Unifor e UFC criam site para detectar substâncias cancerígenas em produtos; veja como usar
Ferramenta Tóxicos ajuda população a descobrir elementos nocivos na composição de alimentos, cosméticos e itens de limpeza.
A Universidade de Fortaleza (Unifor) e a Universidade Federal do Ceará (UFC) se uniram em uma parceria interdisciplinar para criar a plataforma Tóxicos, lançada neste mês. A ferramenta virtual pioneira reúne ingredientes de milhares de alimentos, cosméticos e itens de limpeza do cotidiano, e informa quais deles contêm substâncias que podem causar câncer.
O site gratuito já está disponível para acesso do público por meio do endereço https://toxicosufc.com/. Com interface interativa, possibilita que, em poucos cliques, o usuário descubra se o detergente, a maquiagem ou a carne que consome podem estar aumentando as chances de ele futuramente ser diagnosticado com a condição.
No projeto, cada instituição de ensino assumiu responsabilidades distintas: enquanto a Unifor transformou o estudo em uma ferramenta digital funcional e interativa por meio do grupo de pesquisa Synapse Lab, a UFC idealizou a plataforma e identificou mais de 5 mil elementos através do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM).
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A plataforma surge como um assistente informativo, auxiliando o usuário a observar onde estão os riscos invisíveis, como explica o PhD em Computação e professor da Unifor, Pedro Pinheiro, coordenador tecnológico do projeto e cofundador do Synapse Lab.
O impacto maior é mostrar que dá para viver com aquele produto; só não é para ser utilizado de forma excessiva. [...] O objetivo é mostrar que tem que ter um equilíbrio."
O entendimento de que o propósito é oferecer autonomia ao cidadão na prevenção do câncer é reforçado pelo idealizador do projeto, o médico hematologista e professor da UFC, Ronald Feitosa Pinheiro, coordenador do Laboratório de Citogenômica do Câncer da universidade.
O grande objetivo acaba sendo proteção. [...] A gente não está aqui fazendo alarde de que tudo dá câncer, [mas] ensinando as pessoas a saberem fazer melhores escolhas para a prevenção da sua família.”
Como funciona a plataforma
A iniciativa cruza a composição desses produtos catalogados com substâncias consideradas cancerígenas pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que divide o nível de risco por classificação: grupos 1 (comprovadamente cancerígeno), 2A (provável), 2B (possível) e 3 (não classificado por evidências insuficientes).
Além disso, a ferramenta também considera outros elementos nocivos à saúde, conforme diretrizes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e estudos do Laboratório de Citogenômica do Câncer da UFC, resultando nas seguintes categorias: grupos CR (crítico à saúde), NT (natural), OC (oculto) e AD (ausência de dados).
Apesar da complexidade dos bastidores, a usabilidade da Tóxicos é simples: basta selecionar uma categoria de busca — ingrediente, classificação ou produto —, informar o item e conferir o resultado. Por exemplo, ao pesquisar por “shampoo” na aba de produto, o usuário descobre que ele pode conter “alcohol”, substância associada a tumores da cavidade oral, faringe, esôfago, fígado e mama.
Além da busca nominal, ainda é possível conferir conteúdos educativos, como cards explicativos e seção de tira-dúvidas.
Ferramenta previne câncer ao educar população sobre riscos
Com mais de 100 tipos diferentes, o câncer é considerado uma das principais causas de adoecimento e mortalidade mundial. Segundo projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Ceará deve registrar 32.830 novos diagnósticos anualmente no triênio 2026-2028. A tendência segue as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), que prevê que 1 a cada 5 pessoas terá algum tipo de câncer até 2050.
Diante do cenário, cresce a necessidade de prevenção da doença. Ainda conforme o Inca e organismos internacionais de saúde, pelo menos 30% dos casos de neoplasias malignas podem ser evitados com a adoção de estratégias preventivas, como evitar a exposição a agentes cancerígenos.
Mudar esses hábitos, contudo, esbarra na dificuldade de decifrar rótulos complexos, que misturam letras minúsculas, termos em língua estrangeira e códigos numéricos. É nesse contexto que a nova plataforma atua, transformando a informação científica em um guia prático para o consumidor.
Além de auxiliar o usuário com escolhas mais conscientes, a ferramenta também influenciou os hábitos dos próprios desenvolvedores e membros do projeto, que passaram a repensar o uso de itens da rotina ao descobrirem que esses poderiam ter compostos carcinogênicos — agentes capazes de causar alterações no DNA, estimulando o desenvolvimento de câncer.
Um deles foi o estudante de Ciência da Computação na Unifor, Mateus Lopes Pinheiro. Após atuar como desenvolvedor da ferramenta, passou a memorizar o nome de algumas substâncias tóxicas e avaliar a composição de artigos como a pasta de dente, que pode conter “silica” — diluente comprovadamente associado ao surgimento de câncer de próstata e de pulmão.
“Fiquei surpreso com a quantidade de produtos com substâncias carcinogênicas e, principalmente, com o fato de que muitos deles possuíam ingredientes declarados de forma genérica, sem especificar o componente utilizado”, destaca o universitário, acrescentando que as substâncias não detalhadas estão classificadas no site no chamado grupo “oculto”.
Outra que também mudou de hábitos foi a aluna do curso de Biologia da UFC, Sarah Cristina Carneiro, primeira a ser convidada para o projeto pelo professor Ronald Feitosa Pinheiro. Ao pesquisar e catalogar elementos nocivos em cosméticos, a jovem passou a orientar a família, que tem um histórico de 14 casos de neoplasias malignas, incluindo o da mãe dela, que faleceu em decorrência de um câncer de mama quando a estudante tinha 5 anos.
"Fui avisando para minha família algumas coisas e tentando mudar nossos hábitos, principalmente sobre alguns refrigerantes e doces que têm corante caramelo IV e também cosméticos com componentes cancerígenos, como formol", detalha.
A última substância citada pela discente é um conservante, encontrado em alisantes de cabelo e artigos de beleza, comprovadamente associado a tumores de nasofaringe e seios nasais, além de leucemia. Já a primeira é um aditivo utilizado para dar cor marrom a itens como refrigerantes de cola. Classificado como “possivelmente carcinogênico” pela IARC, há evidências científicas limitadas de que causa câncer de pulmão.
Do consultório à palma da mão
A idealização da Tóxicos nasceu em meados de 2023, no consultório de Ronald Feitosa Pinheiro, que é médico hematologista. Ao conversar com pacientes oncológicos, ele identificou um padrão: a exposição inconsciente a substâncias nocivas no cotidiano. Inquieto com o achado, ele decidiu montar um projeto para investigar os carcinogênicos “escondidos” nos rótulos de itens da rotina.
Com auxílio de uma lupa para decifrar as minúsculas letras dos ingredientes, o professor descobriu, por exemplo, que refrigerantes de laranja podem conter benzeno, solvente comprovadamente associado ao surgimento de alguns tipos de leucemia. Ao inscrever o projeto de pesquisa no CNPq, ele conseguiu o apoio de R$ 40 mil para viabilizar a ferramenta.
Após garantir o financeiro da iniciativa, Ronald Feitosa Pinheiro reuniu um grupo de membros de estudantes pesquisadores para analisar os rótulos de milhares de produtos, começando pelos itens que consumiam na rotina. “Tragam o lixo da sua casa, da sua comida. Tomou um achocolatado? Traz. Tomou um iogurte? traz”, instruiu o pesquisador na época.
Depois de selecionar, decifrar e catalogar mais de 5 mil itens de alimentação, beleza e limpeza, a equipe se deparou com o desafio de transformar os dados em uma ferramenta digital. Para isso, contaram com a parceria do Synapse Lab da Unifor, que foi responsável por compilar as informações e transformá-las em um site interativo e acessível a todos.
Ficou sob nossa responsabilidade pensar em como distribuir essa informação em uma plataforma. [...] Conseguimos pensar e planejar uma melhor forma, tanto visual — no design — quanto em quesito de usabilidade, para facilitar o uso diário de pessoas que não têm conhecimento nem na tecnologia nem na área da medicina em si.”
A parceria entre a instituição privada e a pública é celebrada por Ronald Feitosa Pinheiro. “É um projeto que tem duas universidades, e isso é muito legal, porque às vezes as pessoas veem um aspecto de competição, e o ser humano tem que entender que as coisas são tão difíceis. A gente precisa somar”, ressalta.
A ferramenta atual é apenas o início do projeto Tóxicos, conforme frisam os professores. Um dos planos é seguir multiplicando a base de dados com mais produtos e elementos: “Não quero 5 mil produtos, quero 500 mil, 5 milhões de produtos. A gente vai mapear tudo”, projeta o docente da UFC.
Em relação à parte tecnológica, Pedro Pinheiro detalha que planeja aprimorar algumas funcionalidades do site, além de estudar a possibilidade de transformá-lo em aplicativo para dispositivo móvel. “Vão ser facilidades que vão, por exemplo, [possibilitar] bater a foto do produto e já detectar os ingredientes. Também está sendo analisada a aplicação de uma inteligência artificial para auxiliar”, adianta o pesquisador da Unifor.
Passo a passo para usar a plataforma Tóxicos
- Acesse o endereço eletrônico https://toxicosufc.com/;
- Escolha qual a categoria de busca, entre as três disponíveis (ingrediente, classificação ou produto);
- Caso opte por pesquisar por ingrediente ou produto, basta digitar a nomenclatura que deseja na barra de busca e, então, clicar sobre o termo na seção abaixo;
- Após selecionar um card surge na tela. É nele que o usuário confere a classificação do elemento, a quais cânceres está associado e em que itens pode estar presente;
- Já se for buscar por classificação, o internauta pode navegar pelos níveis de risco e descobrir quais produtos e substâncias pertencem a cada uma das categorias.