Ceará

Importada do Rio de Janeiro, como a dengue se espalhou pelo Ceará?

João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
18/08/2026 - 06:00

Antes de a dengue se tornar uma doença conhecida pelos cearenses, houve um período de dúvidas, diagnósticos que mudavam e autoridades tentando entender o que estava acontecendo. Quando o vírus encontrou um território infestado pelo Aedes aegypti, em 1986, a resposta precisou ser construída praticamente ao mesmo tempo em que a primeira epidemia avançava.

Documentos históricos do Ministério da Saúde aos quais a reportagem teve acesso mostram que, naquele momento, Fortaleza apresentava índices de infestação predial superiores a 30%, e que 20 municípios cearenses estavam na lista de localidades infestadas pelo mosquito.

  

Nos meses seguintes a agosto de 1986, casas passaram a ser vistoriadas, ruas receberam borrifação de inseticida, famílias inteiras adoeceram e palavras como “virose” e “dengue” entraram no vocabulário da população. 

Quarenta anos depois, reconstruir os primeiros meses da dengue no Ceará é também voltar a um momento em que o sistema de saúde ainda não tinha respostas prontas para a doença.

Esta é a segunda reportagem do especial “Dengue - 40 anos”, do Diário do Nordeste, que relembra os primeiros casos da virose, que já infectou quase 900 mil pessoas, investiga por que o mosquito ainda é uma ameaça à saúde pública e como se proteger e prevenir a doença.

Dengue 40 anos

Vírus chegou pelo turismo  

A pesquisa “Série histórica da dengue e do Aedes aegypti no Ceará”, de Estelita Pereira Lima e colaboradores, aponta a introdução do DENV-1 — primeiro dos quatro sorotipos do vírus da dengue — naquele ano.  

Os primeiros casos ocorreram em Aracati e, posteriormente, em Fortaleza, associados a pessoas provenientes de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, onde havia uma epidemia no período.

As praias de Fortaleza e de outros municípios do litoral estavam entre os principais roteiros turísticos do País, o que facilitava a circulação de pessoas.  

Para o médico sanitarista José Policarpo de Araújo Barbosa, mestre em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e que atuou em 1986, a circulação de pessoas é um elemento importante para compreender a disseminação porque a doença, naquele momento, ainda era uma incógnita.

“Era uma coisa tão inusitada. Ninguém conhecia”, lembra o profissional. 

Antes da dengue, veio o mosquito  

Contudo, a história da doença no Ceará começou antes porque o vírus precisava do vetor. O Aedes aegypti já havia estado no Ceará décadas antes, associado à transmissão da febre amarela.

Depois da erradicação do mosquito, os serviços de controle passaram a manter armadilhas em pontos considerados estratégicos para verificar se ele voltaria a aparecer.  

Foi justamente uma dessas armadilhas que deu o primeiro sinal da reintrodução. Em agosto de 1984, Aquiraz foi a primeira localidade cearense a registrar novamente a presença do Aedes aegypti.

O mosquito foi encontrado em uma armadilha instalada em um posto fiscal às margens da BR-116. Assim que o foco foi confirmado, a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam) foi acionada.  

Ainda em agosto de 1984, Fortaleza também registrou a reinfestação do mosquito. Larvas foram encontradas em dois imóveis próximos ao Mercado São Sebastião. Depois, outros pontos passaram a apresentar larvas, como o Terminal Rodoviário Eng. João Thomé, o Cais do Porto e o Aeroporto.  

A combinação entre mobilidade e presença do vetor em mercados, rodoviárias, portos, aeroportos e rodovias criava condições favoráveis para a disseminação da dengue.  

Quarenta anos depois, José Policarpo Barbosa identifica justamente a capacidade de adaptação do vetor como um dos fatores que ajudaram a transformar a dengue em um problema permanente. “A resiliência do Aedes aegypti é muito grande, ele se adaptou muito bem à proximidade dos humanos. Adaptou-se muito bem às caixas-d’água com água limpa. Adaptou-se muito bem à casa”. 

Dengue 40 anos

Ministério da Saúde já via situação de emergência  

Um registro do Ministério da Saúde, datado de 16 de julho de 1986 e obtido pelo Diário do Nordeste no Sistema de Informações (Sian) do Arquivo Nacional, revela a preocupação do governo federal com o avanço do Aedes aegypti e com a dengue no País.  

A Pasta classificou como "grave" a situação observada no Ceará e em Alagoas. O documento afirmava que os índices de infestação predial nas capitais Fortaleza e Maceió estavam acima de 30%.  

Além de Fortaleza, na lista apareciam:

Ou seja, o mosquito já estava presente simultaneamente em municípios do litoral, da Região Metropolitana, do Vale do Jaguaribe e do Cariri.  

Primeiro diagnóstico foi descartado 

Capa do Diário do Nordeste de 14 de maio de 1986 com notícia sobre o primeiro caso de dengue confirmado em Fortaleza. Dias depois o caso foi alterado para 'forte suspeita'.
Legenda: Capa do Diário do Nordeste de 14 de maio de 1986 com notícia sobre o primeiro caso de dengue confirmado em Fortaleza. Dias depois o caso foi alterado para 'forte suspeita'.
Foto: Cedoc/SVM

O período de incerteza refletiu no caso de Ilza Santos do Nascimento. Em maio de 1986, a mulher de 29 anos, moradora das proximidades do Rio Ceará, passou a ser tratada como a primeira infectada pela dengue no Ceará. Ela havia morado durante sete anos no Rio de Janeiro e retornado ao Ceará com o marido.  

Os sintomas eram compatíveis com dengue. Uma amostra foi encaminhada para o Instituto Evandro Chagas, em Belém, referência para exames desse tipo naquele momento. A investigação laboratorial foi realizada fora do Ceará porque ainda não havia estrutura para fazer a sorologia local.

A princípio, o resultado foi interpretado como confirmação. Dias depois, porém, o caso foi rebaixado a "suspeito". Por fim, houve o descarte da situação pelas autoridades de saúde. 

Matéria de ação da Sucam no bairro Pirambu, em Fortaleza, veiculada em 26 de setembro de 1986.
Legenda: Matéria de ação da Sucam no bairro Pirambu, em Fortaleza, veiculada em 26 de setembro de 1986.
Foto: Cdoc/SVM.

Em reportagem do Diário do Nordeste, publicada em maio de 1986, a Sucam apontava três dificuldades para o controle do mosquito na cidade: acúmulo de lixo, pouca conscientização da população e falta de recursos humanos.   

A lembrança de José Policarpo Barbosa ajuda a explicar por que o diagnóstico era tão dependente da experiência dos médicos. “O diagnóstico era clínico. Na verdade, o exame laboratorial para dengue tem função apenas epidemiológica”. 

O sanitarista pontua que não era possível esperar o resultado de laboratório para começar a tratar uma pessoa ou adotar medidas de controle. “Se você for esperar para tomar as providências depois que o exame der positivo, a pessoa já morreu”, indica. 

Dengue 40 anos

Hospital São José teve papel central  

O Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ), localizado em Fortaleza (CE) é uma unidade pública de referência estadual e nacional especializada no diagnóstico, tratamento, ensino e pesquisa de doenças infecciosas e transmissíveis.
Legenda: O Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ), localizado em Fortaleza (CE) é uma unidade pública de referência estadual e nacional especializada no diagnóstico, tratamento, ensino e pesquisa de doenças infecciosas e transmissíveis.
Foto: Kid Jr/SVM.

Outro ponto destacado por Barbosa é o papel do Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ), da rede estadual de saúde, na resposta à epidemia. A instituição tornou-se referência para o atendimento e para a formação de profissionais.   

“Ele estabeleceu protocolos para todos os hospitais do Estado, treinou os médicos e formou gerações de médicos infectologistas”, conta. 

Depois que os exames começaram a confirmar a presença do vírus, a dengue ganhou escala e passou a ser percebida dentro das casas.   

Em Cumbuco, em Caucaia, o médico Murilo Amaral, da Comissão Interinstitucional Municipal de Saúde, visitou 100 casas da Vila dos Pescadores e encontrou pacientes em 80 delas. A estimativa era de aproximadamente mil casos, segundo reportagens da época.  

1987: a epidemia explode

Matéria sobre vinda de Ministro da saúde da época em Fortaleza (CE), veiculada em 21 de maio de 1986.
Legenda: Matéria sobre vinda de Ministro da saúde da época em Fortaleza (CE), veiculada em 21 de maio de 1986.
Foto: Cedoc/SVM.

Documentos federais revelam que a resposta planejada em 1986 envolvia, nas localidades consideradas infestadas, a operação com inseticida nos domicílios. A vigilância deveria impedir a reinfestação, enquanto a vigilância epidemiológica acompanharia passageiros e trabalhadores dos complexos portuários e aeroportuários.   

O projeto também previa ampla estratégia de comunicação, com materiais informativos e orientação da população. A meta era reduzir os índices de infestação predial para menos de 5% nas localidades infestadas.

Documento classificado como  confidencial mostra comunicação entre Ministério da Saúde e estados. Ceará é destacado entre os primeiros casos identificados com a doença em 1987.
Legenda: Documento classificado como confidencial mostra comunicação entre Ministério da Saúde e estados. Ceará é destacado entre os primeiros casos identificados com a doença em 1987.
Foto: Sistema de Informações (Sian)/Arquivo Nacional

Se 1986 foi o ano da descoberta, 1987 revelou a dimensão que a dengue poderia alcançar. A série histórica registrou 4.419 casos no primeiro ano. Em apenas 12 meses, o número saltou para 22.518, mais de cinco vezes o registrado anteriormente.

A incidência passou de 75,6 casos por 100 mil habitantes, em 1986, para 378,9 casos por 100 mil habitantes, em 1987.  

No entanto, diversos estudos avaliam que, em uma nova epidemia, nem todas as pessoas procuram atendimento, nem todos os casos são diagnosticados e nem todos são registrados. O número dos boletins oficiais, portanto, podem representar apenas uma parcela da onda real vivida pela população.  

“A dengue saiu da epidemia e se tornou endêmica. Ela passou a existir normalmente na sociedade brasileira durante praticamente o tempo todo”, analisa o médico José Policarpo Barbosa.  

O DENV-1 permaneceu em circulação no Ceará entre 1986 e 1993; somente em 1994, houve a introdução do DENV-2. Na história epidemiológica da doença, períodos de redução da transmissão passaram a se alternar com novos surtos. Ao todo, o Estado já atravessou sete epidemias da doença.

Na próxima reportagem, você entende quais características e comportamentos do Aedes aegypti tornaram o mosquito bastante resistente à erradicação.

Créditos

João Lima Neto, Repórter | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Louise Dutra, Arte/Animação | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

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