Não que Fortaleza seja fria. Nunca foi. Mas até a celebrada brisa marinha não é mais capaz de aplacar as altas temperaturas sentidas na Capital, sobretudo nos últimos anos. Neste 2026, o cenário pode inclusive piorar: a iminência do El Niño – aquecimento descompassado das águas superficiais do Pacífico equatorial em relação à média climatológica – aumenta riscos e atrai novos olhares para formas de lidar com altas temperaturas.
Será, então, que a cidade está preparada para o calor extremo? Que iniciativas estão previstas e quais já podem ser acessadas pela população para amenizar o desconforto térmico? E, talvez o mais importante: como os próprios fortalezenses sentem, na pele, os efeitos do ambiente mais quente? O que sugerem como alternativas para o problema?
“Durmo no ar-condicionado com ventilador ligado e sem lençol; mesmo assim, às vezes acordo suado”, partilha Alysson Lira, estudante de Contabilidade. Residente no Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza, ele realiza atividades na Capital e conta que, mesmo em dias de ventania, sente o tempo “abafado”. Até o vento, sente, é “quente”.
“Minha vizinhança não tem árvore, é tudo prédio. Acaba que esses prédios – de 12, 15 andares – barram os ventos. Minha cachorra, quando vamos passear com ela, em menos de cinco minutos está com a língua pra fora, acredito que devido ao calor”, divide.
Como saída, elege soluções não tão ecológicas, embora momentaneamente efetivas: “Tomo mais banho (já houve dias em que tomei de cinco a seis), me hidrato bastante e uso mais ar-condicionado”. Caminhos trilhados também pela fisioterapeuta Ana Clara Ramos, moradora do bairro Vila Velha.
Embora em localidade arborizada, tem a mesma impressão que Alysson: o vento é quente, intranquilo. “Percebi, inclusive, que o calor agora começou no meio do ano e tá se esticando até o fim. Geralmente, era maior a partir de outubro; dessa vez, foi antes”, comenta.
“Nos dias que estão mais quentes, não tem quem faça eu deitar numa cama; tem que ser numa rede. Rede, ventilador e água gelada, senão não dou conta”.
Depois de dez anos do último “Super El Niño”, o Diário do Nordeste lembra uma das piores secas já registradas no Ceará, ações emergenciais de convivência com a seca, soluções de longo prazo adotadas pelo Estado e políticas públicas para lidar com eventos climáticos extremos na área da saúde.
Prefeitura destaca ‘monitoramento, transparência e planejamento’
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Fortaleza destaca principalmente ações de monitoramento, transparência e planejamento no trato com o tema. Poucas foram as iniciativas compartilhadas que efetivamente já geram impacto direto na população.
A Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza (Citinova), por exemplo, sublinha estar com inscrições abertas dos editais de Contratação Pública para Solução Inovadora (CPSI) do Conexões Inovação Aberta Nordeste (Co.NE) – programa focado em conectar desafios da gestão pública com soluções do ecossistema empreendedor.
Um dos editais, o Inova Verde, é específico para a temática ecológica, e busca startups, empresas inovadoras, universidades e centros de pesquisa com soluções voltadas à ampliação da cobertura vegetal, redução de impactos das altas temperaturas e fortalecimento da adaptação às mudanças climáticas.
O ponto fulcral, conforme a nota da Citinova, é contribuir para a adaptação às mudanças climáticas, melhoria do conforto térmico urbano e construção de uma cidade mais resiliente. “As propostas selecionadas poderão desenvolver um protótipo funcional por meio do CPSI, com investimento de até R$ 100 mil”, afirmam. Inscrições seguem até dia 26 de julho.
Por sua vez, o Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza (Ipplan) trabalha principalmente em duas frentes: o Observatório de Riscos Climáticos e a participação da Prefeitura no programa Parceria por Cidades Saudáveis.
O primeiro está em voga desde 2025 e foi criado, conforme a autarquia, para “monitorar, analisar e comunicar os principais riscos climáticos que afetam Fortaleza, como inundações, alagamentos, calor extremo, deslizamentos, erosão do solo e períodos de seca”.
A plataforma também busca fortalecer a prevenção, reduzir o tempo de resposta a eventos extremos, orientar investimentos públicos e apoiar a priorização de intervenções nos territórios mais vulneráveis. O site é público e pode ser acessado neste link, com informações georreferenciadas sobre ocorrências registradas pela Defesa Civil, áreas de risco, dados meteorológicos, recursos hídricos e outros elementos sobre vulnerabilidade climática.
“Atualmente, a cidade conta com uma rede de 10 estações meteorológicas distribuídas pelo território municipal. Elas coletam, em tempo real, informações como temperatura, precipitação, umidade, direção e velocidade dos ventos, pressão atmosférica, índice ultravioleta e intensidade luminosa”, contextualizam as integrantes do Ipplan, Dalila Menezes e Tainah Carvalho, diretora e analista do órgão, respectivamente.
“Esses dados permitem compreender melhor os microclimas urbanos e acompanhar as variações climáticas entre diferentes regiões da cidade”. A periodicidade de atualização varia conforme a fonte. Informações meteorológicas são atualizadas continuamente, enquanto outras bases dependem dos ciclos de fornecimento e validação dos órgãos responsáveis.
A partir de então, sublinha o texto, pode-se perceber as grandes diferenças climáticas entre os diversos territórios de nossa cidade – seja na intensidade de chuvas ou na de ilhas e ondas de calor, que ocorrem de maneira desigual. “A plataforma permanece em processo de aprimoramento, com revisão progressiva das metodologias e incorporação de novas informações”.
Qual a real situação de Fortaleza frente ao calor?
Questionadas sobre a situação da Capital frente aos riscos climáticos – principalmente se ela é uma cidade sustentável nesse segmento – as representantes do Ipplan atestam: os riscos são múltiplos e distribuídos de forma desigual pelo território.
Fortaleza está exposta a alagamentos, inundações e enxurradas decorrentes de chuvas, bem como a alagamentos e inundações decorrentes do progressivo avanço e elevação do nível do mar, além de deslizamentos, erosão do solo, períodos de seca e calor extremos.
Essas variáveis tendem a afetar com maior intensidade populações que vivem em áreas com menor cobertura vegetal, infraestrutura insuficiente e maior vulnerabilidade social. Relatório do Plano Local de Ação Climática da Cidade de Fortaleza, publicado em 2020 pela Prefeitura em parceria com instituições, dimensiona que áreas são essas.
À época, os bairros listados com alto índice de risco climático eram:
- Aeroporto
- Bonsucesso
- Cristo Redentor
- Demócrito Rocha
- Edson Queiroz
- Jacarecanga
- Pirambu
- Serrinha
- Vicente Pinzón
No mesmo relatório, também é possível conferir os bairros com alto índice de risco climático no futuro. Para 2040, o panorama fica ainda mais preocupante: a quantidade é mais que o dobro das localidades já mencionadas.
“Dados do Observatório de Riscos Climáticos indicam que uma parcela significativa da população vive em áreas sujeitas a riscos. Ainda assim, não seria adequado classificar Fortaleza simplesmente como sustentável ou não-sustentável. A cidade possui desafios ambientais, sociais e urbanos relevantes. Entretanto, vem avançando na criação de instrumentos de monitoramento, transparência e planejamento capazes de orientar políticas públicas mais eficientes”, afirma o Ipplan.
“A sustentabilidade deve ser entendida como processo contínuo. Nesse sentido, o principal avanço do Observatório é permitir que a gestão reconheça riscos, acompanhe a evolução, decida com melhor propriedade e direcione recursos com base em evidências”.
Ainda conforme o Ipplan, uma vez que a rede de estações meteorológicas é recente, ainda não é recomendável construir rankings definitivos de bairros mais quentes ou realizar comparações conclusivas entre diferentes territórios. Para análises climáticas mais consistentes, frisa que seria necessário acumular pelo menos um ano completo de dados, permitindo avaliar os períodos secos e chuvosos e as variações sazonais da cidade.
A previsão é de transformar progressivamente os dados do Observatório em instrumentos preditivos e operacionais, capazes não apenas de registrar o que já ocorreu, mas também de apoiar a antecipação de riscos e a preparação dos serviços municipais.
Aquisição de equipamentos e inteligência de dados
Por outro lado, o ingresso de Fortaleza, em março do ano passado, na Parceria por Cidades Saudáveis – iniciativa apoiada pela Bloomberg Philanthropies em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Vital Strategies – traz ações mais concretas.
De acordo com o Ipplan, o apoio para fortalecer políticas de saúde pública relacionadas a doenças não-transmissíveis, riscos ambientais e prevenção de lesões incluiu a aquisição de sensores meteorológicos, assistência técnica para integração e inteligência de dados, intercâmbio com outras cidades e participação em capacitações e eventos.
“No caso de Fortaleza, uma das principais frentes de trabalho está relacionada ao calor extremo e aos efeitos sobre a saúde. Essa parceria dialoga diretamente com o enfrentamento da crise climática porque reconhece que o calor extremo não é apenas uma questão ambiental: é também um problema de saúde pública”, reforçam as gestoras do Ipplan.
Além disso, mensuram, entre os principais resultados do ingresso da Capital na Parceria por Cidades Saudáveis estão ampliação do monitoramento climático em tempo real, disponibilização pública dos dados, integração de registros territoriais e fortalecimento da articulação entre diferentes áreas da Prefeitura.
Um dos destaques, segundo mencionam, é fruto da integração entre dados climáticos e registros operacionais, com vistas a melhorar a gestão dos recursos hídricos urbanos. Entre 2024 e 2025, a cobertura das ações de limpeza de canais passou de 33,1% para 89,6%; a cobertura de lagoas, de 30,6% para 48,6%.
“A disponibilização pública de mapas e informações permite que moradores, pesquisadores, imprensa e organizações da sociedade civil compreendam melhor os riscos presentes no território. Essa transparência ajuda a transformar o clima em tema cotidiano e aproxima a população das decisões da gestão pública”, contextualizam.
E completam: “O desafio é mostrar que os impactos não são iguais para todos. Algumas populações possuem menos acesso à sombra, ventilação, áreas verdes e infraestrutura adequada. Por isso, a educação climática precisa estar associada à justiça social, à prevenção e à participação da população na construção de uma cidade mais resiliente”.
A reportagem também entrou em contato com a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) para saber as ações da pasta, sobretudo a respeito do projeto Corredores Verdes; não houve, porém, realização de entrevistas por parte da equipe da Seuma até o fechamento desta matéria.
Sem histórico de preparação para o calor
Uma coisa parece ser certa, contudo: historicamente, Fortaleza não se organizou e tampouco se preocupou efetivamente com a manutenção das próprias áreas verdes e áreas azuis, fator decisivo para o bem-estar climático. A visão é de Flávio Rodrigues do Nascimento, professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Coordenador Geral de Ações Transversais no Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação das Secas, no Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima (MMA), ele situa que corpos hídricos, a exemplo de lagoas e planícies fluviolacustres – outrora em abundância na cidade – não foram devidamente cuidadas. Passaram por poluição e aterramento.
“Até o fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, havia uma quantidade de lagoas muito maior. Em um estudo realizado por um mestrando do Departamento do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFC, foram identificadas 108 em Fortaleza e em algumas áreas com potencial de serem confirmadas como tais. A perda de coleções hídricas ou de áreas azuis é um elemento que faz com que a cidade aumente a temperatura”.
Relacionado a isso, também houve perda de áreas verdes, fruto de um movimento: à medida que a cidade cresce sem planejamento e sem ordenamento – sucumbindo a vegetação natural – condições de umidade do solo ficam cada vez mais secas.
A temperatura do ar sofre igual, bem como a sensação térmica – uma vez que, segundo o estudioso, o calor médio de uma cidade aumenta em função da impermeabilização do solo, construção de edificações e da já citada perda de áreas verdes e azuis.
“Somaria a isso a ocupação na orla de Fortaleza. Na parte mais nobre, ela desfavorece a circulação de ar e bloqueia brisas litorâneas. A compensação térmica no vento agradável que a cidade ainda tem em alguns pontos é de certo modo impactada à medida que há prédios de andares muito altos e próximos uns aos outros. Favorecendo, inclusive, a ocorrência de ilhas de calor – fenômeno mapeado por aqui desde 1998”.
Não sem motivo, a opinião do geógrafo é de que, de modo geral, ao longo da história, gestões públicas de Fortaleza e do Estado do Ceará deveriam ter dado melhor atenção a esses elementos. Sem o devido foco, explosão da cidade em termos populacionais e construção de habitações nos mais diversos lugares tornaram o problema ainda pior ao longo do tempo.
Soma-se a isso a ausência de incorporação na própria demanda social e de cidadania por parte da população, no intuito de cultivar uma cidade ecologicamente mais equilibrada e com soluções positivas no controle da temperatura, e o panorama é assombroso.
“Alguns grupos sociais e partidos – sobretudo partidos de esquerda – demandam mais questões feito essa a instituições, universidades etc. Mas o poder público enquanto ação social ainda não incorporou como pauta necessária à cidade. Essa falta de identidade é muito estranha, tendo em vista que Fortaleza é uma das cidades com temperatura média mais elevada do Brasil”, considera Flávio.
Outros El Niños em Fortaleza
Localizada próxima à linha do Equador, a Capital do Ceará é famosa por sol forte durante a maior parte do ano – e, consequentemente, propensa aos efeitos dele, a exemplo de insolações e temperatura média quase sempre elevada.
Conforme Flávio Nascimento, a cidade está entre as cinco capitais que mais sofrerão os efeitos do aumento da temperatura, especialmente em momentos de El Niño e de “super” El Niño. “Naturalmente os sistemas de brisas ajudam a amenizar os efeitos de temperatura, mas com o uso indiscriminado do solo, acelerada verticalização e redução de áreas verdes e azuis, percebidos em toda a cidade, as consequências são ainda mais diretas”.
A julgar pelas últimas ocorrências do fenômeno na cidade, variáveis como baixa umidade, aumento da evapotranspiração – impactando negativamente no nível de reservas dos equipamentos hídricos da Região Metropolitana – e aumento da sensação de calor, com pelo menos 2ºC graus a mais no segundo semestre, ditarão a ordem dos dias.
A poluição urbana, claro, tem parte direta nisso. O efeito gasoso provocado por ela é destrutivo, e a baixa troposfera – camada em contato direto com a superfície terrestre – acaba concentrando gases maléficos à vida saudável na Terra. Estes, oriundos da fumaça emitida por automotores, indústrias e outros vetores, colaboram para o efeito estufa.
“Os impactos dos El Niños em Fortaleza ocorreram principalmente na segurança hídrica e no bolso da população: enquanto os ‘Super’ El Niños de 2015–2016 e 2023–2024 provocaram calor sufocante, esvaziamento crítico de reservatórios no interior, adoção de tarifas de contingência e pressões no abastecimento urbano, os episódios moderados a fortes de 2002–2003 e 2009–2010 desencadearam invernos irregulares na Região Metropolitana, inflação de alimentos locais por quebra de safra no cinturão verde e o início de longos ciclos de escassez hídrica gerenciados rigidamente pelo Estado”, enumera Flávio.
“A secura aumenta, os riscos de incêndio também, há desconforto térmico... Isso impacta diretamente na vida das pessoas. Há aumento do consumo de eletricidade para refrigerar os ambientes, além de possibilidades, como a História recente vem mostrando, de que o número de doenças e de internações aumentem em função do calor extremo”.
Ainda temos tempo?
Felizmente, sim, ainda há tempo para lidar melhor com essa avalanche de efeitos. Ainda assim, é preciso agir rápido. “Eu focaria em alguns aspectos fundamentais. Primeiro: maior controle rigoroso no uso do solo, inclusive reorientando formas de ocupações”, diz Flávio.
Ele cita o Plano Diretor Urbano de Fortaleza como fundamental nesse aspecto, com atenção para as áreas verdes e azuis e regramento mais efetivo para construção de novos edifícios. Soluções baseadas no uso sustentável da natureza também são apontadas como saída. Como exemplo, considera o Parque Rachel de Queiroz a partir da requalificação verde de um equipamento outrora sem uso.
Política urgente de incorporação de mais árvores no tecido urbano; manutenção das áreas de duna; e eleição de áreas prioritárias para conservação ambiental, a exemplo de territórios verdes e de lagoa, completam o panorama.
“Adicionaria ainda que privilegie a utilização de bloquetes – aqueles blocos de concreto com cor mais clara. Eles ajudam na reflectância, acumulam menos calor do que o asfalto e favorecem a infiltração, contribuindo para o escoamento superficial das águas”, acrescenta.
“O ‘Super’ El Niño está em curso. Teremos no segundo semestre uma elevação de temperatura acima das médias, causando um desconforto e problemas significativos para a condição urbana da cidade e das pessoas. Não é para amanhã; é para agora”, conclui o geógrafo.
Créditos
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