Música e artes na sala de aula elevam notas de Português e Matemática em escolas, revela estudo

No Ceará, mais da metade das instituições da rede pública possuem materiais pedagógicos de música ou arte.

Estudante faz prova de matemática em sala de aula.
Legenda: No Ceará, o aprendizado de Matemática é considerado crítico para adolescentes da rede pública.
Foto: KinoMasterskaya/Shutterstock.

O uso de materiais de música e arte nas escolas contribui para o melhor aprendizado de Matemática e Português, na redução de desigualdades estruturais e no fortalecimento do vínculo dos alunos com o ambiente escolar no Brasil. Nessas instituições, há ganhos de até 5% na proficiência das disciplinas e menores taxas de distorção idade-série, reprovação e abandono. 

As informações foram relevadas pela coletânea de estudos “Intersetorialidades: Evidências em arte, cultura e educação”, divulgada nesta terça-feira (16) em um seminário realizado em Brasília. O documento é fruto de um Acordo de Cooperação Técnica entre Ministério da Educação (MEC), Ministério da Cultura (MinC), Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e Fundação Itaú.

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Em geral, a publicação aponta que as escolas com uso de música e artes apresentam taxas ligeiramente mais baixas de reprovação e abandono. O destaque está nos números das instituições de nível socioeconômico mais baixo, compreendidas entre os grupos I e II no Indicador de Nível Socioeconômico (Inse). 

Nestas unidades, as iniciativas culturais geraram uma redução expressiva da distorção idade-série nos anos finais do Ensino Fundamental — que foi de 6,80% nas escolas com materiais de arte/música contra 7,73% nas demais. 

A distorção idade-série indica o percentual de estudantes com dois ou mais anos de atraso escolar, resultando de reprovações e abandono.

Dados do Censo Escolar reunidos pela pesquisa demonstram que, entre 2019 e 2024, o índice de escolas com acesso a materiais pedagógicos de música ou artes aumentou de 36% para 45,1%. No Ceará, a proporção saiu de 45% para 52% no mesmo período. São 2.369 escolas das redes estadual e municipal do Ceará que utilizaram materiais pedagógicos de música ou artes em 2024. 

“A arte permite com que você também tenha a sua própria interpretação, que traga a sua visão de mundo. Isso possibilita que você abra a sua cabeça para o processo de aprendizagem”, destaca Carla Chiamarelli, gerente do Observatório Fundação Itaú, em entrevista ao Diário do Nordeste.

Ela completa que, “às vezes, a rigidez da aprendizagem de um componente tradicional impede, muitas vezes, de olhar o indivíduo e as formas variadas que existem de aprender”.

Para Fabiano Piuba, atual secretário de Formação, Livro e Leitura do MinC e ex-secretário da Cultura do Ceará, “sem a arte e sem a cultura, a conta da educação não vai bater nunca. Ou seja, a cultura melhora o  Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB)”.

O volume II da coletânea, nomeado de “Aprendizados a partir de análise dos dados de cultura e educação”, apresenta um diagnóstico das últimas três edições do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), avaliando a proficiência de alunos do 5º e do 9º ano do Ensino Fundamental, o Censo Escolar e o Inse.

Conforme a gerente, os dados levantados nessas bases oficiais “trazem o desejo de investigar mais, que é o que faremos”. Ela revelou que está sendo realizada uma avaliação de impacto com a Tapera das Artes, associação localizada em Aquiraz cujos projetos são voltados ao desenvolvimento social de crianças, adolescentes e jovens. “Em breve a gente vai ter o resultado dessa investigação”, conta a gerente.

CE tem situação ‘crítica’ no aprendizado em Matemática

Apesar dos números positivos, o cenário cearense em relação ao processo de aprendizado de Matemática é preocupante. O resultado do Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (Spaece) de 2024 revelou que mais da metade dos alunos da rede pública cearense termina o Ensino Fundamental (EF) com desempenho “muito crítico” ou “crítico” em matemática.

24% dos estudantes que concluíram o 9º Ano do EF em 2024 atingiram nível “muito crítico” em matemática, enquanto 29% finalizaram a série com nível “crítico”. 

Por outro lado, no contexto do 5º ano do Ensino Fundamental, o levantamento mostra que 80,2% dos estudantes tiveram desempenho “intermediário ou adequado”, enquanto os que finalizaram essa série com nível “muito crítico ou crítico” representavam quase 20%.

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Para Tereza Santos Farias, diretora de Políticas e Diretrizes da Educação Integral Básica do Ministério da Educação (MEC), as evidências que o estudo traz reforçam a percepção de que o currículo escolar deve ser integral, unindo artes e cultura à proficiência acadêmica. Esse pode ser um caminho, inclusive, para melhorar os índices educacionais

“A gente fica muito feliz em conseguir trazer a cientificidade dessas evidências para priorizar ainda mais as estratégias de organização curricular da educação integral e do estabelecimento de mais parcerias, como no contexto do programa escola em tempo integral, para conseguir trazer mais arte e cultura para as escolas. Entendendo que agora a gente tem evidências que mostram que elas são promotores de mais aprendizagem para os estudantes”
Tereza Santos Farias
diretora de Políticas e Diretrizes da Educação Integral Básica do MEC

Parceria entre cultura e ensino

O Ceará participou do estudo Intersetorialidades com duas iniciativas: a Escola Livres de Cultura, do programa Escolas de Cultura, na categoria “políticas públicas institucionalizadas”, e a Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri, na categoria “experiências de equipamentos culturais”.

Segundo a coletânea, o Estado é umas principais referências na articulação de ações culturais que potencializam o desempenho educacional de estudantes em idade escolar. É o que concorda Carla Chiamarelli. 

“O Ceará sai à frente porque prioriza a arte e cultura. Para além de só garantir, talvez dentro da escola, existe um sistema estadual de cultura. Então, o Estado tem intencionalidade nas ações que propõe. Ele consegue articular e gerir, fazer uma ação articulada colaborativa com os municípios”, reforça a gerente da Fundação Itaú.

Estudantes vestindo camisas amarelas pintam um mural colorido em uma parede externa, como visto em Programa Escolas de Cultura do Ceará.
Legenda: A iniciativa oferece formação em níveis e formatos variados, como cursos livres, profissionais técnicos e acadêmicos.
Foto: Reprodução/Governo do Estado do Ceará.

Institucionalizado via lei estadual em 2022, o Programa Escolas de Cultura do Ceará visa promover espaços formativos diversos em arte e cultura por meio de cursos alinhados às expressões culturais e vocações dos territórios. A iniciativa oferece formação em níveis e formatos variados, como cursos livres, profissionais técnicos e acadêmicos.

O modelo cearense foi uma referência importante para a formulação do Programa Nacional de Escolas Livres de Formação em Arte e Cultura, do governo federal, instituído no ano de 2025, através da Instrução Normativa Nº 24/2025.

Já a Fundação Casa Grande (FCG), que abriga o Memorial do Homem Kariri, é uma instituição cultural sem fins lucrativos que articula memória, patrimônio e educação. Tem como foco o desenvolvimento comunitário e o protagonismo das crianças e adolescentes.

Localizada em Nova Olinda (CE), a FCG atua a partir da valorização da história do povo Kariri e da Chapada do Araripe, integrando arqueologia, tradição oral e empreendedorismo social. A instituição tem, atualmente, seu funcionamento custeado por financiadores públicos e privados, além de programas de turismo comunitário e mobilização de benfeitores locais e internacionais.

O público da fundação vai desde crianças a partir dos três anos a jovens, mães, professores, turistas e universitários. Por isso, oferece programas de Educação Infantil, profissionalização de jovens, empreendedorismo e geração de renda familiar.

Como foi feito o estudo

Composta por quatro volumes, a coletânea de estudos ‘Intersetorialidades’ foi elaborada a partir de um Acordo de Cooperação Técnica firmado entre o Ministério da Educação (MEC), o Ministério da Cultura (MinC), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e a Fundação Itaú. 

O primeiro volume, intitulado Estudo para a construção de políticas públicas de arte, cultura e educação, resulta do Policy Dialogues in Focus, realizado pela Fundação Itaú, Ministério da Educação e Ministério da Cultura, em parceria com o Education Policy Outlook da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

Evento sobre a pesquisa Intersetorialidades, com Tereza Santos Farias, Fabiano Piúba, Carla Chiamarelli e Ana Maria Cardoso.
Legenda: Tereza Santos Farias, Fabiano Piúba (ex-secretário da Cultura do Estado do Ceará e atual secretário de Formação, Livro e Leitura do MinC), Carla Chiamarelli e Ana Maria Cardoso na apresentação do estudo.
Foto: Mário Agra/Divulgação.

Ele reúne evidências, análises comparadas do contexto brasileiro e mapeia políticas internacionais intersetoriais, contemplando diálogos entre especialistas e gestores públicos.

O segundo volume, Aprendizados a partir da análise dos dados de cultura e educação, analisa bases de dados educacionais e culturais e apresenta diversos estudos estatísticos.

Já o terceiro volume, Mapeamento de experiências em arte, cultura e educação, reúne sete iniciativas nacionais e uma internacional que atuam na intersecção entre arte, cultura e educação.

Por fim, Estudos de caso em arte, cultura e educação no Brasil, desenvolvido com apoio técnico da Tomara! Educação e Cultura, aprofunda cinco experiências nacionais selecionadas a partir do mapeamento para sistematizar os aprendizados dessas iniciativas.

*A repórter viajou para Brasília a convite da Fundação Itaú.

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