudanças de hábitos.
Foto: NIKOLAY DOYCHINOV/AFP.

Os óbitos causados por câncer aumentaram quase 20% no Ceará, entre 2016 e 2024, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). O crescimento foi puxado, principalmente, por cinco tipos de tumores, sendo o de brônquios e pulmões o mais letal entre eles.

Os indicadores estão no último boletim sobre mortalidade por neoplasias malignas, divulgado pela autoridade neste mês, e consideram dados registrados entre 2016 até parte de 2025. Além de revelar que idosos, pessoas de cor parda e com baixa escolaridade são as maiores vítimas no Ceará, o documento detalha as cinco variações que mais provocaram mortes de cearenses no período

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Os cânceres mais letais do Ceará:

  1. câncer de brônquios e pulmões;
  2. câncer de estômago;
  3. câncer de mama;
  4. câncer de próstata;
  5. câncer de pâncreas.

Para o oncologista Leonardo Pontes, do Centro Regional Integrado de Oncologia (Crio), o ranking reflete a gravidade dessas variações, que, em geral, são mais agressivas que tumores primários localizados em outras regiões do corpo e, consequentemente, causam mais falecimentos. 

O padrão observado pela Sesa no Estado é diferente do registrado no restante do Brasil, onde os cânceres de próstata e de mama acumulam as maiores incidências de mortalidade — respectivamente, em homens e em mulheres —, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Apesar do indicador, as neoplasias de traqueia, brônquios e pulmões são as segundas mais letais em ambos os sexos nacionalmente.

Por que câncer de brônquio e pulmão é o mais letal?

A condição é caracterizada pelo surgimento de neoplasia maligna nos brônquios e pulmões — estruturas integrantes do sistema respiratório — e, entre outros sintomas, pode causar tosse persistente, escarro com sangue, dor no peito, falta de ar e rouquidão. Segundo o Inca, em 85% dos casos, é provocada pela exposição direta ou indireta a derivados do tabaco, como cigarros e vapes.

Apesar de o número de fumantes ter reduzido nacionalmente nas últimas décadas, conforme dados do Ministério da Saúde, Leonardo Pontes acredita que as mortes recentes são consequência de costumes tabagistas que precedem o período:

“O que a gente vê hoje de incidência de câncer de brônquios e pulmão são hábitos de cigarro de 20 anos atrás. Mesmo com a diminuição de fumantes no Ceará, o número de vítimas continua alto provavelmente porque havia uma população que fumava muito e que ainda está sob risco de desenvolver a doença”, explica.

Além do cigarro, o médico alerta que existem outros agentes tóxicos que elevam o risco para a doença, inclusive entre não fumantes, como a poluição atmosférica, que está em crescimento no Estado. Ele também chama atenção para um risco invisível que agrava a desigualdade na saúde: a exposição crônica à fumaça de fogão a lenha, persistente nos lares mais vulneráveis do Estado.

Por gerar fumaça, também é um fator de risco para desenvolver câncer de pulmão.”
Leonardo Pontes
Oncologista

Embora lidere o ranking de neoplasias mais letais, o oncologista acredita que a incidência e a mortalidade por tumor de brônquios e pulmão devem reduzir nos próximos anos. Considerada uma “morte evitável”, conforme o Inca, a condição pode ser prevenida com hábitos simples, como não fumar, evitar tabagismo passivo e usar equipamentos de segurança em trabalhos que envolvam agentes tóxicos capazes de causar câncer. 

Fatores culturais podem elevar risco para câncer de estômago

Tumores malignos localizados no estômago são o segundo tipo que mais fez vítimas no Ceará nos últimos anos. O indicador é outro que difere do cenário nacional, em que as neoplasias de cólon e reto são mais letais.

Silencioso, o câncer gástrico não costuma apresentar sinais ou, quando eles aparecem, são muito semelhantes aos de problemas comuns como gastrite ou úlcera.

No boletim da Sesa, a infecção pela bactéria Helicobacter pylori (H. pylori) é apontada como um fator de risco determinante no Ceará, assim como em outros locais do Brasil. A contaminação pode ocorrer, por exemplo, pelo consumo de água ou alimentos higienizados indevidamente, mas o oncologista Leonardo Pontes alerta que, no Estado, o problema ganha contornos culturais e sociais específicos.

A H. pylori é um fator importante, mas está associada às condições hidrossanitárias. No Interior, ainda é comum o comércio de carnes expostas ao ar livre e conservadas apenas no sal. Esse tipo de hábito pode gerar nitrosaminas [composto químico potencialmente tóxico] e, eventualmente, ser um fator de risco para o câncer de estômago.” 
Leonardo Pontes
Oncologista

“Não é só a questão da bactéria, também tem saneamento básico; condições de fiscalização de como essa carne está sendo exposta nos mercados e consumida pela população. Além disso, não existe uma política brasileira de rastreamento de câncer de estômago que foque na identificação da H. pylori, como acontece em outros países onde há alta incidência da doença”, acrescenta o especialista. 

Para reduzir o risco de desenvolvimento do diagnóstico, o Inca aponta hábitos como controle de peso, não fumar, evitar o consumo de bebidas alcoólicas e a ingestão frequente de alimentos conservados e ultraprocessados. 

Recorte de gênero e a agressividade dos tumores silenciosos

Em terceiro e quarto lugar, observa-se o predomínio das neoplasias da mama e da próstata, respectivamente. Enquanto o primeiro é predominante entre o sexo feminino, o segundo prevalece entre os homens; porém, comportam-se de forma diferente em cada gênero. 

Segundo Leonardo Ponte, tumores na mama, geralmente, são mais agressivos e atingem vítimas mais jovens, sendo a principal causa de morte prematura por neoplasia (30 a 69 anos) entre mulheres no Ceará. Já o de próstata costuma se manifestar em indivíduos mais velhos e, em média, de forma mais branda do que o caso feminino. 

“Cânceres que acometem mulheres, como de mama e de colo do útero, são, via de regra, mais agressivos do que, por exemplo, o câncer de próstata, que atinge mais homens. Esses tumores femininos são bem mais agressivos. Então, se a mulher não for rápida no seu diagnóstico e chegar tardiamente ao serviço de oncologia, vai acabar morrendo mais rápido do que homens”, alerta o profissional.

Já o câncer de pâncreas, último do ranking, costuma ser do tipo adenocarcinoma — que se origina no tecido glandular —, que corresponde a 90% dos casos. Silenciosa e agressiva, a neoplasia é mais letal por ser de difícil detecção, aumentando as chances de diagnóstico tardio, informa o Inca. 

O envelhecimento também eleva o risco para desenvolvimento da doença, que é rara antes dos 30 anos, tornando-se mais frequente a partir dos 60. Condições associadas ao comportamento e genéticas ou hereditárias aumentam a possibilidade de desenvolver essa doença, como: 

  • obesidade;
  • diabetes tipo 2;
  • tabagismo;
  • consumo excessivo de álcool;
  • baixo consumo de fibras, frutas, vegetais e carnes magras;
  • síndrome de Lynch;
  • câncer pancreático familiar — que atinge pais, irmãos ou filhos;
  • pancreatite hereditária.

Outro fator que contribui para o agravamento da doença é a falta de terapias disponíveis, como ressalta o oncologista do Crio. 

Pouco se avançou em tratamento nos últimos anos. Não só o SUS, mas o mundo inteiro, não há um tratamento muito eficaz contra o câncer de pâncreas, ou não se avançou muito em eficácia no tratamento. Ele continua sendo ainda muito grave”, detalha.
Leonardo Pontes
Oncologista

30% dos casos de câncer podem ser prevenidos com hábitos simples

Diante do cenário de aumento de mortalidade, cresce também a necessidade de prevenção da doença. Ainda conforme o Inca e organismos internacionais, estima-se que pelo menos 30% dos casos poderiam ser evitados mediante a adoção de estratégias efetivas de prevenção e promoção da saúde. 

À coluna, Leonardo Pontes ressalta a importância de acompanhar a saúde por meio da atenção básica e, abaixo, lista algumas medidas que podem reduzir o risco para desenvolvimento de neoplasias malignas:

  • Tenha um estilo de vida saudável: coma de forma equilibrada, mantenha o peso sob controle e exercite-se diariamente.
  • Não fume: mantenha-se longe do tabagismo, seja do cigarro comum ou dos eletrônicos (vapes).
  • Beba menos álcool: reduza ao máximo o consumo de bebidas alcoólicas.
  • Vacine-se contra HPV: imunizante previne casos de câncer de colo do útero.
  • Mantenha os exames em dia: faça rastreio preventivo para identificar neoplasia precocemente.
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