Após 7 anos, águas do Orós e Castanhão devem voltar a Fortaleza para evitar desabastecimento

Operação considera cenário indefinido de chuvas no primeiro semestre.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
Vista aérea de uma grande barragem, o açude Castanhão, com um vasto reservatório de água azul, uma usina hidrelétrica liberando um jato forte de água em um rio, e paisagem verde com montanhas ao fundo sob um céu claro.
Legenda: Castanhão envia água à Grande Fortaleza por meio de sistema de canais do Eixão das Águas, hoje em fase de duplicação.
Foto: Divulgação/Cogerh.

As águas do Castanhão e do Orós, maiores açudes do Ceará, devem retornar às torneiras da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) após 7 anos. A destinação emergencial foi definida nesta quarta-feira (4), durante reunião promovida pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), em Quixadá.

Segundo a Companhia, desde 2019, a RMF não depende de transferência hídrica do Castanhão para garantir seu abastecimento. Isso decorre dos bons aportes adquiridos das chuvas nos últimos anos, que garantiram reserva hídrica suficiente. Porém, o cenário de chuvas para este ano é incerto.

Na reunião, a vazão definida para o Castanhão foi de 16 m³/s (16 mil litros por segundo), sendo 6 m³/s (6 mil litros por segundo) destinada à Grande Fortaleza via transferência do Orós, com início em 23 de fevereiro. Porém, em caso de boas chuvas registradas na RMF, a data poderá ser adiada. 

Na prática, a água que chegará à Capital sairá das reservas do Orós - hoje com 70% do volume total acumulado -, passará pelo Rio Jaguaribe, chegará ao Castanhão e, dali, seguir pelo sistema de canais do Eixão das Águas até o Sistema Metropolitano.

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A chamada operação emergencial leva em conta análises técnicas sobre a situação atual dos reservatórios, simulações de operação, projeções climáticas para 2026 e os resultados da liberação de água realizada em 2025. Hoje, os participantes deliberaram sobre as vazões a serem liberadas entre fevereiro e junho de 2026.

O período coincide com a quadra chuvosa no Ceará, que neste ano tem 40% de chances de ficar dentro, 40% abaixo ou 20% acima da normalidade, segundo o prognóstico da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).

O debate envolveu os Comitês de Bacias Hidrográficas do Alto, Médio e Baixo Jaguaribe, Banabuiú e Salgado, que englobam instituições públicas, usuários de água e a sociedade civil, além de gestores e técnicos do Sistema de Recursos Hídricos.

O Castanhão acumula, atualmente, apenas 19,53% das reservas, considerado nível “crítico” (categoria que abrange até 30%).

A operação busca garantir o atendimento às demandas prioritárias, como o abastecimento humano, a irrigação e a perenização dos rios, considerando os volumes armazenados nos açudes e os usos múltiplos da água.

Após o período chuvoso, será realizada uma nova rodada de debates, por meio da Reunião de Alocação Negociada, quando serão discutidas as regras de operação dos reservatórios para o restante do ano de 2026 e se há necessidade de manutenção da medida.

Por que a medida é necessária?

A data limite de 23 de fevereiro prevista para a transferência de água é uma simulação da Cogerh para que o açude Pacoti, um dos principais abastecedores de Fortaleza, perca capacidade de mandar água para a Capital.

Funciona assim: o Sistema Integrado Metropolitano é formado por quatro açudes. Juntos,  Pacajus, Pacoti, Riachão e Gavião têm capacidade de 700 milhões de m³, mas atualmente, estão com volume de 339 milhões de m³, cerca de 47,8% do total.

O Pacoti é o maior deles é considerado o “coração do sistema”, segundo apresentação de Anatarino Torres, gerente de Operações da Cogerh. Porém, hoje, está com apenas 39% da capacidade.

Diagrama explicativo do Sistema Integrado Pacajus-Pacoti-Riachão-Gavião, exibindo as capacidades dos reservatórios, seus níveis percentuais, canais de interligação como o Canal do Ererê e Eixão das Águas, e a conexão com o Castanhão e o Rio Jaguaribe.
Legenda: Sistema Integrado Metropolitano envolve conexões entre os açudes Pacajus, Pacoti, Riachão e Gavião.
Foto: Divulgação/Cogerh.

A água, por gravidade, desce do Pacoti para o Riachão e, deste, para o Gavião - este último a “caixa d’água” de Fortaleza, que precisa estar sempre cheio. Porém, o nível do Pacoti está caindo todo dia, diante do consumo altíssimo da maior população do Estado.

Assim, sem chuvas intensas, há risco real de a água baixar ao nível que não consiga mais passar pelas tubulações, deixando os outros dois açudes também perderem volume. A simulação estimada pela Cogerh é que isso ocorra justamente no dia 23 de fevereiro.

Para evitar esse cenário, a Companhia explicou a necessidade de o açude Pacoti receber aporte de 6 mil litros por segundo, saindo do Castanhão pelo Eixão das Águas. O volume, partindo do Orós, foi aprovado pelos membros da reunião.

Vazões aprovadas para os açudes

Além do Castanhão, Orós e Banabuiú também tiveram aprovadas as operações de liberação de água dos  para o primeiro semestre de 2026:

Orós

O segundo maior do Estado, que passou 70 dias sangrando em 2025, é o que apresenta melhor situação entre os três: 70% de volume, conforme o Portal Hidrológico do Ceará, estando no nível “confortável”.

A vazão definida até junho foi de 8 mil litros por segundo, sendo 2 mil L/s para múltiplos usos em localidades nos municípios de Orós, Icó, Quixelô, Jaguaribe, Pereiro e Jaguaretama, e mais 6 mil L/s para o Açude Castanhão para atender a RMF

Banabuiú

O terceiro maior açude tem 27,49% do total - o último volume semelhante foi em abril de 2023. No mesmo período do ano passado, ele estava com 35,6%.

Para 2026, foi aprovada vazão de 900 L/s, sendo 150 L/s para captação direta no reservatório, 35 L/s para perenização do rio; 15 L/s para Sistemas de Abastecimento Rural e 700L/s para demais usos.

A liberação tem como objetivo atender ao trecho compreendido entre a tomada d’água do Banabuiú até o município de Morada Nova, numa extensão de 78 km. Para a alocação de 2026, já foram consideradas as demandas dos municípios de Banabuiú, Jaguaretama, Solonópole e Milhã, cuja oferta de água será reforçada pelo projeto Malha D’Água.

Recarga dos açudes pode ser difícil

Em tom cauteloso, o diretor de Operações da Cogerh, Tércio Tavares, afirmou que o momento exige decisões estratégicas diante do cenário de incerteza climática. Segundo ele, este é o primeiro ano, desde que assumiu a diretoria, que as chuvas não se mostram “generosas”, criando preocupação sobre a recarga dos principais açudes do Estado. 

Embora os 143 reservatórios monitorados ainda concentrem cerca de 40% da capacidade, Tavares destacou que a irregularidade das precipitações impõe a necessidade de preparação antecipada. 

“As condições poderiam estar melhores, mas não estão, e o próximo ano pode ser difícil”, avaliou o gestor, ao citar a transição de um cenário de similar a La Niña enfraquecida para a possibilidade de El Niño ao fim da quadra chuvosa de 2026.

Tavares ressaltou que a incerteza tem dificultado consensos nas discussões com os Comitês de Bacias, tornando o diálogo ainda mais essencial. 

Nesse contexto, a Cogerh tem buscado alternativas para reforçar os estoques hídricos, como a transposição de água do Projeto de Integração do São Francisco (PISF), apesar do alto custo operacional. 

A expectativa inicial era garantir uma vazão de 10 m³/s para o Açude Castanhão por cinco meses, mas “questões operacionais”, informou ele, reduziram o volume disponível para 2 m³/s, exigindo a reformulação dos cenários de operação. 

Para Tavares, a situação reforça a necessidade de uma gestão plurianual e de decisões racionais para enfrentar um ano que tende a ser desafiador em termos de disponibilidade hídrica.

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