Capivaras invadem terreno e idoso de 100 anos tem colheita afetada, em Maranguape

Família aguarda orientação de órgãos ambientais, que prometeram discutir o caso.

Escrito por
Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
(Atualizado às 16:11)
Uma capivara adulta e peluda, de pelagem marrom-avermelhada, está deitada preguiçosamente em um trecho de grama misturada com terra perto da água. O grande roedor está olhando para a esquerda, com os olhos relaxados, quase fechados, e as patas palmadas estendidas, apoiadas na grama. Ao fundo, um lago ou rio desfocado de cor cinza claro ocupa a maior parte do horizonte, com uma faixa de vegetação verde na margem oposta.
Legenda: Capivaras são animais com alta capacidade de reprodução, e situação pode gerar conflitos com a população (imagem ilustrativa).
Foto: Reprodução/Shutterstock.

A rotina de quem já atravessou um século de vida deveria ser de descanso. Mas, para o agricultor Isaías Barbosa de Abreu, que completou 100 anos no último dia 4 de abril, as noites têm sido interrompidas por uma preocupação inesperada: a visita de capivaras que invadem o roçado e consomem a plantação.

Morador do Sítio Saco Verde, na zona rural de Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza, ele mantém o hábito de cultivar milho e feijão. A atividade já não é mais necessidade, e sim um cuidado diário, inclusive, dos filhos.

“É mais um passatempo, pra ele não ficar parado. A vida toda trabalhou na roça, criou os filhos assim”, contou ao Diário do Nordeste a filha, Irene de Abreu Melo, de 60 anos.

Desde dezembro do ano passado, no entanto, o sossego deu lugar à apreensão. Segundo a família, três a quatro capivaras começaram a aparecer durante a noite e avançar sobre a pequena plantação, que fica ao lado da casa.

Mesmo com a idade avançada, Isaías insiste em levantar no meio da madrugada, com uma lanterna, para tentar espantar os animais. “Ele escuta e vai olhar. A gente fica com medo, porque ele sai sozinho, de noite”, relata Irene.

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Pai de 11 filhos, Isaías vive com uma das filhas e mantém uma rotina simples: missa, terço e um chá antes de dormir. Agora, as interrupções durante a madrugada também fazem parte do cotidiano.

Durante o dia, os animais não são vistos. Mas, ao cair da tarde e principalmente à noite, voltam a aparecer. A família não sabe de onde eles vêm. E, apesar dos prejuízos na plantação, nunca considereram qualquer medida que possa ferir os animais.

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O que os órgãos ambientais falam sobre a presença de capivaras?

Mas o que fazer em caso de aparecimentos de capivaras? A Secretaria da Proteção Animal do Ceará assegura que, por serem animais com alta capacidade de reprodução, elas podem apresentar aumento populacional e, consequentemente, gerar situações de conflito com a população. Nesses casos, a tomada de providências ocorre de forma integrada, envolvendo órgãos responsáveis pela fauna e pelo meio ambiente.

As soluções, a Pasta informa, passam pela elaboração de políticas públicas que considerem medidas como monitoramento, controle populacional e, quando necessário, remanejamento dos animais, sempre respeitando a legislação e o bem-estar dos bichos.

Ainda segundo a Secretaria, o caso registrado na plantação do agricultor Isaías Barbosa será levado para discussão com outras instituições ambientais.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) explica que, do ponto de vista ambiental, a atuação em casos de conflito entre humanos e fauna depende da abrangência da ocorrência. 

A instituição informa que ainda não há elementos que justifiquem intervenções mais drásticas nos casos de capivaras em áreas rurais. Esses conflitos, segundo o Ibama, são considerados recentes e dependem de estudos populacionais para avaliar um possível desequilíbrio.

Por isso, ações como captura ou realocação dos animais são consideradas extremas e só podem ocorrer mediante autorização expressa do Ibama, após análise técnica.

O que fazer ao se deparar com capivaras?

A orientação inicial é que ocorrências como a vivida no sítio de Maranguape sejam formalmente comunicadas aos órgãos ambientais, para que sejam mapeadas e acompanhadas. A partir disso, podem ser realizadas vistorias técnicas para orientar os produtores sobre medidas adequadas.

Entre as recomendações estão estratégias de afugentamento e proteção da lavoura, como o uso de cercas reforçadas e parcialmente enterradas, cercas elétricas rurais de baixa voltagem, além da instalação de dispositivos sonoros e iluminação direcionada.

Também é indicado respeitar os limites de áreas ambientais, já que muitas vezes as plantações avançam sobre habitats naturais da espécie.

O órgão ressalta ainda que está prevista a elaboração de materiais educativos para orientar produtores rurais sobre a convivência com as capivaras, incluindo técnicas de proteção e manejo não letal.


Serviço:

Atendimento do Ibama: 0800 061 8080 (de segunda a sexta, das 7h às 19h)

*Estagiária sob supervisão das jornalistas Dahiana Araújo e Mariana Lazari. 

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