Calor na Europa acende alerta no Brasil; entenda

Medidas adotadas em solo europeu podem inspirar, mas devem considerar diferenças entre continentes.

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
27 de Junho de 2026 - 10:52
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Legenda: Grande parte das cidades brasileiras ainda não dispõe de planos estruturados para enfrentar temperaturas extremas.
Foto: Cristi Croitoru/Shutterstock.com.

Fato: a Europa é o continente que mais aquece no planeta. Imagens e relatos, sobretudo diante da segunda grande onda de calor vivenciada nos países do território em dois meses, comprovam o dado. 

De acordo com o g1, ao menos 101 milhões de pessoas enfrentaram temperaturas acima de 35°C na última quinta-feira (25), e cerca de dois terços da população precisaram lidar com termômetros marcando acima dos 30°C.

O continente, não à toa, se tornou espécie de termômetro para o planeta e pode acender alerta inclusive para o Brasil, onde medidas de prevenção e resposta às altas temperaturas ainda são limitadas.

Pesquisa inédita em escala nacional estima que cerca de 120 mil mortes entre 2000 e 2019 podem ser atribuídas a esses eventos. O levantamento também mostrou que idosos representam oito em cada dez vítimas, e que pessoas mais pobres e com menor escolaridade estão entre as mais afetadas.

Ao mesmo tempo, grande parte das cidades brasileiras ainda não dispõe de planos estruturados para enfrentar temperaturas extremas. 66% dos municípios ainda não começaram ou estão nas fases iniciais da elaboração dessas estratégias.

Outros 75% não usam dados de forma estruturada, e 85% dependem de recursos externos para colocar as ações em prática, de acordo com dados coletados pela presidência da COP30 em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Que iniciativas já foram tomadas

Os principais passos até aqui são efetivos, mas pontuais. No Rio de Janeiro, um protocolo criado em 2024 estabeleceu uma escala de calor de 1 a 5. O nível 4 foi registrado pela primeira vez em fevereiro de 2025.

Em São Paulo (SP), a Operação Altas Temperaturas instala tendas de hidratação e atendimento para pessoas em situação de rua.

Pesquisa no Brasil estima que cerca de 120 mil mortes entre 2000 e 2019 podem ser atribuídas a ondas de calor.
Legenda: Pesquisa no Brasil estima que cerca de 120 mil mortes entre 2000 e 2019 podem ser atribuídas a ondas de calor.
Foto: Sk Hasan Ali/Shutterstock.com

Especialistas, contudo, situam que medidas adotadas na Europa não podem ser simplesmente reproduzidas no Brasil sem considerar as diferenças sociais e urbanas entre os países.

A desigualdade econômica, por exemplo, limita o alcance de medidas como a interrupção do trabalho nos horários mais quentes. Trabalhadores informais, ambulantes, entregadores de aplicativo e profissionais da construção civil nem sempre conseguem suspender as atividades sem perder renda.

Condições precárias de moradia são outro gargalo. Casas sem isolamento térmico, reboco ou ventilação adequada, muitas vezes cobertas por telhas de zinco ou fibrocimento, acumulam calor durante o dia e podem permanecer quentes até durante a noite.

Há também dificuldade de reconhecer ondas de calor como desastres; o custo da energia para famílias de baixa renda ainda dificulta o uso prolongado de ventiladores e torna o ar-condicionado inacessível; e a distribuição desigual das áreas verdes, com ausência de árvores, sombra e parques, principalmente nas periferias, aumenta a exposição ao calor.

O que indicam as projeções

Impactos devem aumentar nas próximas décadas. A proporção de mortes relacionadas ao calor na América Latina pode mais que dobrar entre 2045 e 2054, passando de 0,87% para 2,06% do total de óbitos.

Quem dimensiona é um estudo publicado na revista científica "Environment International". Nesse movimento, cabe lembrar que existe um limite biológico para a capacidade do corpo de suportar temperaturas elevadas. 

Desigualdade econômica limita o alcance de medidas como a interrupção do trabalho nos horários mais quentes.
Legenda: Desigualdade econômica limita o alcance de medidas como a interrupção do trabalho nos horários mais quentes.
Foto: Studio Nut/Shutterstock.

O organismo se resfria principalmente pela evaporação do suor, mas esse mecanismo perde eficiência quando o ar está muito quente e úmido.

A condição é medida pela chamada temperatura de bulbo úmido, indicador que combina calor e umidade. Quando esse limite é ultrapassado, até pessoas jovens e saudáveis ficam expostas a riscos graves.