Mulheres do CE têm Floresta como quintal e fonte de renda: ‘Há 50 anos minha mãe plantou aqui’
Quem vê de longe, não percebe. Mas Celi Pinheiro Alves do Nascimento é um ser da mata. Levanta com o sol, prepara café, coleta pequis. Vai para a roça, cuida da família, gosta de acariciar o cachorro. Entre uma atividade e outra, vale-se de um privilégio que pouquíssimas pessoas têm no mundo: olha para o céu e respira o ar do quintal. Paisagem feita de seiva e história, pioneirismo e originalidade. A extensão da Floresta Nacional do Araripe.
É assim há 50 anos na vida da agricultora e artesã. Conhecedora dos trajetos tingidos de verde e calor, embrenha-se nos galhos e parece sumir. Até que retorna, sacola cheia, com parte do que garante trabalho, sustância e a própria sobrevivência. “Morar perto da Floresta Nacional do Araripe é um verdadeiro paraíso. Temos ar puro, o pequi – fonte de renda e de alimento – e qualidade de vida. É maravilhoso”, suspira.
Celi não está sozinha. Com ela, milhares de pessoas dividem o mesmo quintal – algo validado inclusive nacionalmente. Publicada no Diário Oficial da União na última segunda-feira (18), portaria de número 1.830 conferiu reconhecimento institucional inédito a mais de 1,5 mil famílias que utilizam tradicionalmente os recursos naturais da Flona. A ideia, além de mapear esses ajuntamentos, é ampliar o acesso dessas populações, beneficiárias do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA), a políticas públicas.
Ao apresentar a própria realidade ao Diário do Nordeste a partir do lugar de morada – equipe do jornal viajou até o Cariri para conferir os detalhes desse dia a dia – gente feito Celi não apenas abre as portas do lar, como dimensiona a influência da mata na vida e rotina. Afinal, como é ter a Floresta Nacional do Araripe como parte do cotidiano? E por que isso deveria nos interessar, ainda que nossos caminhos possam ser diferentes?
Esta é a segunda e última reportagem do especial “O Canto da Floresta”, no qual o Diário do Nordeste celebra os 80 anos da Floresta Nacional do Araripe ao desbravar as transformações pelas quais passou, os impactos que gera e a diferença que esse canto singular faz na vida de milhares de cearenses, seja no Cariri ou além dele.
Pequi e coco babaçu são palavras essenciais no dialeto de agricultores residentes no entorno da Flona diante da fartura dessas culturas no solo. Outros dos principais produtos do agroextrativismo na região são feijão, milho, mandioca, mangaba e fava d’anta. Celi festeja essa diversidade. Foi por meio dela que alicerçou casa, criou filhos e hoje consegue ver netos ganharem o terreiro, ocuparem o quintal florestal de pés descalços.
Por meio dela também conta história geracional de contato com o solo. Lembra sempre quando colhe os pequis espalhados pelo chão. “Há mais de 50 anos, minha mãe plantou pequizeiros aqui, e eles foram ficando, de geração em geração. Uma maravilha ela ter feito isso, porque ficou para a família, e todos nós amamos pequi. Nesta semana mesmo, mandei para a minha irmã, em São Paulo, mais de 50”, sorri.
“Nunca falta trabalho pra gente. Além do pequi – que tem época própria de colheita – existe o coco babaçu. Com ele fabricamos óleo, biojoias, entre outras coisas, garantindo nossa renda. Também damos entrevista sobre isso, participamos de projetos e cursos do Senai, do Sebrae… É realmente muito bom”.
Não sem motivo, parte do cotidiano da camponesa é descer da altitude onde reside em direção à Associação das Mulheres Rurais do Sítio Macaúba, município de Barbalha, Cariri cearense, a 504 quilômetros de Fortaleza. Lugar sagrado, de compartilhamento de vivências, autonomia, criatividade, e que transforma a paisagem socioeconômica do Ceará.
Como atuam as mulheres da floresta
Quando adentra o portão da Associação de letreiro desgastado e fachada cor-de-rosa, Celi já não está sozinha. Encontra Maria de Nazaré, por exemplo, mais conhecida como Mariinha. Elas trocam um abraço e se revezam para dar conta da sede e dos trabalhos com o coco babaçu junto a outras 45 mulheres. Não é tarefa fácil, embora exista um prazer ali: o da realização conjunta.
“Do coco babaçu, produzimos óleo, pomada, brincos, colares, sabonetes, jogos americanos, além de vários outros produtos. Não se perde nada”, explica Mariinha. O processo de tornar a matéria-prima bruta em artefatos tão úteis e multifacetados é longo, e exige inclusive força física das artesãs. Tudo começa na colheita. Depois, é necessário armazenar a quantidade colhida em lugar seco e arejado para, então, levá-la à máquina de pelagem.
Os próximos passos envolvem passagem por uma prensa, para corte da matéria-prima; máquina de peneira, responsável por separar amêndoas e coco; e separação dos cocos úteis e não-úteis. Depois disso, são de dois a três dias sob o sol para, na sequência, tudo ir para a forrageira ou máquina trituradora. “É dessa forrageira que conseguimos fazer o óleo”, diz.
“Todo o processo demora 15 dias. Mil cocos rendem quatro litros de óleo. Vendemos a R$ 45 cada litro e, depois de todo o passo a passo para produção, aproveitamos o restante do coco para fazer os outros produtos”.
Cada integrante da Associação se reveza para assumir partes diferentes do trabalho, o que confere relevância aos ofícios ali desenvolvidos. Maria de Nazaré recorda da opinião de um estrangeiro sobre as produções. “Um rapaz dos Estados Unidos que veio nos visitar falou que o óleo do coco babaçu era melhor que protetor solar”.
Para se ter ideia, até a casca do coco é aproveitada. Essa parte auxilia na produção de tijolos em uma empresa do Crato. O bagaço proveniente da feitura do óleo, por sua vez, transforma-se em ração para peixes e galinhas. Aproveitamento realmente completo.
“Só vim conhecer o coco babaçu e enxergar potencial nele depois de receber formação por meio de um técnico em Design do Sebrae. Ele veio ensinar como produzir artesanato. Antes, ninguém na região conhecia o coco babaçu com esse nome. Pra gente, era coco morondongo, as pessoas colhiam das palmeiras e simplesmente vendiam. Depois dessa especialização, tudo mudou, veio só melhorando pra comunidade. O destino de nossos produtos agora é certo”.
Associação erguida com mãos de mulher
Criada em 2005 com apoio do GEF Caatinga – projeto do Ministério do Meio Ambiente apoiado pelo Global Environment Facility (GEF), fundo do Banco Mundial (Bird) destinado ao meio ambiente – a Associação das Mulheres Rurais do Sítio Macaúba tem bases mais antigas. Conforme Maria de Nazaré, tudo começou há 35 anos, resultado de esforço coletivo.
Nas palavras da agricultora, apenas mulheres ergueram a sede. “Não entrou nenhum homem”, frisa. “À época, não tinha água encanada, então uma levava um balde d’água, outra levava os tijolos, outra fazia o barro, e assim construímos o lugar onde estamos”.
Quem também recorda esse passo a passo porque esteve presente nele é a mãe de Mariinha, Maria Sagilda de Sousa Carvalho, conhecida como dona Moça. Foi uma das fundadoras da Associação e já assumiu a presidência três vezes, ocupando o posto atualmente. A principal função da casa, gosta de destacar, é apresentar os trabalhos das integrantes.
“Gosto de estar lá agindo, mostrando nosso desenvolvimento, recebendo o povo, ensinando nosso artesanato… A gente vive desses produtos da Floresta, e isso é maravilhoso. Colhemos tudo direto da fonte de uma forma que não agride a natureza”, diz. Os ensinamentos que repassa um dia recebeu da avó, atestando o movimento bonito percebido ao longo de toda a extensão das casas nos arredores da Flona: é tudo repassado de geração em geração.
O maior desafio, assim, além de preservar a mata para que ela siga inspirando ofícios, é não deixar sumir a sabedoria popular. Mais pessoas precisam aprender a desenvolver o ouro da Floresta, e dona Moça está empenhada nisso.
“Vai passando de mão em mão, e a gente não quer que caia. Temos que botar pra frente”.
Para o futuro, não à toa, pensa em comprar uma máquina própria para produzir o sorvete de coco babaçu, algo que considera inovador. Quanto a residir no cenário deslumbrante do verde, é enfática: “Não tem igual, é uma coisa muito boa que temos em nossa comunidade. A Floresta do Araripe fica ‘em frente’ da gente. Temos quatro nascentes no nosso lugar, e aquela água abastece todo mundo. Quando a gente vai pra serra é uma maravilha, tudo acontece dentro da Floresta. É muito bom e importante”.
Chefe do ICMBio Araripe, Carlos Augusto Pinheiro diz que o órgão busca aperfeiçoar a relação com as famílias do entorno das unidades de conservação. Os próximos passos, adianta, almejam evolução nesse segmento. “A partir de uma política de sociobiodiversidade, queremos que cada produto gerado por meio da Floresta Nacional tenha valorização – cultural, mas também dessas famílias que tanto se esforçam para manter a Floresta de pé, promovendo qualidade de vida para as pessoas”.
Reconhecer-se Floresta
O sentimento de orgulho e consolo ao falar da Flona, encontrado na totalidade dos entrevistados por esta reportagem, tem razão e ressonância. Protagoniza até pesquisa. Levantamento da plataforma SISFamílias, desenvolvida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no fim de 2023, aponta que 99,26% das famílias gostam de viver em meio à Floresta, sendo os principais motivos:
- Lugar tranquilo;
- Contato com a natureza;
- Sem violência;
- Ausência de poluição.
Além disso, segundo o mesmo estudo, 86% das famílias se reconhecem como Povos e Comunidades Tradicionais – deste número, 87% extrativistas e 5,3% quilombolas.
Mais: agricultura, extrativismo vegetal não-madeireiro e criação de animais e aquicultura – como se chama a criação controlada de organismos aquáticos para alimentação, repovoamento ou fins industriais – são as principais atividades produtivas mapeadas.
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Dificuldades, contudo, ainda persistem. Do total de famílias consultadas para a pesquisa, 10,93% não têm vaso sanitário no domicílio. Por sua vez, 49,48% não têm acesso à água de maneira adequada segundo o Plano Nacional de Saneamento Básico, e 34, 64% relatam que as mudanças climáticas impactam no abastecimento de água.
Mas Maria de Nazaré insiste em sorrir e cultivar esperança em dias vindouros. Gosta de reconhecer-se floresta. “Morar tendo a Flona como quintal é um privilégio. A qualidade de vida é outra", comemora.
"Aqui na região, para todos que sobrevivem dela, ela está perfeita. Todos temos consciência de que não pode desmatar, de que é preciso colher o coco do chão, na própria palmeira. Não pode derrubar o coco, não pode derrubar o pequi, a caça é proibida e não pode desmatar a mata ciliar ao redor das nascentes. Se não preservar, ficamos sem tudo isso”.
Mãos no chão em busca dos pequis caídos do pé, Celi Pinheiro Alves é igualmente consciente de todos esses processos. Quando questionada sobre o que falaria para as pessoas que insistem em desrespeitar a Floresta, não gagueja. "Nós dependemos da mata. É debaixo da Chapada que tem a água, logo a Floresta Nacional do Araripe é nosso reservatório maior”.
Por isso mesmo, em carta aberta à Flona, permite-se poetizar. Encara a vegetação ao redor e viaja. “Amo essa Floresta. Quero que Deus continue a abençoando, e que nunca tenha queimadas. Me sinto muito bem aqui. Minha mãe falava assim, e eu sou do mesmo jeito: apaixonada”.