A cidade também adoece

O sofrimento mental não nasce apenas dentro das pessoas; ele também revela a qualidade dos laços sociais, comunitários, culturais e das políticas públicas.

Escrito por
Adalberto Barreto ceara@svm.com.br
Foto: Reprodução/Shutterstock

Há uma pergunta que prefeitos, gestores públicos, profissionais de saúde e cidadãos precisam fazer com urgência: que tipo de cidade estamos construindo? Uma cidade que aproxima ou que isola? Que escuta ou que silencia? Que cuida ou que abandona? O sofrimento mental, tantas vezes tratado como problema exclusivamente individual, é também um retrato da vida coletiva. Ele aparece no medo de sair de casa, na solidão dos idosos, na ansiedade dos jovens, no esgotamento dos trabalhadores, na desesperança das famílias e no vazio de comunidades que perderam seus espaços de encontro, cultura e pertencimento.

O lado sombrio da evolução da sociedade

Quando reduzimos a saúde mental ao consultório, ao diagnóstico ou ao remédio, corremos o risco de esquecer que ninguém adoece fora de uma história, de uma família, de uma vizinhança, de um território e de uma cultura. O cuidado clínico é necessário e, em muitos casos, salva vidas. Mas ele não pode ser a única resposta a sofrimentos que nascem também da violência, da pobreza, do luto, da fome, do racismo, do desemprego, da intolerância, da destruição ambiental e da perda de confiança nas instituições.

A cidade também adoece; e, quando adoece, adoece junto com seus moradores.

Vivemos uma época paradoxal

Nunca tivemos tanta tecnologia para nos conectar e, ao mesmo tempo, tanta gente se sente só. Nunca tivemos tanta informação disponível e, ainda assim, cresce a desinformação. A expansão econômica e tecnológica trouxe conquistas inegáveis, mas também acelerou modos de vida que fragilizam relações, estimulam a competição permanente e corroem a solidariedade. Incêndios, enchentes, guerras entre facções, insegurança alimentar, violência doméstica e precarização do trabalho não deixam apenas prejuízos materiais. Deixam traumas coletivos, marcas silenciosas e feridas que se acumulam nas casas, nas escolas, nas unidades de saúde e nos bairros.

O que nos revelam os números?

Os números apenas confirmam aquilo que as comunidades já percebem no cotidiano. O Brasil é frequentemente apontado pela Organização Mundial da Saúde como um dos países com maior prevalência de transtornos de ansiedade, e os afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais cresceram de forma expressiva nos últimos anos. Esses dados não falam de pessoas abstratas. Falam de professores, agentes comunitários, profissionais de saúde, servidores municipais, estudantes, mães, pais, jovens e idosos que vivem nas nossas cidades. Falam também de quem cuida dos outros e, muitas vezes, não encontra onde cuidar de si.

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Ampliar o cuidado

É indispensável reconhecer a importância dos CAPS, da atenção primária, da psicologia, da psiquiatria, da enfermagem e da assistência social. Mas também é preciso admitir que um modelo centrado apenas na contenção dos sintomas é insuficiente. O remédio pode ser necessário, mas não substitui o acolhimento. A consulta pode ser fundamental, mas não substitui a presença. A técnica é importante, mas não substitui a escuta, a vizinhança solidária, a roda de conversa, a festa popular, a arte, a brincadeira, a fé compartilhada e os saberes tradicionais de cuidado.

Considerar as sinapses cerebrais e as sinapses sociais

Adoecemos não apenas por alterações neuroquímicas ou por problemas nas sinapses cerebrais. Adoecemos também quando se rompem as “sinapses sociais”: as conexões afetivas, familiares, comunitárias, culturais e espirituais que dão sentido à existência. Não há comprimido capaz de substituir o abraço, a confiança, o pertencimento, a palavra acolhida sem julgamento. Uma política pública madura precisa compreender essa dimensão: saúde mental se produz também na praça, na escola, na UBS, no CRAS, no CAPS, na associação de moradores, na igreja, no terreiro, no campo de futebol, no equipamento cultural e nos espaços de participação popular.

Sem cultura não há identidade

No Ceará, essa compreensão encontra exemplos vivos. A cultura popular nunca foi apenas entretenimento; ela é tecnologia social de pertencimento. O cordel, o forró, o coco, o reisado, o maracatu, a capoeira, as quadrilhas juninas, as rezadeiras, os mestres e mestras da tradição guardam formas de elaborar dores, transmitir valores, celebrar resistências e reconstruir laços. Sem cultura, a identidade se dissolve. Sem identidade, a pessoa se sente estrangeira em sua própria terra. E quem se sente sem lugar no mundo adoece com mais facilidade.

A aranha sem a teia é como um individuo sem seus relacionamentos

Entre os Tremembé, a imagem da aranha e de sua teia nos oferece uma lição simples e profunda: ninguém vive isolado. A aranha sem a teia é frágil; o indivíduo sem seus relacionamentos também. A teia simboliza a rede de solidariedade que sustenta, protege e dá direção. Quando a comunidade se reúne, escuta, canta, dança, celebra e partilha experiências, ela refaz a rede que permite sobreviver e prosperar. Talvez uma das tarefas mais urgentes da gestão pública seja justamente ajudar a retecer essas redes.

Foi dessa visão que nasceu, em Fortaleza, uma contribuição brasileira reconhecida dentro e fora do país: a Terapia Comunitária Integrativa. A partir da experiência do Projeto 4 Varas, na Barra do Ceará, e da trajetória extensionista da Universidade Federal do Ceará, a TCI propõe rodas de escuta e partilha nas quais as pessoas deixam de ser vistas apenas como portadoras de problemas e passam a ser reconhecidas como portadoras de saberes, recursos e soluções. É uma metodologia circular, horizontal e comunitária, que acolhe a dor sem transformá-la automaticamente em doença.

A terapia Comunitária Integrativa

Nas rodas comunitárias, ninguém é reduzido ao diagnóstico. A pessoa fala de seu sofrimento, escuta a experiência do outro, percebe que não está sozinha e descobre caminhos possíveis a partir da própria comunidade. Esse movimento não substitui o atendimento especializado quando ele é necessário; amplia a rede de cuidado. Em vez de produzir dependência exclusiva de especialistas, fortalece autonomia, corresponsabilidade e apoio mútuo. É uma forma de cuidar que articula conhecimento científico, saber popular, cultura, espiritualidade e convivência.

A TCI amplia a rede de cuidado

Cuidar da saúde mental, portanto, é cuidar de mim, do outro, da comunidade e do planeta. É reconhecer que a destruição ambiental, a desigualdade social, a violência urbana, a fome e a precarização do trabalho também adoecem.

É entender que a promoção da saúde não cabe apenas em campanhas de ocasião, nem pode depender somente de respostas emergenciais. Ela precisa fazer parte do planejamento permanente dos municípios, com orçamento, metas, indicadores e integração entre saúde, educação, assistência social, cultura, esporte, juventude, segurança cidadã e meio ambiente. Os gestores municipais, nesse cenário, tem papel decisivo.

Fotografia de perfil de um homem de meia-idade ou idoso, com traços indígenas ou latinos, trabalhando em uma plantação. Ele veste uma camisa polo branca e um chapéu de palha de abas largas, e está com o olhar concentrado para baixo, segurando um fruto de cacau maduro e amarelo na mão esquerda. O homem está cercado por árvores de cacau, com folhas verdes exuberantes em primeiro plano e ao fundo, criando um efeito de moldura natural. A iluminação é suave e filtrada pelas árvores, destacando o ambiente agrícola.
Foto: Reprodução/Shutterstock.

Se o município ainda não dispõe de serviços especializados suficientes, deve buscar habilitação, financiamento e apoio técnico. Se já dispõe, precisa qualificar o atendimento e integrá-lo à atenção primária, às escolas, aos CRAS e aos territórios. A maioria dos sofrimentos aparece primeiro no cotidiano: na sala de aula, na unidade básica, na visita do agente comunitário, no atendimento social, na conversa com o vizinho. É ali que a rede precisa estar preparada para acolher, identificar riscos e encaminhar quando necessário.

É urgente cuidar de quem cuida

Também é urgente cuidar de quem cuida. Profissionais da saúde, da educação, da assistência social e da segurança convivem diariamente com sofrimento, perdas, violências e demandas crescentes. Quando não encontram espaços de apoio, escuta e elaboração emocional, adoecem. A formação continuada não deve se limitar à transmissão de técnicas; precisa incluir acompanhamento, autocuidado, fortalecimento das habilidades afetivas e espaços coletivos de partilha. Quem cuida do outro revisita a própria história. Sem apoio, a missão de cuidar pode se transformar em exaustão.

O prefeito, portanto, tem papel decisivo

O caminho é claro: criar programas permanentes de cuidado ao servidor público; organizar comitês intersetoriais de saúde mental; implantar rodas de Terapia Comunitária Integrativa em escolas, UBS, CRAS e bairros; mapear práticas culturais e comunitárias; financiar atividades de convivência; apoiar grupos em territórios vulneráveis; valorizar práticas integrativas; e fortalecer equipamentos culturais. São medidas de baixo custo relativo e alto impacto social, especialmente quando deixam de ser iniciativas isoladas e passam a integrar a política pública municipal.

A importância de promover saúde

Não se trata de negar a clínica, nem de substituir medicamentos, psicoterapia ou serviços especializados. Trata-se de recolocar cada coisa em seu devido lugar. O sofrimento humano tem dimensões biológicas, psíquicas, sociais, culturais, econômicas e espirituais. Quando o Estado oferece apenas remédio, trata parte do problema. Quando oferece escuta, vínculo, cultura, proteção social, educação, participação e cuidado em rede, começa a promover saúde.

Que cidade queremos para nossos filhos?

A pergunta permanece: que cidade queremos deixar para nossos filhos? Uma cidade que isola, silencia e adoece, ou uma cidade que escuta, aproxima e cuida? Onde há vínculo, há proteção. Exige reconstruir vínculos, fortalecer a cultura, proteger os cuidadores, apoiar as comunidades e transformar o cuidado em política pública permanente. Onde há cultura, há identidade. Onde há escuta, há esperança. E onde há comunidade, a saúde mental deixa de ser apenas tratamento da doença para se tornar promoção da vida. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.