Filhos fazem ensaio fotográfico com mãe em câncer terminal durante última viagem em família

Sessão de fotos realizada em Maceió registrou os últimos momentos de Sônia Calegario, de 51 anos. Meses depois, o relato da fotógrafa sobre o contexto das imagens emocionou milhares de pessoas nas redes sociais.

Escrito por
Gabriel Bezerra* e Maria Clarice Nascimento producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 12:10)
Foto da família Calegario
Legenda: A viagem aconteceu após a família perceber que o quadro de saúde havia se agravado rapidamente, com metástases já instaladas em diferentes partes do corpo.
Foto: Priscila Letícia.

Uma viagem planejada como despedida e um ensaio fotográfico que se transformou em memória eterna. Foi assim que os filhos de Sônia Calegario registraram os últimos momentos da mãe antes de falecer. Moradores de Rondônia, eles viajaram mais de 4 mil km até Alagoas para eternizar a memória da mãe no lugar favorito dela: a praia. 

Sônia enfrentava um câncer em estágio terminal e, a todo momento, tomava ciência do que estava acontecendo. Aos poucos, ia se cansando pela dor, náuseas e vômitos, mas em momento algum pensava em desistir, agarrando-se à fé e ao amor pela família. 

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A matriarca já conhecia Maceió, onde as fotos foram tiradas, e era apaixonada pelo lugar. As filhas contam que a mãe amava o mar, a calmaria que ele transmitia e a beleza do município. Eles não tinham condições financeiras para uma viagem tão em cima da hora, mas "Deus abriu as portas de uma forma extraordinária", como conta Débora Calegario, a segunda filha. 

Entre sorrisos, beijos e abraços, o sentimento que prevalecia era o de bravura. Sônia esteve sob o uso de morfina durante todo o percurso da viagem e das fotos.  

“Ela se esforçou ao máximo, ao máximo mesmo, para poder estar ali de pé e fazer as fotos”, disse Marcela. 
Marcela Calegario
Filha mais velha

Foto família Calegerio.
Legenda: Durante o ensaio, Sônia já utilizava medicações fortes, como morfina e tramal, que não eram mais suficientes para controlar completamente a dor.
Foto: Priscila Letícia.

O ensaio fotográfico aconteceu em outubro do ano passado. Meses depois, o registro ganhou repercussão nas redes sociais após Priscila Letícia, a fotógrafa responsável, compartilhar o contexto por trás das imagens. “Tem fotos que carregam mais do que sorrisos”, escreveu a profissional ao publicar o ensaio. 

Pouco tempo depois da ida a Maceió, Sônia teve uma piora e precisou ser internada. As dores ficaram mais fortes e dificultavam até a mobilidade. Antes extremamente ativa, ela tornou-se cada vez mais frágil e sensível. Durante todo o processo, Sônia só consentiu com a internação quando já não era mais possível suportar a dor. Essa foi a última vez que ela foi hospitalizada em decorrência do câncer. 

Sônia morreu aos 51 anos, no final de 2025. Moradora de Ji-Paraná, em Rondônia, deixou marido, quatro filhos e dois netos. Durante o ensaio, o objetivo era aproveitar o tempo que restava juntos e guardar lembranças daquele momento.

"Foi um dia de abraços demorados. Cada um que a abraçava parecia tentar guardar o tempo nas mãos”, relatou a fotógrafa.

O diagnóstico após anos de sintomas 

Sônia convivia há anos com a bactéria H. pylori, que causa inflamações no estômago. Mesmo tendo realizado inúmeras consultas e exames, ela nunca conseguiu alcançar a cura. Em 2023, submeteu-se a uma endoscopia, mas uma "pulga atrás da orelha" ainda persistia. 

Apesar das biópsias nunca mostrarem um resultado preocupante, ela insistiu em realizar um novo exame durante uma viagem a Curitiba, em 2024, com uma pausa de menos de três meses do anterior. Um pressentimento claro indicava que algo estava errado. Segundo a filha Débora, o médico chegou a questionar a necessidade do procedimento, mas Sônia já pressentia a urgência. 

Quando o resultado saiu, veio a confirmação de um adenocarcinoma, um tipo de câncer no estômago. Débora, a filha do meio, carregava consigo desde muito nova um sentimento, quase como uma certeza ou uma premonição, e frequentemente expressava esse medo para a mãe:  

“Mãe, eu tenho medo de você morrer de câncer”, contou ela relembrando as conversas da infância.  
Débora Calegario
Filha do meio

Ao conferir o resultado da biópsia, o receio se confirmou: aquilo que era o maior pesadelo de uma garotinha agora exigia dela, da mãe e de toda a família uma batalha longa, que traria consigo uma perda imensurável.

Embora houvesse a suspeita de longa data, a confirmação foi devastadora, fazendo com que Débora entrasse em pânico. “Eu não queria acreditar naquilo. Eu gritava muito”, lembra. 

Sônia, sempre muito branda, teve uma reação diferente da filha. Em vez de desespero, respondeu com serenidade:  

“Quem somos nós para reclamar, para agir contra a vontade d'Ele [Deus]?”. 
Sônia Calegario
Mãe

Após cirurgia e quimioterapia, a doença chegou a parecer controlada. Porém, algum tempo depois, voltou de forma agressiva, com metástases nos ossos e nos pulmões. Durante esse processo doloroso, Débora conta que a mãe permanecia voraz e com a fé nas alturas, um ensinamento que a filha carrega consigo até hoje. 

A pressa do inevitável 

Com a evolução da doença, as dores se tornaram intensas. As metástases atingiram o crânio, a cervical, a coluna, o pé e o joelho. Marcela, a filha mais velha, precisou adiantar o chá de fraldas da garotinha que carregava no ventre e que já aparecia nas fotos do ensaio. 

A mais velha de quatro irmãos, ela e a mãe tinham uma relação de amizade profunda. Marcela foi a responsável por dar o primeiro neto a Sônia, que pôde acompanhar de perto o nascimento do pequeno. No entanto, quando as fotos em Maceió foram feitas, a primogênita estava grávida de seu segundo bebê, uma neta que a avó não conseguiu ver nascer. Para que Sônia pudesse participar o máximo possível e para correr contra o tempo, o chá de fraldas precisou ser adiantado. 

Foto de Sônia Calegario com o neto.
Legenda: O vínculo com o neto deu novo sentido ao tempo que ainda restava, transformando a dor em presença e os dias difíceis em pequenas urgências de afeto.
Foto: Priscila Letícia.

Acontecendo no dia 15 de fevereiro, o chá foi o último grande encontro da família. Já no dia seguinte, Sônia precisou ser internada. Eles estavam correndo contra o tempo, as fotos do ensaio em Maceió ainda não tinham sido entregues. O desejo principal era que o registro fosse finalizado para que ela pudesse vê-lo ainda em vida. E assim foi: a mobilização tanto da família quanto da fotógrafa deu certo e tornou o desejo da matriarca possível. 

As despedidas que levam uma parte do peito junto 

No hospital, todos os filhos estavam presentes: Marcela, Débora, Thiago e Samyra. Débora era a filha que ficava com a mãe no hospital, enquanto Marcela e Samyra cuidavam da casa. 

Para Samyra Calixto, a filha mais nova, com apenas 19 anos, o baque foi ainda maior. Ela perdeu o pai aos 9 anos e a mãe biológica aos 16. Sônia deu suporte, carinho e cuidou dela durante esse processo de luto, tornando-se sua "mãe de coração". Devastada pelas perdas, Samyra sentiu-se desamparada, questionando o motivo de tantas partidas em tão pouco tempo. 

“Eu perguntava a Deus o porquê, pois fazia apenas três anos que eu tinha perdido a minha mãe e Ele já ia tirar a outra que me sobrou”, relata. 
Samyra Calixto
Filha mais nova

Mas Sônia possou com êxito a fé para cada filho. Samyra conta que a mãe dizia para ela sempre confiar no Senhor, pois assim nunca estaria desamparada, ensinando que Deus sempre sabe o que é o melhor. 

Foto da faília Calegario.
Legenda: A escolha de Maceió não foi aleatória, já que o destino tinha um significado afetivo para Sônia, ligado ao mar e à tranquilidade do lugar.
Foto: Priscila Letícia.

Thiago Calegario carrega consigo o mesmo ensinamento: Ele conta que deu o seu máximo para apoiar a mãe em um momento tão delicado. “Para ela não tinha dia ruim, tinha dia difícil”, contou ele, contente com a trajetória que a mãe traçou. 

Assim se foi Sônia Calegario, deixando um legado de amor, fé e carinho. Suas últimas palavras de conforto ainda ecoam entre os filhos: “Filha, tá na mão de Deus. Fica em paz. Se Deus quis que a mãe passasse por isso, a gente vai passar”.

Estagiário sob supervisão da jornalista Aline Conde*