Entre riscos de desabamento e alagamentos, Fortaleza tem média de 200 ocorrências por mês
2026 registrou queda no número de sinistros em relação a anos anteriores; maior parte ocorre no período de chuvas.
A cidade de Fortaleza enfrenta uma complexa vulnerabilidade urbana que se estende por todo o ano, mas se intensifica durante o período de chuvas, gerando ocorrências como desabamentos, alagamentos e deslizamentos. Os sinistros aumentam o medo da população de algumas áreas sob risco de precisarem deixar as próprias residências.
Conforme levantamento do Diário do Nordeste junto à Defesa Civil de Fortaleza (DCFor), de janeiro a abril, 2026 registrou uma média mensal de 206 ocorrências. O número é cerca de 27% inferior às médias de 2025, com 283 sinistros por mês, e 2024, com 279, considerando o primeiro quadrimestre. O período mais chuvoso na cidade se estende até o fim de maio.
Neste ano, assim como em períodos anteriores, o risco de desabamento é o principal tipo de sinistro constatado pelas equipes técnicas (648 ocorrências em 2026), seguido por alagamentos (51) e desabamentos (49).
Apesar da redução geral, abril teve um incremento de ocorrências quando comparado aos dois anos prévios. Segundo o Calendário de Chuvas do Ceará, o mês registrou 499 milímetros em Fortaleza, valor 36% acima da média histórica de 365.1 mm para o período.
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Para a gestão municipal, a redução dos sinistros está ligada à limpeza preventiva de recursos hídricos desde o ano passado, uma vez que, sem obstruções, a água escoa mais rapidamente. Em 2025, foram realizadas 258 intervenções, incluindo 164 canais e 37 lagoas, além de córregos e riachos. Para 2026, foram planejadas mais de 200 novas limpezas de corpos d’água, em todas as regiões do município.
Entenda as diferenças dos principais sinistros registrados na cidade, conforme a Secretaria Municipal de Segurança Cidadã (Sesec):
- Alagamento: acúmulo momentâneo de águas em uma dada área por problemas no sistema de drenagem, podendo ter ou não relação com processos de natureza fluvial
- Desabamento: quando uma edificação sofre uma avaria, provocado por fatores naturais, mistos ou humanos, causando ou não a queda parcial ou total da edificação
- Deslizamento: movimento de solo e rocha causado pela infiltração de água da chuva
- Inundação: extravasamento da calha do curso d’água para áreas marginais habitualmente não ocupadas pelas águas.
Um dos casos de maior repercussão hoje é a situação da comunidade Vila Gomes, no bairro Aerolândia. Pelo menos 66 residências foram afetadas por alagamentos e solapamento do solo. Para os moradores, as fissuras nas casas são consequência de obras num empreendimento próximo, ligado ao Aeroporto de Fortaleza. Já a empresa Aerotrópolis defende que não há evidências de relação direta com as intervenções.
Problemas na drenagem
No entanto, não é apenas em época de fortes precipitações que as ocorrências estão presentes, motivando ações como mudanças de casas e interdição de espaços. Em 2025, a capital registrou 1.959 ocorrências, sendo 701 fora do período oficial de chuvas. No ano anterior, das 2.020 ocorrências gerais, 661 aconteceram de junho a dezembro.
Segundo Rérisson Máximo, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) e conselheiro estadual do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Ceará (CAU/CE), o impacto das chuvas na cidade não depende apenas do volume total acumulado, mas da dinâmica com que elas ocorrem.
Na prática, a resposta da drenagem urbana – conjunto de canais subterrâneos responsáveis por escoar a água das precipitações – é sobrecarregada quando grandes volumes caem em intervalos curtos.
“Uma coisa é chover 100 mm ao longo de um dia e outra coisa é chover 100 mm em 30 minutos”, destaca o professor, ressaltando que essa intensidade afeta diretamente a capacidade de escoamento da cidade.
Além dos fenômenos climáticos, a eficácia das infraestruturas de drenagem e das galerias é fundamental. Conforme o especialista, se os elementos hídricos naturais e as redes construídas não funcionarem adequadamente e em conjunto, o resultado inevitável é o aumento das demandas para a Defesa Civil.
Ocupação desordenada
Um dos pontos centrais da análise de ocorrências por Rérisson é o modo como Fortaleza foi construída. Historicamente, aponta ele, o crescimento da cidade ignorou seus recursos hídricos, como rios e dezenas de lagoas que caracterizam a planície costeira.
Isso levou à ocupação irregular de margens de rios por populações de baixa renda, excluídas do mercado imobiliário formal. Essa ocupação desordenada, somada ao fato de Fortaleza ser a capital mais densa do país, gera um fenômeno de verticalização precária nas periferias.
Máximo observa que, pela falta de espaço, as pessoas constroem três ou quatro andares de forma irregular e sem acompanhamento técnico, o que explica por que o risco de desabamento é a tipologia de ocorrência mais comum na Defesa Civil.
“Muitas vezes, as edificações são coladas umas nas outras, são construídas de maneira irregular, verticalizada, sem estrutura adequada”, pontua o professor.
Soluções de longo prazo
Apesar dos problemas, o professor reconhece que algumas obras estruturantes trouxeram resultados positivos. Ele cita as barragens nos rios Maranguapinho e Cocó como intervenções que ajudaram a reduzir inundações e mortes históricas nessas áreas.
Para ele, essas obras de infraestrutura hídrica “ajudaram a conter, por exemplo, as ocorrências históricas, inclusive de mortes” de quem vivia nas margens.
No entanto, soluções pontuais não bastam. O conselheiro do CAU/CE defende que a saída definitiva passa por uma política habitacional efetiva e diversificada. Ele enfatiza que não se trata apenas de remover famílias de áreas de risco, mas de oferecer alternativas dignas de moradia.
“Para resolver o problema dessas ocorrências da Defesa Civil que estão associadas às populações mais pobres, aos assentamentos precarizados, é preciso estruturar, implementar uma política habitacional efetiva”, conclui.
A longo prazo, entende o especialista, o desafio de Fortaleza é reconciliar o crescimento urbano com elementos naturais, garantindo que a infraestrutura de drenagem e o direito à moradia sejam aliados para reduzir a vulnerabilidade da população.
Obras de escoamento
Nesse cenário complexo, mais de 20 áreas em 13 bairros de Fortaleza vêm passando por obras de drenagem, pavimentação e urbanização por meio de uma operação de crédito de R$ 250 milhões, firmada em janeiro deste ano entre a Prefeitura de Fortaleza e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Conforme a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf), os projetos abrangem melhorias da infraestrutura viária, com pavimentação de ruas em terra batida e captação adequada de águas pluviais através de bocas de lobo, sarjetas e galerias subterrâneas, a fim de evitar novos alagamentos.
O titular da Seinf, André Daher, reconheceu na 1ª Reunião do Secretariado da Prefeitura, no fim de janeiro, que os alagamentos são “problema histórico” da capital cearense, oriundo da topografia plana que dificulta o escoamento das águas.
“Nós temos um déficit histórico da drenagem urbana da cidade, onde se pavimentou muito e não executaram as obras de drenagem que são tão necessárias ao município”, explicou o gestor.
Por isso, a atual gestão adotou a diretriz de condicionar novos asfaltamentos à implantação prévia de sistemas de escoamento, visando à durabilidade do pavimento e à preservação dos recursos públicos.
Daher destacou ainda que o foco da Pasta são as obras de macrodrenagem e intervenções em áreas de risco, como as financiadas pelo BNDES, para atender populações vulneráveis que podem perder suas casas no período chuvoso.
Nas projeções do secretário, “tem obras mais simples que estarão prontas já na próxima quadra invernosa, e tem obras que serão faseadas porque são obras mais complexas de macrodrenagem”.
A reportagem solicitou entrevista com fonte da Defesa Civil, mas não obteve.
*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo.