O que é polilaminina? Veja o que se sabe sobre substância e o que ela pode fazer

Medicamento criado pela pesquisadora Tatiana Sampaio já ajudou pacientes com lesão medular.

Escrito por
Paulo Roberto Maciel* paulo.maciel@svm.com.br
(Atualizado às 10:48)
Imagem de uma ampola de Lamina com 100 mcg/mL, solução injetável de 0,5 mL utilizada para administração intramedular.
Legenda: Medicamento ainda está na fase 1 de testes.
Foto: Reprodução.

Nas últimas semanas, um termo científico deixou as paredes dos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tomou as redes sociais. Trata-se da polilaminina, um composto recriado pela universidade fluminense baseado em uma proteína produzida pelo corpo humano, a laminina.

A responsável por esse feito é a pesquisadora Tatiana Sampaio, que conseguiu, por meio de uma pesquisa rigorosa, ajudar um paciente com lesão medular a recuperar os movimentos do corpo.

Essa descoberta levou à parceria com um laboratório nacional e à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para desenvolver um medicamento para o tratamento de lesões agudas, ou seja, que tinham acontecido recentemente.

Mas, de fato, o que essa substância pode fazer, e quais os benefícios dela para pessoas com lesão medular?

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O que é a polilaminina?

Antes de chegar aos resultados, é preciso entender o processo. Tatiana Sampaio "descobriu" a polilaminina há mais de 20 anos por acaso, enquanto estava nos Estados Unidos para "entender os princípios que governam a associação entre proteínas", conforme relatou ao Estadão.

Ela se deparou com a proteína laminina, que surge naturalmente na placenta. Essa substância tem o potencial de regenerar a medula espinhal, um tecido extremamente delicado e de difícil regeneração.

Onde é encontrada a polilaminina?

É preciso entender que a medula espinhal forma o chamado sistema nervoso. Essa estrutura funciona como um "gerente" que controla os sinais cerebrais que dão movimentos ao corpo.

Imagem ilustrativa do sistema nervoso humano destacando o cérebro, a coluna vertebral e os nervos periféricos, representando a importância do sistema nervoso para o funcionamento do corpo.
Legenda: Representação visual do tecido nervoso e da medula espinhal.
Foto: OctShutter/Shutterstock

Conforme cartilha da Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde (MS), a medula fica protegida pela coluna vertebral, debaixo de ossos divididos em cinco regiões:

  • cervical (pescoço)
  • torácica (tronco)
  • lombar (cintura)
  • sacro (quadril)
  • e cóccix.

O sistema nervoso é altamente sensível, e pode ser fatalmente afetado em casos de traumas - por exemplo, quedas e acidentes de trânsito - ou causas não traumáticas, como tumores, doenças degenerativas, infecções, toxinas ou defeitos congênitos.

É aí que o medicamento entra, a partir da extração e purificação da proteína original. O objetivo é que, ao ser aplicada no local da lesão, a polilaminina estimule os nervos a se reorganizarem e criarem novas conexões.

Para Tatiana Sampaio, os avanços dessa pesquisa podem oferecer esperança para quem enfrenta as consequências da lesão muscular.

"O que estamos vendo agora é um resultado muito estimulante, promissor. Mas, por enquanto, é só uma esperança. Não dá para saber se estamos mesmo diante de algo espetacular", disse ela ao g1.

O que foi descoberto até agora?

Tatiana afirma que, embora os primeiros exemplos da aplicação da polilaminina são um sucesso, é preciso ter paciência. De oito voluntários, apenas dois apresentaram melhorias significativas após o uso do medicamento.

Isso reforça a necessidade de mais pesquisas e estudos para ampliar a eficácia da substância. Para isso, analistas precisam verificar a validade do remédio, o que ainda não aconteceu.

Esse processo é crucial para que o antídoto chegue aos pacientes da maneira mais segura possível, com eficácia comprovada.

O tratamento com polilaminina existe?

Em entrevista à Verdinha FM 92.5 nesta sexta-feira (20), a médica neurologista do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), Milena Pitombeira, explicou que a validação de um medicamento é marcada por três fases, e que a polilaminina está na primeira.

"Estamos na fase de entender o que está acontecendo em relação à poliomielite. Temos expectativa da aplicabilidade dessa medicação em pacientes com lesão medular aguda, mas a gente ainda espera os resultados", disse.

Milena se refere ao fato de que ainda não há evidência científica de que a polilaminina seja eficaz em lesões musculares crônicas. Ou seja, em pacientes que já têm a paralisia há algum tempo.

"É precisa seguir a boa ciência para que o medicamento se prove seguro e posteriormente então incorporado aos tratamentos no território brasileiro", recomenda a médica.

Além disso, segundo dados mais recentes divulgados pela UFRJ, pela pesquisa ter sido realizada por um grupo de pessoas pequeno, ainda não é possível verificar se todos os usos da polilaminina darão certo. É preciso mais checagem, força de trabalho, e investimentos.

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Medicamento já apresentou resultados?

O medicamento foi apresentado ao mundo oficialmente em setembro de 2025. Durante os primeiros testes, a polilaminina foi aplicada diretamente no local da lesão de alguns pacientes.

Logo, foram observadas melhorias quanto à recuperação nervosa do corpo. O tratamento também não apresentou sequelas nem impedimentos para uma rotina saudável.

Dentre os exemplos mais notáveis, está o do analista Bruno Drummond de Freitas, 31, que recuperou boa parte dos movimentos dos braços e pernas após um acidente de trânsito, em 2018.

Hoje, ele segue uma vida praticamente normal. À GQ Brasil, Bruno relatou que anda, sobe e desce escada, mas só tem dificuldade para correr. "Acho que posso melhorar ainda mais, mas aí teria que abrir mão de muita coisa e não tenho tempo", avaliou.

Outro caso recente é do policial militar Romildo Leobino, 46, que apresentou os primeiros sinais de melhora após passar por um procedimento experimental com a polilaminina menos de uma semana após a publicação.

Após a aplicação da polilaminina já consigo até fazer força em uma das mãos… em uma das mãos, não, nas duas mãos. Não tô ainda conseguindo fechar, mas consigo apertar a mão das pessoas. Tô muito grato. A respiração melhorou significativamente
Romildo Leobino
Em entrevista ao g1

Pacientes lesionados já podem usar o remédio?

Por enquanto, o medicamento à base de polilaminina está na fase 1 de testes, liberados pela Anvisa em janeiro do ano passado.

Desde que o estudo foi divulgado, pacientes com lesão muscular vêm buscando a justiça para conseguir o direito de ter acesso ao antídoto.

O laboratório Crisália, responsável pela produção da substância, contabiliza pelo menos 40 ações judiciais e 19 aplicações realizadas até agora.

Porém, esse cenário acende um alerta importante: essas utilizações do medicamento não fazem parte da pesquisa e acontecem de maneira independente.

Ainda na entrevista à Verdinha FM 92.5, a neurologista Milena Pitombeira reforçou a importância de pacientes com lesão medular confiarem no processo de avaliação de segurança.

"É muito importante não se deixar levar por notícias enganosas, por pessoas que podem tentar, eventualmente, já vender o tratamento quando, na verdade, a gente está na fase 1 de segurança", recomendou.

Geralmente, esse período é demorado. Depois da fase de segurança, passa para uma fase de eficácia, onde se convidam mais pacientes a participar do estudo. Então, a perspectiva é, no mínimo, de muitos meses para frente até que se possa incorporar.
Milena Pitombeira
Médica neurologista

Portanto, caso um paciente não apresente melhora significativa, a responsabilidade não recai necessariamente no medicamento, pois cada caso deve ser tratado de maneira diferente.

"É uma exposição para o paciente. Como não está dentro de um estudo clínico, não temos responsabilidade por um acompanhamento", pontuou Tatiana Sampaio ao portal da TV Globo.

*Estagiário sob supervisão do jornalista Felipe Mesquita. 

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