Quem é Tatiana Sampaio? Conheça cientista por trás de remédio para lesão muscular
Pesquisadora desenvolve há 20 anos medicamento para recuperar movimentos de pacientes tetraplégicos.
A cientista e pesquisadora Tatiana Lobo Coelho Sampaio, 59, está por trás de uma conquista histórica para a medicina brasileira. Com apoio da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela desenvolveu um medicamento experimental para recuperar movimentos de pessoas com lesão medular.
Chamada de polilaminina, essa substância é criada a partir de uma proteína gerada organicamente pelo corpo, conhecida como laminina. Quando aplicado no local da lesão, esse antídoto atua como um estimulante para que o sistema nervoso reorganize as informações danificadas.
Desde que a pesquisa foi oficialmente revelada ao mundo, em setembro de 2025, Tatiana se tornou o rosto do projeto e vem divulgando o feito em busca de mais investimentos para análises similares.
Atualmente, a polilaminina está na primeira fase de avaliação da Agência Nacional de Viligância Sanitária (Anvisa), mas já recebeu o aval do Ministério da Saúde para integrar o quadro de tratamentos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Veja também
Como Tatiana desenvolveu a polilaminina?
Tatiana atualmente é chefe do laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, universidade onde é egressa da graduação, mestrado e doutorado, e leciona desde 1995.
Mas há mais de 20 anos, ela estava nos Estados Unidos em um estágio de pós-doutorado para "entender os princípios que governam a associação entre proteínas", conforme relatou ao Estadão.
Foi nesse período que ela encontrou, em um canto da "geladeira" do laboratório, a proteína laminina. Quando teve acesso liberado para estudá-la, Tatiana percebeu que essa substância tinha um potencial além do que ela previa.
Durante as últimas décadas, ela se dedicou a entender como a laminina poderia auxiliar na reconstrução de um sistema neurológico afetado por traumas.
No corpo humano, essa estrutura funciona como um "gerente" que controla os sinais cerebrais que dão movimentos ao corpo.
O sistema nervoso é altamente sensível e pode ser fatalmente afetado em casos de traumas - por exemplo, quedas e acidentes de trânsito - ou causas não traumáticas, como tumores, doenças degenerativas, infecções, toxinas ou defeitos congênitos.
É nesse contexto que a polilaminina surgiu, a partir da extração e purificação da laminina. Ela foi capaz de recriar conexões entre os neurônios no cérebro e o restante do corpo, devolvendo movimentos a seis pacientes.
O mais famoso desses casos foi o do analista Bruno Drummond de Freitas, 31, que recuperou boa parte dos movimentos dos braços e pernas após um acidente de trânsito, em 2018.
Patente internacional foi perdida por falta de verbas
Desde que a poliaminina tomou conta do debate público, Tatiana tem dado entrevistas em que detalha o processo de desenvolvimento do remédio. Ao canal TV 247, ela revelou que chegou a perder a patente internacional do projeto devido à falta de financiamento.
Segundo a cientista, ela chegou a solicitar a patente nacional ainda em 2007, quando a pesquisa estava em estágio inicial. Porém, ela só recebeu a autorização 18 anos depois, em 2025.
O problema é que uma patente no Brasil só tem validade de 20 anos. Ou seja, Tatiana teve menos de dois anos para que o medicamento fosse exclusivo dela.
Na mesma entrevista, a pesquisadora ainda detalhou que, após receber a autorização brasileira, ela e a equipe buscaram a versão internacional, mas não conseguiu.
A UFRJ teve um corte de recursos, em particular foram muitos cortados na época de 2015 e 2016, e aí não tinha dinheiro para pagar. Então, parou de pagar as patentes internacionais. A internacional foi perdida. Parou de pagar, nunca mais recupera. Não pode refazer, não pode reapresentar. Podem copiar à vontade.
No período mencionado por Tatiana, o Brasil passava por uma transição no governo federal, com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a posse do vice, Michel Temer. Esse último fato, segundo ela, foi um dos responsáveis pela perda da patente internacional.
"Os cortes no governo do Temer, né? Exatamente. Eles queriam inviabilizar, sim. Era um projeto de entregar todo o nosso conhecimento científico, inclusive o pessoal formado nas universidades públicas brasileiras, para utilização fora”, denunciou.
Medicamento de Tatiana pode chegar ao SUS
Em janeiro deste ano, o Ministério da Saúde autorizou o início da fase de testes da polilaminia, com o objetivo de ampliar o seu acesso a pacientes com lesão medular por meio do SUS.
A pasta informou que investiu recursos na pesquisa básica, para construir uma base científica sólida antes de qualquer teste em humanos. Agora, é chegado o momento de coletar os resultados.
Por enquanto, o medicamento é testado apenas em um grupo focal específico, já determinado e escolhido pela Anvisa:
- Cinco pacientes voluntários;
- Idades entre 18 e 72 anos;
- Portadores de lesões agudas completas da medula espinhal torácica entre as vértebras T2 e T10;
- Indicação cirúrgica ocorrida há menos de 72 horas da lesão.
"A aprovação, pela Anvisa, de um estudo desenvolvido em uma universidade pública tem potencial para revolucionar o tratamento no SUS e no país. O Brasil demonstra, assim, sua capacidade inovadora e oferece esperança a milhares de pessoas”, comentou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
*Estagiário sob supervisão do jornalista Felipe Mesquita.