Veja bairros de Fortaleza mais afetados por ocorrências ligadas a riscos climáticos

Pontos mais sensíveis da cidade aparecem em dados da Defesa Civil.

Escrito por
Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
(Atualizado às 09:59, em 25 de Novembro de 2025)
Homem em pé na rua alagada de uma comunidade, com casas simples ao fundo e outras pessoas ao longe.
Legenda: Bairros da periferia e próximos a canais e lagoas enfrentam mais os "riscos hidrológicos".
Foto: Davi Rocha.

No período chuvoso ou fora dele, da área nobre às periferias, diversos bairros de Fortaleza são historicamente mais sensíveis a problemas de alagamentos, desabamentos, inundações e outras ocorrências – e alguns lideram as notificações à Defesa Civil municipal.

Fortaleza teve quase 23 mil dessas ocorrências entre 2012 e julho de 2025, a maioria entre os meses de fevereiro e abril, que correspondem à quadra chuvosa do Estado. Parte delas se concentra cronicamente na periferia; e a outra, na região central da cidade.

Os dados estão disponíveis no Observatório de Riscos Climáticos, lançado neste mês pela Prefeitura de Fortaleza e apresentado pelo prefeito Evandro Leitão na COP 30, em Belém (PA).

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Em se tratando de riscos climáticos, as ocorrências são separadas em duas categorias:

  • Hidrológicas: alagamentos, deslizamentos, inundações e riscos dessas ocorrências;
  • Tecnológicas: desabamentos, explosões e incêndios, solapamentos e riscos dessas ocorrências.

Entre todas, a notificação mais comum à Defesa Civil da capital é o risco de desabamento: de 2012 a 2025, foram 14.568 chamados por este motivo. Só neste ano, até julho, foram 926 ocorrências, como aponta o observatório.

Nos quase 14 anos abarcados pela série histórica, o pico de registros deste tipo (2.391) aconteceu em 2019, ano do desabamento do Edifício Andrea, no bairro Dionísio Torres, tragédia que alertou a cidade, o Estado e até o País para a importância da inspeção predial.

Bairros com mais riscos

Legenda: Edificações mais antigas de Fortaleza se concentram no Centro, bairro líder em notificações de riscos estruturais.
Foto: Nah Jereissati

Algumas áreas da cidade sofrem de forma crônica com riscos específicos: Centro, Jacarecanga, Barra do Ceará e outros no “topo” do mapa de Fortaleza, por exemplo, são mais afetados pelas chamadas ocorrências tecnológicas.

Entre 2012 e 2025, a Defesa Civil anotou mais de 18 mil casos de desabamentos, incêndios e outros do tipo. Do total, mais de mil foram no Centro, líder absoluto de casos. Em seguida, aparecem Barra do Ceará, com 527 registros; Aldeota, com 469; Meireles, com 460; e Vicente Pinzón, com 422.

Se considerados apenas os 7 primeiros meses de 2025, o Centro permanece à frente, mas a lista muda. As 1.104 notificações catalogadas pelo órgão municipal neste ano ocorreram nos bairros:

  • Centro – 72
  • Passaré – 34
  • Aldeota – 32
  • Meireles – 28
  • Messejana – 25

Haroldo Gondim, coordenador da Defesa Civil de Fortaleza, avalia que as ocorrências relacionadas a edificações correspondem a cerca de 70% do total de notificações e acontecem em toda a cidade, mas predominam no Centro por questões históricas.

“Os casos se concentram mais onde tem construções históricas, muitas vezes utilizadas por comércios em prédios antigos, onde temos problemas com fiações, elétricos, que causam incêndios e danos estruturais. Janelas e marquises que a Defesa Civil é demandada pra analisar”, explica.

O coordenador acrescenta que a idade dos prédios contribui muito para o cenário, mas observa que na Aldeota, por exemplo, o alto número de notificações por risco de desabamento pode ser atribuído, na verdade, a um comportamento preventivo.

“Os condomínios que têm manutenção corretiva e preventiva ao longo dos anos, onde há preocupação da gestão, fazem com que a gente tenha esse número elevado. Muitas vezes há prédios antigos que não passam por manutenção ao longo dos anos, e quando a gente se depara com a preventiva, os problemas vão vir.”

Haroldo destaca que mapear os casos é importante para reforçar a fiscalização e cobrar uma medida indispensável para a segurança das edificações de Fortaleza: a inspeção predial.

“Ela é uma solução pra mitigarmos essas ocorrências de risco de desabamento e outros problemas. Com todas as medidas preventivas e corretivas em dias, feitas por profissionais, é uma preocupação a menos pra gente”, avalia o coordenador da Defesa Civil.

Onde mais alaga

Vista de uma rua estreita com água da enchente refletindo as fachadas coloridas das casas em uma área urbana.
Legenda: Bairro Aerolândia, em Fortaleza, tem histórico de alagamentos em todo período de quadra chuvosa.
Foto: Davi Rocha.

Do outro lado da cidade, bairros como Barroso, Jangurussu e Genibaú concentram outras preocupações. Por lá, os maiores riscos são de alagamentos, deslizamentos, inundações e alertas sobre essas ocorrências, ligadas principalmente ao período chuvoso.

Nos quase 14 anos analisados pelo Observatório de Riscos Climáticos, as chamadas ocorrências hidrológicas predominaram no Barroso, que registrou 217 das mais de 3,6 mil totais. Em seguida, vem o Jangurussu, com 189 casos; Genibaú, com 148; Quintino Cunha, 141; e Passaré, com 134.

Este último, aliás, foi o que mais acumulou ocorrências do gênero em 2025: até julho, foram 45. No total, Fortaleza teve 287 anotações de alagamentos, deslizamentos e sinistros do tipo, concentrados principalmente nos bairros:

  • Passaré – 45
  • Jangurussu – 24
  • Barroso – 19
  • Conjunto Palmeiras – 14
  • Mondubim – 13

Os fatos de a cidade ser cortada por dois grandes rios, Cocó e Maranguapinho – para onde os afluentes e canais levam as águas –, e de viver um “crescimento desordenado”, com “construções em locais inapropriados”, contribuem para inflar essas ocorrências, como explica Haroldo Gondim.

“Em todos esses bairros passam canais. Muitas vezes, as casas estão em leitos de rios, margem de lagoa que secou mas que em período de chuva volta a ter água… Por isso temos essas ocorrências de alagamentos. Se continuar a ocupação, elas continuarão”, lamenta.

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O coordenador cita que essas são questões recorrentes na “região mais periférica”, e que a própria geografia da cidade, com “poucas áreas que não são planas”, desfavorece a permeabilidade – ou seja, o escoamento da água.

Em toda quadra chuvosa, diversas reportagens do Diário do Nordeste registram os alagamentos constantes na comunidade do Lagamar, no bairro Aerolândia, que se encaixa entre os exemplos do gestor da Defesa Civil. 

Como prever os riscos

Além de garantir um mapeamento das notificações, o Observatório de Riscos Climáticos deve funcionar como ferramenta para projetar ações de prevenção e mitigação dos desastres, sobretudo aqueles ligados a eventos climáticos.

Por meio de 10 estações meteorológicas distribuídas pela cidade, os órgãos de proteção vão acompanhar, a cada dez minutos, informações como o índice pluviométrico de cada região da cidade, podendo antecipar, por exemplo, quais pontos podem alagar. A ideia é prevenir ao máximo os riscos coletivos.

“O desastre súbito é o que traz maior problema pra população. Às vezes, o risco de desabamento atinge uma família. Mas uma chuva intensa causa transtornos a um bairro todo, podendo inclusive trazer óbitos. Os dados são essenciais pra tomada de decisões e planos de contingência”, reforça Haroldo Gondim.

A plataforma é mantida pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza (Ipplan), e teve a aquisição das estações apoiada pela Bloomberg Philanthropies, em parceria com a OMS e a organização global de saúde Vital Strategies. Artur Bruno, presidente do instituto, define que é “um instrumento muito avançado pra acompanhamento dos riscos climáticos”, da seca ao excesso de chuvas.

“Serão dados da Defesa Civil que vão sendo repassados e vamos colocando no ar. A ideia é que a gente tenha transparência em relação aos dados e à forma que o poder público está agindo. Posso inclusive monitorar que naquele local o calor está excessivo, a chuva está no limite, e avisar à população”, exemplifica.

Diante das aceleradas mudanças climáticas, as estações meteorológicas também devem aponta em quais locais de Fortaleza estão as chamadas “ilhas de calor”, principalmente diante de ondas de aumento de temperatura.

“As ilhas de calor em Fortaleza são mais fortes nos bairros mais vulneráveis. Às vezes as pessoas pensam ‘onde tem prédio, faz mais calor’. Nada a ver. Pirambu é uma das áreas mais quentes da cidade, porque não tem áreas verdes”, lamenta o presidente do Ipplan.

Com os 10 medidores espalhados pela capital, o gestor garante que o Município “terá elementos e argumentos para criar novas áreas verdes, parques e microparques”. Haroldo, da Defesa Civil, acrescenta que a ideia é ampliar o número de estações para entender como as ilhas de calor se comportam em diferentes pontos de Fortaleza.

“Queremos estudar o que muda em regiões mais ou menos edificadas, mais ou menos elevadas. Temos aumento da temperatura global na casa de 1,5ºC, e não sabemos se há retorno. Fortaleza, apesar de estar no litoral, é também impactada pelo excesso de calor”, alerta.

Imagem aérea da orla da Beira Mar, em Fortaleza. À esquerda, prédios. À direita, o mar.
Legenda: Avanço do mar será outro ponto monitorado pelas estações meteorológicas, segundo o Ipplan.
Foto: Kid Júnior

Os eixos de “Meio Ambiente e Resiliência Urbana” e “Proteção e Defesa Civil”, ambos abarcados pelo observatório, constam entre as políticas ambientais prioritárias do Plano Diretor de Fortaleza, documento que será votado até o fim do ano, como pontua o presidente do Ipplan.

“Estabelecemos 11 políticas que correspondem a 11 sistemas e 11 grupos de ações prioritárias. Hoje, a política de redução de risco faz parte do Plano Diretor. Isso foi uma inovação. Precisamos ter mais áreas verdes, para termos menos riscos climáticos”, conclui Artur Bruno.

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