Quem são as principais vítimas de câncer no Ceará? Boletim da Sesa revela perfil
Documento da Secretaria da Saúde indica grupos mais vulneráveis à doença, uma das principais causas de óbitos no mundo.
Cearenses idosos, de cor parda e com baixa escolaridade foram os que mais morreram de câncer no Estado nos últimos anos. O perfil epidemiológico foi divulgado pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) no mais recente boletim da doença, que revela ainda um crescimento no número de óbitos, especialmente entre mulheres jovens.
Os indicadores sobre mortalidade foram lançados no último dia 1º, uma semana antes do Dia Mundial de Combate ao Câncer, celebrado na última quarta-feira (8), e consideram dados registrados entre 2016 e parte de 2025. Além de detalhar a incidência de falecimentos por idade, raça, sexo e nível de instrução, o documento apresenta os tipos de câncer mais letais.
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O oncologista da Sesa, Jader Sabino, pontua que a estatística é o reflexo direto das condições de vida da população. “Trata-se de um perfil de vulnerabilidade social e de acesso à saúde; não é apenas biológico”, sintetiza ao Diário do Nordeste, enfatizando que as autoridades estão reestruturando e interiorizando o acesso à saúde no Estado.
Para o também oncologista Leonardo Pontes, do Centro Regional Integrado de Oncologia (Crio), o estudo é um importante aliado de profissionais da saúde ao auxiliar na compreensão dos desafios atuais de combate e prevenção desse grupo de doenças, além de ajudar na busca por formas de acelerar diagnósticos e tratamentos.
Idosos e pessoas com baixa escolaridade morrem mais
A análise detalha que o câncer atinge principalmente idosos, sendo o envelhecimento um fator de risco para desenvolvimento de tumores. O elemento é refletido entre os óbitos no Estado, que se concentram em pacientes com idade a partir dos 60 anos, sendo mais letal entre os de 70 a 79 anos.
Segundo o profissional da Sesa, a maior incidência da taxa de mortalidade entre os mais velhos pode ser atribuída aos desafios e limitações enfrentados por um organismo mais vulnerável, além da presença de outras condições crônicas.
"Em geral, é mais complexo tratar a doença em idosos, pois eles têm mais comorbidade, ou seja, têm mais doenças associadas, então podem tolerar menos tratamentos agressivos em comparação a pacientes jovens, e muitas vezes recebem um diagnóstico mais tardio. E, por vezes, têm o corpo mais frágil.”
Diante dessas características, o especialista reforça a importância do diagnóstico precoce e de um acompanhamento contínuo, desde a atenção básica, para aumentar as chances desses idosos descobrirem a doença cedo e evitar complicações relacionadas ao tratamento.
Além do fator etário, o boletim expõe uma face social da doença: a maioria das vítimas no Ceará no período analisado possuía apenas o Ensino Fundamental I (32%) ou nenhuma escolaridade (25,3%). Para Leonardo Pontes, esses índices revelam que a falta de acesso à informação atua como uma barreira para o diagnóstico precoce.
Esse dado deixa bem explícito que o problema não é biológico, é social. A gente precisa aumentar o letramento da população sobre câncer. Dar a ela o conhecimento sobre o assunto, sobre como prevenir, como buscar os meios para se tratar, para que ela consiga chegar mais rápido ao serviço de saúde.”
Pacientes de cor parda e mulheres são as principais vítimas
Somada à questão educacional, a cor e o gênero também desenham o mapa da letalidade da doença em território cearense. Os dados da Sesa revelam que a proporção racial da população é espelhada — e levemente ampliada — no número de falecimentos: enquanto os pardos compõem 64,7% da população, conforme o Censo Demográfico 2022, eles respondem por quase 67% das perdas por câncer entre 2016 e 2025.
O levantamento indica que quase não há diferença entre mulheres (49,9%) e homens (49,8%) entre as vítimas de neoplasias malignas no Ceará. Porém, entre as vítimas precoces — dos 30 aos 69 anos — as mulheres são as que mais morrem. O índice é principalmente impulsionado pelos casos de câncer de mama, que foi a principal causa de óbito entre as cearenses na faixa etária.
A rápida progressão desse tipo de neoplasia poderia justificar a predominância feminina, de acordo com o oncologista do Crio. Geralmente, a doença atinge pacientes a partir dos 40 a 50 anos, período em que elas costumam estar em plena atividade, conciliando trabalho e cuidados familiares, o que pode atrasar ainda mais a procura por atendimento.
“Cânceres que acometem mulheres, como de mama e de colo do útero, são, via de regra, mais agressivos do que, por exemplo, o câncer de próstata, que atinge mais homens. Esses tumores femininos são bem mais agressivos. Então, se a mulher não for rápida no seu diagnóstico e chegar tardiamente ao serviço de oncologia, vai acabar morrendo mais rápido do que homens”, alerta o profissional.
Número de óbitos no Ceará cresceu quase 20% em oito anos
O cenário estadual observado pela análise identificou um aumento de 19,8% das mortes causadas por neoplasias malignas no intervalo de oito anos, saltando de 8.510 em 2016 para 10.624 em 2024. Leonardo Pontes atribui o crescimento a dois principais motivos: déficit assistencial e aumento de casos.
Vejo alguns fatores preocupantes, pois significa que a gente não está dando a assistência adequada para nossos pacientes. Muitos chegam às unidades de saúde em um estado avançado da doença. Aliado a isso, há ainda o aumento dos casos letais. A gente precisa melhorar a nossa rede de assistência para diminuir essa mortalidade ou, pelo menos, fazer com que esses casos cheguem mais cedo ao serviço de saúde.”
Essa deficiência na rede de cuidado coloca o Ceará, e o Brasil, na contramão global, já que, segundo o médico, a tendência de alta difere da observada em países mais desenvolvidos, nos quais a mortalidade tem se mantido estável ou apresentado queda em tipos específicos de câncer.
Para detalhar as razões desse cenário, o boletim aponta que a elevação da taxa de mortalidade é impulsionada pelo envelhecimento da população e pela maior exposição a fatores de risco, como tabagismo, álcool, obesidade e sedentarismo, como destaca Jader Sabino.
Tipos de câncer mais letais e locais com mais mortes
Além do aumento geral do número de óbitos no Estado, o boletim da Sesa detalha que cinco tipos da doença são os que mais geraram vítimas entre 2016 e parte de 2025. São eles:
- câncer de brônquios e dos pulmões;
- câncer de estômago;
- câncer de mama;
- câncer de próstata;
- câncer de pâncreas.
Tendência é que os casos da doença aumentem
Com mais de 100 tipos diferentes, o câncer é considerado uma das principais causas de adoecimento e mortalidade mundial. E a tendência é que o número de casos aumente nos próximos anos: até 2050, uma a cada cinco pessoas no mundo terá a condição, conforme estima a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A projeção é semelhante à do Instituto Nacional de Câncer (Inca) para o triênio 2026-2028, quando são esperados 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil — excluindo o câncer de pele não melanoma.
No recorte local, a previsão do órgão é de que o Ceará registre 32.830 novos diagnósticos anualmente no período, alinhando-se ao avanço da enfermidade.
Diante desse cenário de aumento, cresce também a necessidade de prevenção da doença. Ainda conforme o Inca e organismos internacionais de saúde, estima-se que pelo menos 30% dos casos poderiam ser evitados mediante a adoção de estratégias efetivas de prevenção e promoção da saúde.
Ao Diário do Nordeste, Leonardo Pontes ressalta a importância de acompanhar a saúde por meio da atenção básica, e, abaixo, lista algumas medidas que podem reduzir o risco para desenvolvimento de neoplasias malignas:
- Tenha um estilo de vida saudável: coma de forma equilibrada, mantenha o peso sob controle e exercite-se diariamente.
- Não fume: mantenha-se longe do tabagismo, seja do cigarro comum ou dos eletrônicos (vapes).
- Beba menos álcool: reduza ao máximo o consumo de bebidas alcoólicas.
- Vacine-se contra HPV: imunizante previne casos de câncer de colo do útero.
- Mantenha os exames em dia: faça rastreio preventivo para identificar neoplasia precocemente.