O que leva pessoas a se exporem a situações de risco extremo?

A psicologia discute o funcionamento interno desses indivíduos, destacando a presença de sentimentos de culpa, muitas vezes inconscientes e enraizados desde a infância.

Escrito por
Adalberto Barreto producaodiario@svm.com.br
Legenda: Em relatos de consultório, é comum ouvir pacientes descreverem uma espécie de fascínio pelo perigo.
Foto: Tinnakorn Jorruang/ Shutterstock

No cotidiano das cidades brasileiras, entre manchetes de acidentes de trânsito e relatos de relacionamentos marcados pela violência, esconde-se um fenômeno silencioso e inquietante: os comportamentos suicidários disfarçados. Jovens que se envolvem repetidamente em batidas fatais de carro ou moto, mulheres que insistem em laços afetivos com homens de passado violento ou criminoso, parecem desafiar a lógica da autopreservação.

O que leva essas pessoas a se exporem, de forma quase ritualística, a situações de risco extremo? Como compreender escolhas que, mesmo sem intenção explícita, flertam com o limite da própria vida? 

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A sociedade, muitas vezes, enxerga tais casos como fatalidades ou fruto de más escolhas. Contudo, a repetição dos padrões sugere algo mais profundo. Jovens que colecionam acidentes automobilísticos e motociclísticos não raro são descritos como audaciosos, imprudentes ou "sem medo da morte".

Já mulheres que buscam relações com homens violentos, por vezes reincidentes em crimes graves, desafiam o senso comum ao se colocarem em perigo constante. Em ambos os casos, as consequências podem ser devastadoras, mas o que está em jogo vai além do acaso ou da simples rebeldia. 

Explicações Psicológicas

A psicologia lança luz sobre o funcionamento interno desses indivíduos, destacando a presença de sentimentos de culpa, muitas vezes inconscientes e enraizados desde a infância. O desejo de punição, ainda que não admitido, pode se manifestar em escolhas autodestrutivas, como se houvesse uma necessidade de pagar por um delito invisível. Não raro, em consultas clínicas, surge a frase: "Eu não cometi nenhum crime, mas sinto que não mereço ser feliz".

Esse autojulgamento rígido, somado à dificuldade de experimentar o perdão de si mesmo, alimenta o ciclo de autossabotagem. Dito isso, é fundamental ressaltar que o objetivo desta análise não é atribuir culpa às vítimas pelos acontecimentos, mas sim buscar compreender os mecanismos que levam à repetição desses comportamentos. Ao lançar luz sobre tais dinâmicas, abre-se espaço para novos caminhos de reflexão e prevenção.  

Relatos e motivações ocultas 

Em relatos de consultório, é comum ouvir pacientes descreverem uma espécie de fascínio pelo perigo. Uma mulher, por exemplo, confessa: “Enquanto pior for o histórico dele, maior é minha admiração e atração. É como se eu buscasse, inconscientemente, alguém que pudesse colocar um fim à minha infelicidade”.

Tais escolhas paradoxais revelam uma divisão interna: de um lado, o desejo legítimo de ser feliz; de outro, um impulso irresistível em direção ao sofrimento. A psicanálise sugere que, nesses casos, o sujeito pode estar repetindo padrões familiares, tentando dar sentido a uma dor antiga ou compensar uma falta sentida desde muito cedo. 

O que esses comportamentos têm em comum?

A perspectiva sistêmica amplia o olhar sobre o fenômeno ao considerar não apenas o indivíduo, mas também o contexto familiar e social em que está inserido. Muitas vezes, esses comportamentos de autoperigo são reforçados por histórias de vida marcadas por perdas, traumas ou segredos de família.

A repetição de acidentes fatais, por exemplo, pode ser observada em diferentes gerações, como se houvesse uma lealdade a um destino trágico herdado. Da mesma forma, mulheres que se relacionam com homens violentos podem estar inconscientemente reproduzindo padrões de submissão ou sofrimento vivenciados por suas mães ou avós. 

O conceito de herança imaterial sugere que, além dos bens materiais, também herdamos sentimentos, culpas e destinos não resolvidos de nossos antepassados. A psicanálise e as abordagens sistêmicas familiares, como as constelações, apontam para a existência de lealdades invisíveis que determinam, em parte, nossas escolhas e comportamentos.

Assim, uma pessoa pode carregar, sem saber, o peso de uma culpa ancestral, buscando punição ou redenção por meio de atitudes autodestrutivas. Essa transmissão transgeracional de conflitos não elaborados desafia a ideia de que somos inteiramente senhores de nosso próprio destino. 

Compreendendo o fenômeno 

Para a psicanálise, o comportamento suicidário disfarçado é expressão de um conflito interno não resolvido, onde pulsões de vida e de morte se alternam em uma dança silenciosa. Sigmund Freud, ao abordar o conceito de pulsão de morte, descreveu a tendência humana de retornar a estados anteriores de menor tensão, o que pode se traduzir em comportamentos de risco ou autossabotagem.

O superego, instância psíquica responsável pela autocrítica e pelo sentimento de culpa, pode tornar-se tão severo a ponto de exigir punição constante, impedindo o sujeito de buscar a felicidade ou a realização. Além disso, a psicanálise enfatiza o papel do inconsciente na repetição de padrões, muitas vezes motivados por desejos reprimidos, experiências traumáticas ou identificações inconscientes com figuras parentais.

A busca por situações de perigo pode ser, paradoxalmente, uma tentativa de resolver conflitos internos, obter reconhecimento ou até mesmo chamar a atenção para um sofrimento que não encontra palavras. 

Compreender os comportamentos suicidários disfarçados exige sensibilidade, escuta atenta e abordagem multidisciplinar. É fundamental que profissionais da saúde mental, familiares e a sociedade estejam atentos aos sinais de autossabotagem e procurem oferecer acolhimento, em vez de julgamento.

O resgate da autoestima, o trabalho com sentimentos de culpa e a elaboração de traumas passados são passos essenciais no processo terapêutico. Além disso, investigar a história familiar e reconhecer possíveis lealdades invisíveis pode ajudar a romper ciclos de sofrimento transmitidos de geração em geração.

A prevenção passa, sobretudo, pelo fortalecimento de redes de apoio, pela promoção de diálogos abertos sobre saúde mental e pela valorização da vida em todas as suas dimensões. Ao iluminar as sombras do inconsciente, é possível abrir caminho para escolhas mais livres, seguras e autênticas.

No final, cada história carrega em si a esperança de que, ao compreender as raízes do sofrimento, seja possível transformar a dor em aprendizado e reconstruir trajetórias marcadas, até então, pela repetição do risco e da culpa. É preciso, acima de tudo, compaixão e coragem para enfrentar os labirintos da alma humana. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.