Moradores convivem com medo em comunidade na Aerolândia onde parte de muro desabou

Pelo menos 66 casas foram afetadas na Vila Gomes, que é vizinha a obra do Aeroporto de Fortaleza.

(Atualizado às 18:16)
Mulher idosa olha pela janela de sua casa para um terreno coberto por lonas pretas, em um cenário de contraste entre a moradia e o local de obras.
Legenda: Dona Maria, 65, conta que, em 2025, a residência dos pais foi atingida também em um desabamento parcial do muro. “A casa da minha mãe estava lotadinha de móveis e a água levou tudo. Quando o morro veio, a enxurrada, foi perda total”, relembra.
Foto: Thiago Gadelha.

“Não dormi, passei a noite todinha me tremendo, dando agonia”. É assim que Aldenir Cavalcante, de 83 anos, descreve o último fim de semana, na comunidade Vila Gomes, no bairro Aerolândia, em Fortaleza. O clima pacato e de tranquilidade da região deu lugar ao medo e à lama desde o último 12, quando o muro de um terreno da Base Aérea de Fortaleza caiu parcialmente após as fortes chuvas. 

A casa de Aldenir está localizada em frente ao local onde parte do muro desabou. Ao entrar na residência, é possível observar as marcas na parede onde a lama passou e os estragos que causou. “No dia que aconteceu, eu estava deitada na rede na sala. Para mim, parecia que tinha caído as casas porque foi uma coisa horrível. Fiquei pensando que era trovão, mas quando botei os pés no chão, já senti a lama”, relata a idosa em entrevista ao Diário do Nordeste.

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Ela conta que, além da perda dos móveis e da infraestrutura danificada, a situação agravou o quadro depressivo com que convive há anos. No dia do alagamento, quem ajudou Aldenir foram os vizinhos. “Foram eles que me levaram, fecharam as portas, o medidor e me levaram lá para [o andar de] cima [da casa]”, diz. 

Na rua Vila Gomes, cerca de 45 casas foram afetadas diretamente pela desabamento parcial. Nenhuma das famílias saiu da própria residência. Foram retiradas as pessoas idosas devido aos riscos. “Não há nenhuma casa desocupada pelo ocorrido”, explica Jamile Cavalcante, filha de Aldenir e uma das lideranças da comunidade. 

Além da lama que invadiu as casas e derrubou portões, uma vila de casas da comunidade foi interditada pela Defesa Civil de Fortaleza por conta de alto risco de desabamento. O terreno das casas rachou e afundou, levando as 21 famílias inquilinas do local a serem retiradas. 

O Diário do Nordeste esteve no local há uma semana e conversou com moradores. Um deles, que preferiu não se identificar, informou à reportagem que os buracos na vila começaram a aparecer na segunda-feira (13). Outro contou que, devido à interdição, chegou a pedir um empréstimo para conseguir alugar outra moradia. 

O órgão municipal, em nota enviada nesta quarta-feira (22), afirmou que “segue atuando de forma permanente na comunidade da Vila Gomes”. “Diante da previsão de novas chuvas, o órgão permanece em estado de alerta e intensifica as ações de prevenção e mitigação de riscos, com o objetivo de proteger a população residente”, diz.

Silhueta de uma mulher em primeiro plano observa a parede de sua sala com sinais severos de infiltração, umidade e descascamento. Ao fundo, móveis simples compõem o ambiente doméstico desgastado.
Legenda: Na casa de Aldenir, as paredes mostram o nível que a lama atingiu.
Foto: Thiago Gadelha.

A evacuação de moradores “não está descartada e poderá ser adotada de forma temporária, caso haja agravamento das condições meteorológicas ou aumento do risco na região”. A iniciativa, diz a Defesa Civil, tem como principal objetivo preservar vidas e reduzir a exposição a situações de perigo.

A vizinhança da Vila Gomes ressalta a vontade de permanecer no local onde vive há mais de 50 anos. "Queremos viver em paz e defendemos o reflorestamento da área como solução definitiva, diante do risco real que ainda enfrentamos", diz uma nota da comunidade.

‘Quando começam a trabalhar, a casa treme’

Noites sem dormir, medo de novas chuvas e o receio de ficar dentro da própria casa são relatos comuns à vizinhança. Maria, 65, vive em uma residência de três andares que apresenta fissuras e rachaduras por dentro e por fora. Ao Diário do Nordeste, diz que as aberturas são consequências de obras que acontecem no terreno logo atrás. 

“A casa tá rachando, tá caindo tudo aqui. Ontem estalou e rachou algumas partes”, conta a cuidadora de idosos. As cerâmicas das paredes caíram devido ao abalo estrutural. O local fica colado ao muro do terreno, onde, pela janela, é possível visualizar a região. “Quando eles começam a trabalhar lá, a casa aqui treme. Eu saio logo, não fico aqui dentro não”, afirma.

A vizinhança conta que o muro foi levantado em meados dos anos 2000. No entanto, os problemas iniciaram após as obras de expansão na Base Aérea de Fortaleza, o que teria bloqueado a drenagem natural

Mulher aponta para grandes rachaduras e infiltrações no teto e nas paredes de sua casa. O reboco está caído e há manchas de umidade sobre a pintura amarela e os azulejos marrons.
Legenda: As rachaduras na casa de dona Maria estão no teto e nas paredes, um reflexo das obras que acontecem no terreno logo atrás.
Foto: Thiago Gadelha

Moradora da região há 48 anos, Maria diz que teme pela segurança e integridade física, não apenas pelos bens materiais perdidos. “Eu quero mesmo é resolver a situação da casa. Não ligo muito para negócio de eletrodoméstico não. O pessoal fica cobrando televisão, essas coisas, mas eu acho que não é por aí. Tem que arranjar uma solução para o nosso problema, com essas águas, o perigo com as casas”, ressalta. 

As intervenções na área consistem na construção de um centro logístico na área do Aeroporto de Fortaleza. Quem está à frente das obras é a empresa Aerotrópolis Empreendimentos S.A, construtora que recebeu da Fraport o direito de "explorar" a área em uma espécie de arrendamento.

Para a realização das obras, cerca de 46 hectares da floresta no entorno do Aeroporto foram desmatados. 

Uma das lideranças da comunidade, Natália Oliveira, 34 anos, conta que a região era uma área preservada, repleta de árvores centenárias. “Quando eu era criança, a chuva era nosso momento mais feliz porque aqui era fresco. Depois que começaram essa obra, a gente ficou com muito calor aqui porque é uma barreira que impede o vento. Tiraram árvores centenárias, tinha animais que eles mataram”, disse. 

Mulher jovem branca olha para cima com expressão pensativa. Veste camiseta preta com a palavra Love em cursivo. Ao fundo, uma parede verde desgastada e roupas estendidas em um varal.
Legenda: Natália mora na Vila Gomes desde que nasceu e está mobilizando a comunidade em prol de justiça.
Foto: Thiago Gadelha.

Rildo Sampaio, proprietário de uma transportadora de veículos localizada na região, conta que recebeu representantes da empresa responsável pela obra no terreno. Foi explicado, segundo ele, que o projeto de expansão prevê um canal onde a água iria escoar e cair no rio Cocó.

“Só que a obra começou a todo vapor, eles foram fazendo a contenção de areia, de coisas que não iam precisar do lado de cá, e isso se formou uma espécie de açude. E choveu muito”, diz. Esse acúmulo de água foi crescendo com o volume de chuvas e isso resultou na queda do muro, conforme os moradores. 

Porém, em nota enviada ao Diário do Nordeste, a Aerotrópolis alegou que não há evidências de relação direta das ocorrências com as obras e que o muro já apresentava comprometimento. Também informou que medidas emergenciais de drenagem foram implementadas após autorização dos órgãos competentes, com “foco na redução do acúmulo de água e na diminuição de impactos no entorno”. (Veja nota completa abaixo)

Água barrenta escorre por um buraco na base de um muro de concreto desgastado, formando uma poça reflexiva no chão. Ao lado, um vaso com folhagens verdes.
Legenda: Em pequenas aberturas do muro é possível ver água sendo derramada, mesmo sem a ocorrência de precipitações.
Foto: Thiago Gadelha.

Os moradores questionam se o canal planejado para escoamento da água vai permanecer após o fim da obra. “Qual a garantia de que eles vão sair daí e ficar tudo ok? Todo inverno pode acontecer isso, e não queremos mais essas promessas. A gente quer ação definitiva e quer que os órgãos competentes e o governador deem um posicionamento”, afirma Natália. 

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Ela, a filha de Aldenir, Jamile, e outras pessoas da comunidade têm se reunido com órgãos da Prefeitura de Fortaleza, a Defensoria Pública do Estado e representantes das empresas responsáveis pelas obras. Foi Jamile quem realizou um levantamento no local para saber quantas casas e famílias foram afetadas e o que foi perdido.

Nesta quarta-feira (22), foi realizada uma reunião para tratar da situação. O Diário do Nordeste solicitou à Defensoria Pública informações sobre essa reunião. O órgão informou apenas que está acompanhando a situação e outras reuniões serão realizadas nos próximos dias. Só após esses encontros a Defensoria fará um posicionamento.

Apesar do medo e receio da situação atual, a vizinhança quer permanecer na comunidade e, para isso, reivindica soluções do poder público, como reparação dos danos causados às residências, incluindo móveis, eletrodomésticos e demais prejuízos.

“Nosso desejo não é sair daqui. Queremos continuar porque aqui é uma vila antiga, é um canto que todo mundo se conhece há muito tempo. A gente quer o reflorestamento porque era o que fazia a água fazer o tratamento dela todinho, e ficava e não invadia nossa casa nem nada”
Natália Oliveira
Videomaker

A nota divulgada pela comunidade Vila Gomes destaca a necessidade urgente de apoio psicológico à população, especialmente aos idosos, que estão entre os mais afetados. “Muitos moradores já apresentam abalo emocional após dias sem conseguir dormir com tranquilidade”, diz.

O local está sendo visitado por membros de Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) da região, segundo moradores. No entanto, até a publicação deste texto, nenhum retorno foi dado sobre como estão sendo assistidos.

O que diz a Defesa Civil

Em nota, o órgão diz que há “equipes em campo e monitoramento contínuo da área desde as fortes chuvas registradas entre os dias 12 e 13 de abril”. Entre as medidas adotadas estão o acompanhamento técnico das condições da área, a orientação direta aos moradores e a articulação com outros órgãos e instituições envolvidas na resposta à ocorrência, segundo o texto.

Como parte das ações emergenciais, a pasta destaca que notificou, na última sexta-feira (17), a empresa Aerotropolis, determinando a adoção imediata de medidas para contenção dos riscos identificados. Também estabeleceu a obrigatoriedade de reparação dos danos causados à infraestrutura urbana e às residências atingidas, incluindo o ressarcimento por perdas materiais, além do monitoramento contínuo e da comunicação periódica com a comunidade.

“No domingo (19), o órgão realizou reunião com representantes da empresa e moradores da Vila Gomes para apresentar as ações em andamento. Na ocasião, foi firmado o compromisso de manutenção de um canal permanente de diálogo com a população, garantindo transparência e acompanhamento das medidas adotadas para eliminar riscos e prevenir novos episódios”.

A DCFor reforçou que todas as ações são orientadas por critérios técnicos e seguirão sendo executadas até a implementação de soluções definitivas para a localidade”.

Veja nota da Aerotropólis

A Defesa Civil, nas esferas estadual e municipal, vem acompanhando tecnicamente a evolução das intervenções de drenagem na área do entorno do aeroporto.

Em caráter preventivo, e diante da previsão de chuvas mais intensas, foram apresentadas medidas de orientação à população em áreas específicas, incluindo a possibilidade de acolhimento temporário de famílias em locais seguros, conforme avaliação técnica da Defesa Civil.

A adesão a essas orientações é voluntária e ocorre de forma individual, respeitando a decisão de cada família, sempre com foco na segurança durante o período de maior precipitação.

Trata-se de medida pontual, de natureza estritamente preventiva, adotada com o objetivo exclusivo de resguardar a segurança dos moradores durante o período de maior precipitação, fato clássico de força maior não previsível. 

As orientações foram conduzidas com o acompanhamento das autoridades competentes, responsáveis pela condução das medidas de proteção à população.

Paralelamente, as intervenções seguem sendo conduzidas dentro dos trâmites institucionais aplicáveis, com a emissão das autorizações complementares pelos órgãos competentes, inclusive pela SEMACE, no âmbito dos fluxos regulares de licenciamento, e com acompanhamento contínuo das autoridades estaduais e municipais.

As ações emergenciais de drenagem já apresentam resultados concretos. Em trechos anteriormente críticos, houve redução significativa do nível de água, mesmo sob condições recentes de chuva, o que evidencia a efetividade das medidas iniciais adotadas para o escoamento. 

Elas foram concebidas para enfrentar um passivo histórico da região. Parte dessas intervenções, no entanto, teve seu cronograma impactado por condicionantes e medidas administrativas ao longo do processo, o que postergou sua plena implementação.

Ainda assim, as frentes atualmente em execução já demonstram resultados práticos e seguem avançando dentro dos parâmetros técnicos e institucionais aplicáveis.

Registra-se, ainda, que o entorno da BR-116 e da área do aeroporto apresenta, historicamente, episódios recorrentes de alagamento em períodos de chuva intensa, amplamente documentados ao longo dos anos. Esse contexto reforça o caráter estrutural dos desafios de drenagem enfrentados na região e a relevância das intervenções atualmente em curso.

Veja nota da comunidade Vila Gomes

No dia 20/04, a empresa realizou uma reunião informal com moradores, apresentando documentos para que famílias que residem próximas ao muro assinassem autorização para serem encaminhadas a hotéis, de forma temporária, enquanto o problema é avaliado.

Na manhã de hoje, 21/04, a defensora pública Elizabeth Chagas esteve na comunidade Vila Gomes, acompanhada por representante da Casa Civil, Franklin, e pela Defesa Civil do Estado. Eles subiram até a área da barragem junto com a moradora Jamile Maria, em condições de difícil acesso.

A moradora relatou que a água está escoando, porém reforçou que o medo permanece, já que o solo continua encharcado e instável.

A comunidade, que teve três ruas diretamente atingidas, reafirma que não deseja deixar suas casas. Queremos viver em paz e defendemos o reflorestamento da área como solução definitiva, diante do risco real que ainda enfrentamos.

Informamos que haverá reunião na Casa Civil nesta quarta-feira, com a presença da defensora pública Elizabeth Chagas e da empresa Fraport Brasil. Na quinta-feira, representantes da comunidade também participarão de um encontro com a Defensoria Pública e a empresa.

Ressaltamos que nossa prioridade é a solução do problema, mas também exigimos a reparação dos danos causados às residências, incluindo móveis, eletrodomésticos e demais prejuízos.

Destacamos ainda a necessidade urgente de apoio psicológico à população, especialmente aos idosos, que estão entre os mais afetados. Muitos moradores já apresentam abalo emocional após dias sem conseguir dormir com tranquilidade.

Seguimos firmes, em busca de segurança, respeito e respostas concretas.

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