Como lidar com o luto coletivo após tragédias como a morte de 7 atletas no CE

Especialistas explicam que a comoção social leva as pessoas à refletir sobre o processo de morte e a identificação com as histórias.

Pessoas se reúnem em um ginásio para prestar homenagens diante de um caixão, com destaque para um homem de camisa esportiva de costas.
Legenda: No velório coletivo realizado do Ginásio de Juazeiro do Norte, diversos familiares, amigos e moradores da cidade prestaram as últimas homenagens às vítimas.
Foto: Ismael Soares.

Desde o amanhecer de segunda-feira (15), a cidade de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, vive um processo de luto coletivo. A dor da perda dos 7 atletas vítimas de um acidente de ônibus é um fenômeno emocional que atingiu até mesmo aquelas pessoas que não conviviam diretamente ou conheciam os jovens.

Resposta natural à perda de um ente querido ou de algo significativo, o luto é entendido como um processo individual, no qual cada pessoa possui o tempo necessário para vivê-lo. Contudo, em situações de mortes trágicas, como o falecimento dos jovens do time Basquete Juazeiro do Norte, a dor se estende à sociedade. 

“O luto individual expressa a frase ‘eu perdi’, enquanto o coletivo diz ‘nós perdemos’”, explica Cristina de Oliveira, psicóloga especialista em Tanatologia, estudo científico da morte, em entrevista ao Diário do Nordeste.

⚠ ️ Atenção! O texto a seguir pode conter gatilhos emocionais. Se você considera que necessita de atendimento psicológico ou psiquiátrico, ou tem pensamentos suicidas, busque ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV), por exemplo, oferece apoio através de chat na internet ou pelo telefone 188.

Conforme a coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Federal do Cariri (UFCA), Liana Esmeraldo, uma notícia trágica gera sentimentos como choque, tristeza e manifestação de atos de solidariedade em integrantes da comunidade que não tenham laço social prévio com as vítimas. 

Essa comoção social diante desse tipo de fatalidade acontece porque leva as pessoas a refletirem sobre a finitude da vida. É o que destaca a psicóloga e professora do Curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece) Layza Castelo Branco. 

“Nós não estamos habituados a fazer isso diariamente. Sabemos de uma forma lógica que vamos morrer e que pessoas que nós amamos vão morrer, mas não paramos para pensar nisso no dia a dia [...] Com isso, as pessoas ficam mais alertas no sentido de cuidar de si, do outro. Elas passam a vivenciar essa reflexão de forma indireta”, explica. 

Pétalas caem sobre caixão em ginásio, com pessoas ao redor em momento de comoção.
Legenda: No fim do velório coletivo, pétalas de rosas caíram sob os caixões, em momento de forte comoção.
Foto: Ismael Soares.

Além disso, há um processo de identificação dessas pessoas com a situação. “Eram garotos que tinham toda uma vida pela frente. É possível que as pessoas se identifiquem e pensem no quanto elas também não gostariam que acontecessem com elas ou com quem amam. Gera uma dor social mesmo”, detalha Layza. 

Há também o fato da jovialidade das vítimas, segundo Cristina. “A morte de jovens pode trazer às pessoas o sentimento de estranheza, de incompreensão, de “porque eles?”. Acontece que, consciente ou inconscientemente, confia-se no ciclo da vida. São os filhos que devem enterrar os pais e não os pais que devem enterrar os filhos. Então, surge em todos o sentimento de que aconteceu algo anti-natural e isso amplifica a dor e pode ser traduzido pelo nome tragédia”, explica. 

É preciso elaborar a perda, dizem especialistas

As psicólogas ouvidas pela reportagem reforçam que o luto deve ser vivido profundamente porque ele tem a função de ajudar a elaborar as perdas e dar seguimento à vida. Nesse sentido, locais que tinham uma função passam a exercer outra, como o que aconteceu com o Ginásio Poliesportivo de Juazeiro do Norte.

O espaço recebeu, nesta terça-feira (16), cerca de 5 mil pessoas estiveram presentes no velório coletivo, incluindo amigos, colegas, professores, gestores e moradores da cidade. A equipe de reportagem do Diário do Nordeste esteve no Cariri e pode perceber que a angústia e o pesar são nítidos nas expressões da população.

Para Liandra Esmeraldo, esse foi um momento de 'partilha e apoio mútuo', onde a dor pela perda de jovens tão promissoras foi vivenciada coletivamente. "O luto coletivo vai encontrar alívio à medida que a dor de cada um é canalizada por ações comunitárias, como os atos de homenagem, rodas de conversa para falar sobre. Isso tudo ajuda nesse momento de catarse da dor", afirma. 

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No entanto, Layza salienta a necessidade de ter um momento particular no luto. "É importante preservar a privacidade dessas famílias que estão profundamente sofridas e que precisam de espaço para viver o luto delas [...] A sociedade pode sentir a comoção, refletir sobre as próprias vidas e histórias, mas é preciso permitir que os mais próximos possam cuidar de si, de forma mais reservada".

Cristina detalha que, durante o processo de elaboração do luto, algumas pessoas querem estar rodeadas de outras pessoas, outras preferem o silêncio e a solidão, o que deve ser respeitado. 

“O luto não tem regra, roteiro ou tempo. Pode durar dias ou anos, pode afetar profundamente pessoas que sequer conheciam os que se foram. Então, o que você pode fazer é deixar a pessoa saber que você está disponível para ela, quer ela queira falar, quer ela queira ficar em silêncio”
Cristina de Oliveira
psicóloga e tanatóloga.

Mesmo sentindo a dor da perda, Layza orienta que a população possa respeitar a dor das famílias e ajudar no caso a partir da responsabilidade social. “Enquanto coletivo, é eficiente que a gente se posicione e cobre da sociedade transformações de situações que poderiam ter sido evitadas, como o acidente”, expõe.

“Se estou me sentindo comovida, mas não conheço a família, eu posso me juntar a outras pessoas para lutar por melhores sinalização no trânsito, por tecnologias dos transportes rodoviários mais eficientes”, desenvolve a professora da Uece.

'Ainda há muito o que cuidar das pessoas'

Pais, familiares e amigos precisarão de ainda mais cuidados a partir de agora, segundo a psicóloga. No velório coletivo, a Secretaria de Saúde de Juazeiro do Norte ofereceu atendimento psicológico, assistência social e suporte emergencial às famílias afetadas. 

Para Layza, é fundamental que esse atendimento seja disponibilizado de forma contínua e não apenas pontualmente. “É cuidar da continuidade dessa dor que vai ficar, do processo de luto que precisa ser elaborado e que não é rápido. É preciso que, de forma coletiva, eles possam ser acolhidos”, salienta. 

Enquanto esteve em Juazeiro do Norte, a equipe de reportagem do Diário do Nordeste acompanhou as homenagens no ginásio, nas escolas e nas ruas da cidade. O treinador do time e sobrevivente do ocorrido, Ricardo Lemos, relatou que “nunca quis ver essa quadra dessa forma”. 

Professor fala em missa.
Legenda: "Não sei explicar o sentimento que eu estou tendo agora, de estar aqui, representando a nossa equipe, porque eu trocaria a minha vida pelo lugar daqueles meninos ali", disse o professor.
Foto: Ismael Soares.

“As coisas que eu vi naquele ônibus não foram legais. A única coisa que eu tenho que fazer é passar pelo luto, rezar por todos eles”, disse Saul Barbosa, membro da delegação que resistiu ao acidente, ajudou a retirar feridos e a chamar por socorro. 

Os sobreviventes precisam de um olhar especial, uma vez que vão carregar consigo ao longo da vida memórias traumáticas que podem ser “elaboradas e encaminhadas para que as consequências do trauma sejam amenizadas”, afirma Layza.  

“O luto não é um processo essencialmente solitário, ele é a expressão de um amor e de um vínculo. A cidade precisa fazer coisas para expressar esse amor pra que a dor diminua e aprender que embora os olhos não possam mais ver fisicamente os jovens que se foram", destaca Cristina.

A professora da Uece, Layza, sugere que o cuidado seja feito de forma coletiva pois, individualmente, é mais difícil que procurem por ajuda. “Falar dói, machuca. É como uma ferida física que temos que mexer porque é necessário para poder tratar. Dói no instante que estamos cuidando e é difícil enfrentar isso sozinho. Por isso o cuidado coletivo encoraja as pessoas a falarem da dor”, reforça. 

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Em complemento, Liandra Esmeraldo detalha que estas pessoas podem desenvolver reações como isolamento, alterações no desempenho escolar, crises de ansiedade, pânico, medo, irritabilidade ou sentimentos de culpa. No caso dos jovens alunos, “a escola deve ser e promover um espaço seguro e de escuta a esses estudantes”. 

Segundo informações apuradas pela reportagem, as aulas nas instituições de ensino estão paralisadas e devem ser retomadas após um processo de acompanhamento psicológico com os estudantes e professores. 

“Ter momentos em que eles possam falar sobre o que estão sentindo e serem acolhidos. É muito importante a promoção de espaços de conversa com psicólogos e, caso se verifique que a dificuldade maior em determinados estudantes, o encaminhamento para um acompanhamento psicoterapêutico ou até para uma terapia medicamentosa, se for necessário”, afirma. 

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