Como a vacinação de gestantes pode reduzir em até 82% risco de doenças respiratórias graves em bebês
Vulnerabilidade do sistema imunológico das crianças favorece o surgimento de doenças infecciosas.
Do reconhecimento da voz materna até os primeiros sons balbuciados, os seis meses iniciais da vida de um bebê são rápidos e intensos. Nesse intervalo, é crucial que pais e mães cuidem da saúde das crianças uma vez que elas possuem um sistema imunológico frágil e imaturo. A proteção contra doenças, principalmente as infecciosas, é resultado da imunização materna, medida capaz de reduzir em até 82% as formas graves de enfermidades, conforme testes feitos pela Pfizer com 7,3 mil mulheres de 18 países.
Segundo o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm), especialista em doenças infecciosas pediátricas, Renato Kfouri, a vacinação de grávidas e bebês é uma estratégia de prevenção de doenças que reduz as visitas a serviços de emergência, hospitalização, mortes, necessidade de antibióticos, e provoca até mesmo a diminuição da falta de mães e pais ao trabalho.
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As informações foram levantadas pelo pesquisador durante uma apresentação no “Encontro de Jornalismo em Saúde: mais anos, vida melhor - o poder da vacinação”, que aconteceu em São Paulo entre os dias 28 e 29 de abril.
Por meio da placenta, os bebês recebem das mães as proteínas de defesa adquiridas pela vacina — é a chamada imunização passiva. “Só que, ao nascer, os anticorpos que estão muito altos vão se perdendo com o passar dos meses, já que não são deles. Se ele recebeu passivamente da mãe, não tem nenhuma memória ou produção própria”, explica.
Esse é o cenário, por exemplo, do vírus sincicial respiratório (VSR), a principal causa de hospitalizações de bebês por infecções respiratórias em todo o mundo. Altamente contagioso, ele é transmitido de pessoa para pessoa por meio do contato direto ou pelas vias aéreas. Segundo o médico, “100% das crianças se infectam por esse vírus antes dos dois anos”.
“Essa primeira infecção é que costuma ser mais grave porque estamos falando de bebês menores, com imunidade mais reduzida. Eles possuem uma questão mecânica das vias aéreas mais imaturas e isso predispõe para as infecções precoces mais graves”, acrescentou Kfouri.
das hospitalizações por VSR se concentram nos primeiros seis meses de vida.
A vacina que vem sendo aplicada atualmente já traz resultados promissores ao redor do mundo. “Crianças vacinadas tiveram 82% menos chances de terem a doença severa nos primeiros 90 dias de vida. Aos seis meses de idade, essa eficácia de proteção se mantém em torno de 70%”, afirma Kfouri. Quanto à forma não severa da doença, que motiva os atendimentos médicos, a eficácia nos primeiros seis meses é de 51%.
“Mais importante do que o período que o vírus sincicial circula, é proteger o primeiro semestre da vida. Ao vacinar a gestante no tempo correto, ou seja, depois de 28 semanas de idade gestacional e menos de 14 dias antes do parto, nós conseguimos que esse bebê receba os anticorpos da mãe e atravesse os primeiros seis meses de vida, na sazonalidade ou não. Ele vai alcançar uma proteção em torno de 80% na redução de hospitalizações”
No Brasil, as doses da vacina Abrysvo, desenvolvida pela Pfizer, começaram a ser aplicadas no fim do ano de 2025. Kfouri explica que esse imunizante é bivalente, ou seja, possui a proteção contra os tipos A e B do vírus. “Num estudo controlado com placebo aplicado em 18 países, filhos de mães vacinadas tinham menos bronquiolite do que bebês de gestantes não vacinadas”, destaca.
Ainda não é possível levantar dados resolutivos nacionais, mas o cenário latinoamericano é promissor para pesquisadores. Isso porque o impacto vai além dos números na internação imediata: a vacinação evita que o bebê desenvolva asma precocemente ou se torne um “chiador crônico” — quando crianças menores de 2 anos apresentam episódios frequentes de chiados no peito.
Os sintomas podem melhorar após a idade, sendo bem comuns. No entanto, cerca de 30% a 50% desse grupo pode desenvolver asma posteriormente.
Além disso, o médico destaca que é preciso “contar também com a vacinação da criança para que ela possa construir sua defesa e não ficar mais dependente dos anticorpos maternos”. A imunização do bebê constrói uma proteção para o resto da vida. “É fundamental que, a despeito de vacinarmos a gestante, a gente imunize o bebê sem atrasos”, reforça.
“Se a vacina é para ser dada aos 2, 4 e 6 meses, não adianta dar aos 3, 7 e 9 meses porque o bebê vai atravessar o primeiro semestre desprotegido. A imunização não foi feita oportunamente. Tão importante quanto vacinar, é fazer as doses corretas, sem atraso e de forma completa”.
Obstáculos da vacinação no Brasil
No País, existem barreiras geográficas, logísticas e culturais que dificultam o acesso equitativo e a eficácia da cobertura vacinal. Por exemplo, a razão pela qual uma mãe de uma capital atrasa ou não busca os imunizantes é diferente daquela que vive no interior ou em regiões ribeirinhas.
Atualmente, o calendário de vacinação exige dos pais muitas idas ao posto de saúde para complementar as doses. “Se a mãe precisa ir todo mês, ela precisa de facilidades no trabalho, no transporte público e, principalmente, que não haja desabastecimento de vacinas”, afirma.
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Em complemento, a desinformação é outro empecilho que existe no Brasil. Informações falsas sobre os imunizantes circulam rapidamente e geram uma hesitação vacinal na população, incluindo as grávidas. Quanto a isso, Kfouri esclarece que o desenvolvimento de vacinas para gestantes é feito de forma rigorosa e segura, uma vez que não se trata de apenas um, mas de dois indivíduos atendidos por esse mecanismo.
“As vacinas em geral aplicadas em gestantes são vacinas que não contém componente vividos. Hepatite, coqueluche, tétano, gripe, Covid, vírus sincicial são vacinas de conceito inativados. Ou seja, não há nada vivo dentro dessas vacinas que possam despertar algum grau de insegurança”, ressalta.
Comprovação da eficácia e segurança da vacina
Segundo a Anvisa, estudos indicam que a vacinação durante a gravidez ajuda a proteger os bebês nos primeiros meses de vida, período em que são mais vulneráveis a infecções respiratórias.
Os dados vêm de um estudo clínico internacional de fase 3, conhecido como Estudo Matisse, publicado em 2023 na revista científica The New England Journal of Medicine. A pesquisa foi realizada em 18 países, com a participação de 7.358 gestantes entre 24 e 36 semanas de gravidez.
As participantes foram recrutadas na Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Chile, Dinamarca, Finlândia, Gâmbia, Japão, México, Holanda, Nova Zelândia, Filipinas, República da Coreia, África do Sul, Espanha, Taiwan e Estados Unidos.
No Brasil, o estudo contou com quatro centros de pesquisa, localizados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e no interior de São Paulo.
Os resultados apontaram que a vacina teve eficácia de 81,8% na prevenção de casos graves de doença do trato respiratório inferior em bebês com até três meses de idade. Além disso, a proteção se manteve nos meses seguintes, ainda que em menor nível. A eficácia foi de 69,4% para prevenir casos graves até os seis meses de vida dos bebês.
*A repórter viajou para o evento à convite da Pfizer.