Jovem tratado com polilaminina no CE ficou paraplégico ao ser baleado na porta de casa: ‘estou esperançoso'
Substância ainda está em fase de estudos e foi aplicada em caráter experimental.
Há seis meses, Nicolas Henrique Lima Dantas, de 20 anos, viu a vida ser transformada em um piscar de olhos. O jovem, morador de Fortaleza, foi atingido por um tiro na porta de casa em dezembro de 2025, passou 29 dias internado e recebeu alta do Instituto Dr. José Frota (IJF) com o diagnóstico de paraplegia.
No último sábado (23), ele retornou ao hospital para participar de um procedimento inédito no SUS do Ceará: a aplicação de polilaminina, medicamento experimental para o tratamento de paraplegia e tetraplegia –- embora ainda esteja em fase de testes e estudos clínicos.
“Só em estar vivo eu já agradeço”, diz Nicolas, mas ele deseja mais. “Se Deus quiser, se caso eu voltar a andar, mexer os pés direitinho, porque estou com bastante esperança, quero conseguir voltar a dirigir como antes”, afirma em entrevista ao Diário do Nordeste na tarde desta terça-feira (26).
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A substância, que ganhou repercussão nacional após resultados preliminares serem divulgados em 2024, é um composto recriado em laboratório a partir de uma proteína produzida no corpo humano chamada laminina, que exerce papel crucial na organização dos tecidos e no crescimento celular.
O uso experimental do medicamento é feito por meio de uma pesquisa da cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que busca provar a capacidade da substância de tratar lesões medulares agudas, ou seja, que tenham acontecido há pouco tempo e deixado as pessoas sem os movimentos.
O incidente de Nicolas aconteceu em 20 de dezembro de 2025, quando ele chegava do trabalho por volta de 23 horas e esperava a mãe abrir o portão de casa, no bairro Planalto Ayrton Senna.
O jovem estava na calçada com o irmão, Christian Lima Dantas, 18 anos, e outros conhecidos quando uma dupla passou de moto pela rua efetuando disparos de arma de fogo. Na época, Nicolas atuava como motorista de aplicativo.
“Eu tentei correr e caí. O tiro pegou nas costas e saiu no peito”, afirma Nicolas. “Eu e meu irmão, que foi baleado no joelho, fomos direto para a UPA. Quando cheguei lá, eu estava praticamente desfalecendo”. O jovem teve duas paradas cardíacas e foi transferido para o IJF em estado crítico.
Luta pela polilaminina
Ainda durante a internação, uma amiga informou à família sobre a existência da polilaminina quando soube da lesão medular sofrida por Nicolas. Com a ajuda dela, o jovem começou a reunir laudos para solicitar o uso da substância. Como o medicamento ainda está em fase de testes e estudos clínicos, foi preciso entrar com uma ação judicial para ter acesso.
A intervenção com o medicamento foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) seguindo as regras do uso compassivo previstas na RDC nº 38/2013, ou seja, destinado a pacientes graves e sem alternativas terapêuticas no país, com o uso de drogas experimentais em caráter individual.
“Eu achei que ia ser bem difícil conseguir. Pelo fato de ter passado esse tempo internado, ter recebido o diagnóstico, a pessoa quer se esforçar para acreditar que pode acontecer, mas é bem difícil”, disse Nicolas.
No último sábado (23), Nicolas voltou ao IJF para receber a aplicação da polilaminina. A cirurgia durou uma hora e consistiu na infusão da substância diretamente na medula, acima e abaixo do nível da lesão da vértebra T8.
Coordenado pelo neurocirurgião Lucas Chaves, o procedimento envolveu outros oito profissionais do hospital, além de um médico do Laboratório Cristália — que produz o medicamento — e um médico pesquisador ligado ao estudo clínico da UFRJ.
O paciente recebeu alta no dia seguinte e agora deve seguir realizando as sessões de fisioterapia que já estavam fazendo parte da rotina desde o incidente. Nicolas também continuará sendo acompanhado periodicamente pelos profissionais do IJF.
Adaptações e esperança para o futuro
Nicolas vive com a mãe, Crislene Lima, de 37 anos, o padrasto Lucas Samuel, 28, e os irmãos mais novos Christian, 18, e Sofia, 8. A residência precisou passar por adaptações para uma melhor mobilidade do jovem, como a construção de rampas de cimento para a cadeira de rodas e um quarto para Nicolas na entrada do imóvel.
Antes do ocorrido, ele conta que serviu ao Exército e era ativo na renda da família, trabalhando como motorista por aplicativo e com outros serviços informais. Hoje, o jovem recebe auxílio-doença e está aprendendo a lidar com as transformações.
“[A cadeira de rodas] não é nada que me impeça de fazer as coisas, mas me limita bastante, fica mais difícil, bem mais difícil às vezes [...] Uma coisa que parece simples, já não é tão simples. Algo que você conseguia fazer sozinho, eu já preciso de uma ajuda. Graças a Deus, é ter fé, força e vontade”
O apoio de familiares e amigos é fundamental para o tratamento médico. É o padrasto de Nicolas, Lucas Samuel, que o acompanha nas sessões de fisioterapia. O deslocamento é feito em um carro emprestado pelo tio. Uma amiga arranjou a cadeira de rodas que Nicolas utiliza hoje, além de doações de sondas e fraldas.
“O que eu digo para ele é que tem de ter força de vontade, que tudo só depende dele. O Nicolas tem eu, tem a mãe para ajudar no que for, mas para ele voltar a andar e ter a independência dele só vai depender dele”, diz Lucas.
Uma das motivações para continuar se dedicando aos tratamentos é voltar a dirigir. “Eu rodava bastante Fortaleza, todo buraco eu estava entrando por causa do trabalho. Estou esperançoso para conseguir voltar a dirigir como antes ou então adaptar um carro e poder andar por aí de novo”, conta Nicolas.
O jovem deseja também voltar a frequentar a praia, o que ainda não foi possível neste período de adaptação às novas limitações. “Por conta da autoestima. Eu não controlo minha bexiga, não controlo meu intestino, estou de fralda, que é uma coisa bem difícil. Mas vai dando certo. De pouquinho em pouquinho vai dando certo.”