Navegante Tremembé, a última da sua aldeia a guardar técnica ancestral do toá
Artista indígena conta como é fazer a primeira exposição individual em São Paulo após 40 anos de produção artística.
No aldeamento indígena Varjota, Navegante Tremembé usa uma colher para tirar do lagamar a matéria que será pigmento para desenvolver sua arte. É daquela lagoa de água salgada, entre o mangue e o Rio Aracati-Mirim, que ela tira a tinta com a qual desenhará árvores, pássaros e tantas outras imagens que contam sobre seu território.
Mas há um processo anterior à pintura em si. Já em casa, Navegante lava, coa e distribui a “tinta” em vasilhas para depois misturá-las com pó de carvão ou barro amarelo e branco para alcançar novas cores, chegando do azul ao verde. “É tudo pigmento natural”, ela diz, orgulhosa.
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Essa areia colorida, colhida do território originário onde a artista indígena vive desde criança, a cerca de 200 quilômetros de Fortaleza, é chamada de toá. Navegante conta que aprendeu a técnica ancestral com a vizinha Maria Rosa Tremembé na infância e nunca mais parou de produzir.
Enquanto colocava em telas e paredes as imagens de sua comunidade, criou cinco filhos e 17 netos em uma aldeia em que o emprego é escasso e a vida se sustenta da agricultura. “A gente que vive aqui nesta área e sabe que é assim mesmo. Vai vivendo”, ela diz, resignada.
E conta sobre sua infância. “Na época, era difícil pra gente porque nossos pais eram muito pobres e criavam a gente do jeito que dava pra criar. Eles não trabalhavam fora, só na roça”, lembra Navegante. Foi na pintura que a indígena encontrou formas de contar sua história e a de seu povo. “Comecei a riscar uns papeizinhos e continuei. Casei e comecei a trabalhar junto com uma mulher que trabalhava pintando a parede dela”, diz.
Elas seguiram trabalhando juntas, compartilhando serviços domésticos e artísticos. Quando Maria Rosa faleceu, Navegante continuou. Hoje, ela própria se vê como guardiã do toá.
“Já tenho idade, mas espero continuar até o final da minha vida”, ela diz. Para tentar que o toá sobreviva ao tempo, Navegante costuma dar aulas e oficinas em escolas da comunidade. E vai adaptando e aprimorando recursos para levar o melhor resultado às suas telas.
Se antes pintava com um palitinho de coqueiro envolto de um pedaço de algodão, hoje ela usa também o pincel para tentar que a tinta não se espalhe tanto e controlar o resultado.
“Eu me considero uma guardiã do toá. Continuo pintando as minhas artes. Antes, eu não tinha o conhecimento que tenho agora”, celebra a artista, que neste ano inaugurou sua primeira exposição individual em São Paulo.
A exposição “Memórias da Terra” ocupa a Galeria Estação e permanece em cartaz até 11 de julho, com curadoria de Lucas Dilacerda. “Para mim, é muito importante. Antes, eu não tinha esse poder de expor fora. Hoje eu tenho quem me apoie e fiz a primeira exposição individual em São Paulo. Faço arte porque é o que eu gosto de fazer”, ela diz.