Açude Castanhão sai do nível crítico e ultrapassa 32% do volume
O aporte das chuvas somado à integração com o Orós, gerou a mudança positiva no maior reservatório do Brasil
O nível das águas do maior açude do Brasil, o Castanhão, no Ceará, tem subido de forma contínua durante a quadra chuvosa. Na semana passada, o reservatório deixou a condição de nível crítico, conforme dados do Portal Hidrológico da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) e passou ao de alerta, ao superar os 30% de volume. O Castanhão pode armazenar até 6,7 bilhões de metros cúbicos (m³) de água e atualmente acumula 32,63% desse total.
No início da quadra chuvosa em fevereiro, a maior "caixa d'água" do Estado estava com 19,64% do volume e esse acumulado cresceu no decorrer dos últimos meses. Para se ter dimensão da importância desse gigante no sistema hídrico cearense, com os 2,186 bilhões de metros cúbicos de água armazenados atualmente no reservatório correspondem a cerca de 22,2% de toda a água acumulada, nesse momento, nos 144 açudes monitorados pela Cogerh.
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No ano passado, o maior açude do Estado não chegou a atingir nem 31% da capacidade, sendo o maior volume acumulado de 30,05% em abril. Em 2025, o Castanhão teve pouco aporte durante a quadra chuvosa, iniciando em fevereiro com 27,47% e encerrando em maio com 29,76% do acumulado. Nos últimos anos, o maior volume alcançado foi em junho de 2024, quando atingiu 36,20% da capacidade.
Com o aumento do volume nos últimos meses, o Castanhão, que dentre outras funções, ajuda no abastecimento humano, na perenização do Rio Jaguaribe e irrigação para a agricultura, deixou o nível crítico e passou ao de alerta, o que, na prática, significa melhora do cenário.
No Ceará, a Resolução 03/2020 do Conselho de Recursos Hídricos do Ceará estabelece a classificação dos açudes quanto ao nível de armazenamento de água nas bacias hidrográficas. Os índices são os seguintes:
- Até 10% situação muito crítica de escassez hídrica;
- Entre 10% e 30% situação crítica de escassez hídrica;
- Entre 30% e 50% situação de alerta de escassez hídrica;
- Entre 50% e 70% nível confortável de armazenamento hídrico;
- Acima de 70% nível muito confortável de armazenamento hídrico.
O que ajudou no aumento do volume do Castanhão?
Em entrevista ao Diário do Nordeste, o diretor de operações da Cogerh, Tércio Tavares, explica que a recuperação do Castanhão em 2026 “resulta da combinação entre a boa distribuição de chuvas naquelas bacias hidrográficas que transmitem água para esses dois reservatórios, no caso o Castanhão e o Orós, e também a operação integrada entre os sistemas hídricos”.
De acordo com ele, “a chuva continua sendo o principal fator de recarga, mas a infraestrutura de integração hídrica permite otimizar os aportes e distribuir melhor essa água entre as bacias”. Logo, o principal diferencial em 2026 é atribuído à regularidade das chuvas nas bacias contribuintes do Jaguaribe: a do Salgado e do Alto Jaguaribe.
No processo de integração, o Castanhão recebe água do Orós, segundo maior reservatório do Estado, e, que esse ano voltou a sangrar no final de abril.
A saída do Castanhão do nível crítico, celebra Tércio, gera satisfação. E, segundo ele:
“mesmo o Castanhão transferindo água para o sistema da Região Metropolitana de Fortaleza, há mais de três meses, o açude saiu de um percentual de 20% no início do ano para 32,5% nesse momento, Isso significa aproximadamente 12% de recarga. Quando comparamos essa reservação com o mesmo período do ano passado, nós estamos falando de 3% a mais de água. Isso significa realmente uma melhora importante nas condições não só de reservação, mas sobretudo operacionais do reservatório”.
O efeito na prática, pondera, é que o Castanhão “passa a operar com maior segurança e previsibilidade, reduzindo aí os riscos de abastecimento e permitindo um planejamento hídrico mais confortável, uma vez que no Ceará nós sempre trabalhamos na máxima de fazer um planejamento hídrico plurianual”.
A água acumulada hoje, estima Tércio, “tem que dar pelo menos para dois anos na frente”, por isso, completa: “o sistema continua sendo monitorado com cautela, já que as questões envolvendo semiárido sempre precisam de uma ação mais preventiva do que remediativa”.
Castanhão voltou a enviar água para Fortaleza
Desde o final de fevereiro, conforme deliberação dos Comitês de Bacia dos Vales do Jaguaribe e Banabuiú, a Cogerh faz a transferência das águas do Orós e do Castanhão para o sistema integrado que atende Fortaleza e municípios da RMF.
De acordo com Tércio, “isso representa um importante esforço para a segurança hídrica da Região Metropolitana de Fortaleza, que, nesse momento, se encontra com 58% de sua capacidade de reservação. Isso é 33% a menos que o mesmo período do ano passado”.
Nesse cenário, pondera, o sistema integrado, “atua como um equilibrador de reservas hídricas, permitindo a transferência de água armazenada no interior do estado para os principais centros consumidores, aumentando a flexibilidade operacional e reduzindo os riscos de desabastecimento, especialmente em períodos de menor recarga local”.
O representante da Cogerh também foi questionado sobre o fato de que em 2026 o Castanhão não precisou receber águas da Transposição do São Francisco e se isso indica maior autonomia hídrica. Ele avalia que sim, se comparado ao cenário dos últimos anos.
“Os aportes naturais e a operação integrada entre as bacias foram suficientes para garantir a recuperação do reservatório e atender às demandas prioritárias. Ainda assim, gosto sempre de ressaltar que a Transposição do São Francisco continua sendo extremamente estratégica, como um reforço de segurança hídrica para os períodos de seca prolongada”.
Funções do Castanhão
Segundo o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), o reservatório é responsável pelo abastecimento de cerca de 5 milhões de pessoas no Ceará, sendo 4,5 milhões na Região Metropolitana de Fortaleza e outras 500 mil localizadas entre a válvula dispersora da barragem e a foz do Rio Jaguaribe, no município de Fortim.
Inaugurado em 2002, o Castanhão foi concebido como uma estratégica de reserva hídrica para o Ceará, com finalidades como:
- abastecimento humano, garantindo segurança hídrica para a população da Grande Fortaleza;
- fornecimento de água para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém;
- controle das secas e das cheias sazonais no Vale do Jaguaribe;
- garantia de irrigação para a agricultura;
- desenvolvimento da piscicultura.
Em 2025, o Diário do Nordeste publicou uma série especial de reportagens sobre os 30 anos do início da construção do maior açude do Ceará. O material reconstitui a trajetória que une o Castanhão à antiga Jaguaribara, cidade submersa para dar lugar ao reservatório, resgatando as mobilizações, tensões e memórias que marcaram esse processo.
Conforme mostrado no especial, décadas depois, essa relação ainda desperta sentimentos ambíguos: de um lado, o orgulho de viver na primeira cidade planejada do Estado; de outro, a saudade da antiga sede, com seu cenário típico do interior às margens do Rio Jaguaribe.