Paciente do IJF com 20 anos recebe primeiro tratamento com polilaminina do SUS no CE

Vítima de uma arma de fogo teria diagnóstico de paraplegia e recebeu alta no dia seguinte à aplicação

Escrito por
Ana Alice Freire, Clarice Nascimento ceara@svm.com.br
(Atualizado às 11:47)
Equipe médica acompanha procedimento cirúrgico em sala de operação hospitalar. Profissionais usam roupas verdes, máscaras e toucas ao redor do paciente coberto por campos cirúrgicos, sob iluminação do centro cirúrgico.
Legenda: A cirurgia realizada no IJF foi guiada por Raio-X, com a infusão da polilaminina diretamente na medula, acima e abaixo do nível da lesão.
Foto: Divulgação\IJF

A sala de cirurgia do Instituto Dr. José Frota (IJF) foi palco de um procedimento inédito no último sábado (23). Um paciente de 20 anos, com diagnóstico de paraplegia após ser atingido por uma arma de fogo, recebeu a intervenção com polilaminina, realizada pela primeira vez em uma unidade do Sistema Único de Saúde (SUS) no Ceará. 

Com uma hora de duração, coordenada pelo neurocirurgião Lucas Chaves e envolvendo diversos profissionais da saúde, a aplicação da polilaminina foi realizada  no paciente após ele ter comprometimentos ao nível da vértebra T8. 

O objetivo da cirurgia com aplicação da polilamina é ajudar na recuperação de pessoas com lesões na medula espinhal. Na ocasião, um médico do Laboratório Cristália e um médico pesquisador ligado ao estudo clínico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vieram a Fortaleza para acompanhar a cirurgia.

O paciente, que já estava sendo acompanhado pelo hospital, deu entrada na sexta-feira (22) e teve o procedimento eletivo realizado aproximadamente às 13h do sábado.

De acordo com João Gilberto Macedo, superintendente do IJF, o jovem recebeu alta no domingo (24) e seguirá com acompanhamento recorrente no hospital municipal. À reportagem, o médico afirma que o procedimento cirúrgico "ofereceu a esperança de uma chance que esse paciente volte a andar". 

Fotografia colorida em plano médio de uma equipe médica composta por dez profissionais, entre homens e mulheres, posando sorridentes lado a lado dentro de uma sala de cirurgia. Todos vestem uniformes de privativo cirúrgico em tons de verde-escuro, toucas e máscaras descartáveis abaixadas no pescoço. O ambiente possui paredes de tom verde-claro, um aparelho de ar-condicionado ao fundo e uma grande luminária cirúrgica de teto visível no canto superior esquerdo.
Legenda: Médicos neurocirurgiões, anestesista, enfermeiros, técnico de enfermagem, técnico em radiologia, médicos residentes integraram a equipe da aplicação de polilaminina neste sábado (23).
Foto: Divulgação/IJF

A cirurgia foi guiada por Raio-X, com a infusão da polilaminina diretamente na medula, acima e abaixo do nível da lesão.

De acordo com Lucas Chaves, o uso da polilaminina é utilizado nos casos de lesão medular completa classificados como ASIA A, “a categoria usada internacionalmente para os casos mais graves de lesão na medula”. 

O jovem, que já era paciente do IJF, solicitou o tratamento com polilaminina pela via judicial. A intervenção com o medicamento foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) seguindo as regras do uso compassivo previstas na RDC nº 38/2013, ou seja, destinado a pacientes graves e sem alternativas terapêuticas no país, com o uso de drogas experimentais em caráter individual. 

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O que é polilaminina

Há mais de 20 anos, a pesquisadora Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, chegou à descoberta da polilaminina de forma inesperada. Durante um período de estudos nos Estados Unidos, onde buscava compreender os princípios que regem a associação entre proteínas, ela se deparou com a laminina, que é uma proteína encontrada naturalmente no organismo. 

A partir desse achado, pesquisadores passaram a estudar o potencial da proteína para a regeneração da medula espinhal, uma estrutura extremamente delicada e de difícil recuperação após lesões.

A medula espinhal integra o sistema nervoso central e funciona como uma espécie de via de comunicação responsável por transmitir os sinais enviados pelo cérebro para o restante do corpo, permitindo movimentos e outras funções. Por se tratar de uma estrutura altamente sensível, pode sofrer danos severos em situações traumáticas, como acidentes de trânsito, quedas ou ferimentos por arma de fogo, além de causas não traumáticas, como tumores, doenças degenerativas, infecções, exposição a toxinas ou alterações congênitas.

Foi a partir da extração e purificação da laminina original que surgiu a polilaminina. A substância, desenvolvida em laboratório, tem como objetivo estimular os nervos a se reorganizarem e estabelecerem novas conexões quando aplicada diretamente no local da lesão. Pesquisas apontam que esse mecanismo pode contribuir para a recuperação parcial de movimentos em pacientes com lesão medular.

Fotografia colorida em primeiro plano e ângulo levemente superior mostrando dois pequenos frascos de vidro transparentes, com tampas metálicas prateadas, sobre um campo cirúrgico de tecido verde. O frasco da esquerda possui um rótulo branco onde se lê
Legenda: Substância é desenvolvida a partir da proteína laminina, encontrada na placenta.
Foto: Divulgação/IJF

Os critérios estabelecidos pelo Laboratório Cristália para a inclusão de pacientes na pesquisa consideram fatores como tipo e gravidade da lesão, faixa etária, presença de comorbidades e outros critérios clínicos específicos.

Pesquisa sofreu críticas

Desenvolvida por pesquisadores da UFRJ e atualmente produzida pelo Laboratório Cristália, a polilaminina ainda está em fase de testes e estudos clínicos. Em 2024, a professora Tatiana Sampaio divulgou uma versão preliminar dos resultados obtidos ao longo de mais de duas décadas de pesquisas.

A publicação, entretanto, recebeu críticas de outros pesquisadores, que apontaram inconsistências em parte dos dados apresentados e questionaram aspectos metodológicos do estudo. Entre os principais pontos levantados está a ausência de um grupo de controle (prática comum em pesquisas clínicas), na qual os participantes são divididos entre aqueles que recebem o tratamento e aqueles que não recebem, permitindo comparações mais precisas sobre os efeitos observados.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo. 

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