Conheça as 7 escolas centenárias que ajudam a contar a história de Fortaleza; veja imagens

Prédios preservam características originais e itens antigos para eternizar memórias entre gerações

Escrito por
Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
Imagem mostra fachada do colégio Justiniano de Serpa, um dos mais antigos do Ceará. A construção tem traços antigos, em tons de rosa, e uma escadaria no centro dando acesso ao prédio.
Legenda: Colégio Justiniano de Serpa, antiga "Escola Normal", é um dos mais tradicionais de Fortaleza
Foto: Fabiane de Paula

Se imagens da Fortaleza antiga despertam nostalgia até em quem não a habitou, entrar em prédios históricos da cidade pode ser um portal a outras épocas. Estudantes de pelo menos sete escolas centenárias da capital cearense vivenciam isso diariamente, ocupando salas de aulas que guardam parte dos traços originais, em meio a desafios de manutenção.

Em frente à praça Gustavo Barroso, no bairro Jacarecanga, está a mais antiga entre todas, a primeira pública do Ceará: a Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Liceu do Ceará. O nome extenso atual divide espaço na fachada com a grafia antiga, mais curta e mais popular: Lyceu do Ceará.

Legenda: Fachada do Liceu do Ceará, ainda "Lyceu", nos anos 1940
Foto: Arquivo Nirez

Fundado em 1845, o colégio completa, no próximo mês, 180 anos de funcionamento, tendo nos registros de ex-alunos nomes ilustres como o empresário Edson Queiroz, o médico Bezerra de Menezes, o escritor Rodolfo Teófilo, os cantores Belchior e Raimundo Fagner, o arquiteto Fausto Nilo, e a primeira mulher prefeita de Fortaleza, Maria Luiza Fontenele.

A fachada está em processo de restauro, mas apesar do desgaste conserva os traços imponentes da arquitetura antiga, como a clássica escadaria que dá acesso ao interior do prédio. Do lado de dentro, as tradicionais portas de madeira e os cobogós delimitam a identidade da construção de outro tempo, que recebe, hoje, quase 500 alunos.

Legenda: Traços arquitetônicos sinalizam idade do prédio do Liceu do Ceará
Foto: Fabiane de Paula

Características similares também resistem em outro centenário: o antigo Grupo Escolar do Boulevard Visconde do Rio Branco, hoje EEMTI Visconde do Rio Branco, no cruzamento entre as vias Padre Valdevino e Dom Manuel, no Centro. 

O piso de mosaicos, as portas, uma escadaria, cobogós e até móveis e arquivos de 1924, ano da fundação, permanecem no local como lembretes da idade. Apesar disso, “muita coisa mudou”, como testemunha a professora Diva Souza, 62 – que estudou lá desde o jardim de infância e voltou como docente, função que já exerce há décadas.

“Nossa escola é muito antiga. O teto não é mais de madeira, foi tirado. As portas e janelas também foram se descaracterizando. Tudo ao redor no Centro mudou muito, as ruas foram asfaltadas…”, recobra, enquanto folheia um álbum de fotografias antigas do local.

Legenda: Diva foi aluna da Escola Visconde Rio Branco ainda nos anos 1960, e teve toda a trajetória como professora na mesma instituição
Foto: Fabiane de Paula

A fala apaixonada da professora se expressa ainda em ações: mesmo aposentada, Diva cria e recria atividades para continuar fazendo parte da rotina do lugar que considera “uma segunda casa”.

“Estudei aqui, fui pra faculdade, voltei como professora. Passo o dia aqui. Tive meus filhos aqui dentro, ensinava até o 8º mês de gravidez, eles cresceram aqui nesse ambiente, correndo, brincando. É também a segunda casa deles, eles lembram com carinho daqui”, emociona-se.

Com a pasta do próprio histórico escolar e até de raios-x dos pulmões ainda infantis, exigidos para matrícula, nos anos 1960, Diva se prova memória viva da escola. “Quando eu era criança, sonhava que essa escada caía, porque tinha medo de escada de madeira. Mas tá aí ela em pé”, brinca.

Era pela nostálgica escada, ela relembra, que a “fantástica!” professora de educação física Maria Araújo Lima subia cantando e dançando com os alunos, “inventando de tudo”, rumo à sala de aula, no século passado. Em 2020, a vida dela se tornaria filme: o cearense Pacarrete.

A escada, os azulejos, o próprio pátio. O teto alto. Tudo evidencia, hoje, não só a parte boa do DNA centenário. “Nesse período, venta muito, e com isso o forro foi embora. A estrutura começa a cair”, introduz Alnedi Costa Lima, diretora de lá há 12 anos, tempo em que equilibra os pratos para manter viva a tradição diante da necessidade de modernização.

Legenda: Corredor principal da Escola Visconde do Rio Branco, cuja estrutura permanece idêntica hoje
Foto: Reprodução/Arquivo da escola

“Ganhamos a climatização das salas, que era um sonho. Mas o engenheiro queria tirar as caixas dos ares-condicionados da fachada e colocar no pátio. Pra isso, ele queria quebrar o piso. Eu não aceitei. Prefiro só três salas climatizadas do que quebrar esse piso todo original”, confessa.

O piso centenário já foi danificado durante a instalação do sistema de combate a incêndios na escola, e a diretora, desde então, tem buscado peças para substituir. O valor, contudo, extrapola o já apertado orçamento disponível para manutenção, sobretudo por se tratar de um prédio antigo. Em mais de uma década, ela observa, o colégio não foi pintado.

Legenda: Gestão da escola Visconde do Rio Branco busca preservar piso e outros aspectos originais do prédio
Foto: Fabiane de Paula

“Outra coisa que queriam era que fosse feito o refeitório no espaço do pátio. Também disse que não, porque tiraria a característica original da escola, essa ideia de ter o pátio aberto, com os arcos ao redor.”

Os desafios estruturais aparecem em telhados, portas centenárias que sucumbem ao cupim e até móveis do século XX sem restauro. Mas do outro lado das dificuldades, mora ainda o orgulho: Alnedi conta com empolgação sobre como a memória invade as salas de aula e não deixa a História passar despercebida pelas novas gerações.

“Um professor fez a produção de um livro com gravuras da escola, uma obra comemorativa. Ano passado houve uma festa de 100 anos, com uma feira remontando a linha do tempo da instituição e com a presença de ex-alunos. Todo mundo vinha pro Centro estudar, essa era uma das poucas escolas. Temos que preservar”, sentencia a diretora.

Legenda: Escolas centenárias tentam preservar traços originais e conservar pedaços da História da Educação de Fortaleza
Foto: Fabiane de Paula

Na escola, há uma sala com documentos e até livros de ponto dos anos 1920.

Em pleno 2025, provando que respeitar a tradição não impede o avanço, a escola centenária ainda consegue ser pioneira: aos 101 anos, a EEMTI Visconde do Rio Branco é a primeira escola bilíngue da rede estadual. Durante a visita da reportagem, estudantes apresentavam, em inglês, uma feira de nações.

Pé na tradição, olho no futuro

Legenda: Escola foi fundada em 1910, no Centro da cidade; hoje, maior parte dos estudantes é da comunidade do Poço da Draga
Foto: Fabiane de Paula

A poucos minutos da Visconde, outra centenária mais discreta resiste na esquina entre Dom Manuel e Santos Dumont: a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) Clóvis Beviláqua, fundada em 1910.

Com fachada e piso que remetem aos antigos casarões de Fortaleza, a instituição tem estrutura mais simples que as anteriores – e, ainda assim, desafiadora de manter, como destaca o diretor Henrique Sampaio, há 14 anos na função.

“Temos muitas dificuldades nessas escolas mais tradicionais. Como todo prédio centenário, precisa de um olhar mais cuidadoso com a questão estrutural. Fizemos o retelhamento, reforma elétrica, para modernizar”, pontua.

“Hoje temos uma escola que tem um pé na tradição, de saber que é importante na nossa história, que a sociedade cearense foi formada aqui. E o olho no futuro, visando o que ela ainda pode oferecer”, ilustra o diretor.

Legenda: Escola Clóvis Beviláqua mantém memória viva em arquivos centenários
Foto: Fabiane de Paula

A tradição, frisa Henrique, é conservada não só nos traços arquitetônicos, mas principalmente nas pessoas. “Tem um caráter da nossa escola muito familiar. Hoje sou diretor de filhos de alunos que fui professor. Eles mensuram a idade da escola a partir da própria vida familiar”, observa. 

A secretária escolar Karla Rosita, funcionária de lá há quase três décadas, é uma das pessoas-arquivos que testemunham as mudanças e o legado. “É muito bom presenciar isso, ver alunos por aí, trabalhando, me reconhecendo”, diz. “Aparecem sempre querendo rever a escola, pedem pra entrar, relembrar… Isso aqui é histórico”, destaca.

Entre os nomes de destaque formados na escola – que já teve nomes como Grupo Escolar do Outeiro, Grupo Escolar Santos Dummont e Grupo Escolar Clóvis Beviláqua –, estão figuras como o político Raul Barbosa, o regente Eleazar de Carvalho e Frei Tito Alencar. 

Historiador por formação, Henrique reafirma a importância de todo o complexo de escolas centenárias da cidade. “A educação do Ceará começou nessa região, que vem ali do Liceu, do Imaculada, do Visconde, do Clóvis, do Militar, do Justitiano… E ainda há muito a ser conhecido para compreender a história”, inicia.

“Quando mexemos nos arquivos, vemos que Frei Tito estudou aqui, Gonzaga Mota, líderes comunitários que formaram a sociedade, artistas. Impulsiona a pensar com a comunidade que escola queremos pro futuro, através de uma educação pública de qualidade”, assegura.

De geração em geração

Legenda: Colégio Santa Cecília é um dos centenários particulares que resistem na cidade
Foto: Fabiane de Paula

Além das instituições públicas, uma privada figura entre as centenárias ainda erguidas na cidade: o Colégio Santa Cecília, no bairro Aldeota. Ele foi fundado em 1911, no bairro Benfica, onde hoje está o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ao final dos anos 1950, se mudou para a sede atual.

Vários anos dessa trajetória atravessaram a família da fonoaudióloga Juliana Velloso, 43, cuja mãe, os sete irmãos, os dois filhos e os dois sobrinhos seguem a relação de “continuidade e tradição” com o Santa Cecília. “É uma história de gerações”, orgulha-se. Ela mesma cursou toda a vida escolar no mesmo local.

Legenda: À esquerda, Juliana (de amarelo) e Cynthia, que estudaram juntas por toda a vida escolar no Santa Cecília; à direita, os filhos das duas, que estudam hoje na mesma escola
Foto: Arquivo pessoal

“Estudei na escola desde o maternal até o 3º ano. Minhas lembranças são de acolhimento, amor e amizades verdadeiras. Fiz amigos que caminharam comigo durante toda essa trajetória, compartilhando as transformações. Para mim, ser feliz sempre esteve muito ligado a estar naquela escola”, declara-se a cearense.

Juliana reconhece que a escola passou por várias mudanças estruturais e educacionais ao longo dos anos, mas frisa que a identidade centenária permanece. “Cada vez que entro lá, ainda sinto que é a minha escola. A evolução é necessária, porque o mundo e as pessoas exigem novos olhares e diferentes formas de aprender e ensinar”, pontua.

“Em família, conversamos frequentemente sobre nossos tempos de escola, relembrando histórias no Santa Cecília. O mais bonito é perceber que todos relatam o mesmo: amizades duradouras, carinho por quem forma a escola, projetos marcantes, ensinamentos religiosos e o amor a Deus.”

Outras anciãs cearenses

Legenda: Colégio Justiniano de Serpa fica em bairro histórico de Fortaleza, o Jacarecanga, em um quadrilátero repleto de edificações centenárias
Foto: Fabiane de Paula

Outros três prédios emblemáticos para a arquitetura, a memória e a educação cearense ficam próximos, compondo um complexo histórico da cidade: o Colégio da Imaculada Conceição, de 1865; o Colégio Militar de Fortaleza, de 1919; e o Colégio Estadual Justiniano de Serpa, no prédio de 1922.

Este último é, até hoje, chamado por muitos cearenses pelo primeiro nome que teve: Escola Normal do Ceará, antiga instituição de formação de professores. Atualmente, o prédio tombado na avenida Santos Dumont funciona como escola de tempo integral, a pioneira na aplicação dessa modalidade no Estado.

Junto aos traços físicos, que repetem o padrão de algumas outras centenárias, salas-memoriais ajudam a relembrar e recontar o progresso da educação cearense, por meio de documentos, móveis, fotos e até uniformes antigos do Justiniano de Serpa.

A imagem mostra um casarão de dois andares com uma fachada em tom verde-claro e telhas de cerâmica. Duas escadas curvas levam ao andar superior. Há balaustradas brancas nos dois andares. A entrada principal tem um arco e porta de madeira. A frente da construção possui um pátio com caminhos de pedra, canteiros de flores, arbustos aparados e palmeiras. O céu está azul e com poucas nuvens.
Legenda: Colégio da Imaculada Conceição faz parte do primeiro conjunto arquitetônico tombado pelo patrimônio histórico de Fortaleza
Foto: Thiago Gadelha

Perto dali ergue-se outro gigante, chamado carinhosamente pelos alunos de “viveiro adorado”: o Colégio da Imaculada Conceição, também tombado pelo patrimônio histórico de Fortaleza. Neste ano, a instituição completou 160 anos.

O colégio funcionava, no século XIX, como um internato para meninas, em outro ponto do Centro da cidade. O espaço se tornou insuficiente e, em 1867, foi transferido para o local onde está até hoje – cuja arquitetura, de tão bela, foi usada até em cartões-postais de Fortaleza.

Por lá, estudaram alunos célebres, como as escritoras Rachel de Queiroz e Angela Gutiérrez, a ativista abolicionista Elvira Pinho e o cineasta Petrus Cariry.

O trio se completa com outra instituição tradicional: o Colégio Militar de Fortaleza, cujas raízes completam, em 2025, 106 anos. Localizado na avenida Santos Dumont, o local sediou, inicialmente, a extinta Escola Militar do Ceará. Registros históricos marcam que a pedra fundamental foi lançada ainda no século XIX, em homenagem a Dom Pedro II.

O casarão abrigou quatro estabelecimentos de ensino ligados ao Exército Brasileiro, que administra a instituição, e a denominação atual, Colégio Militar de Fortaleza, ocorreu em 1962, pelo decreto federal nº 166. 

Importância histórica

Legenda: Fachadas de três dos colégios centenários de Fortaleza: Liceu, Justiniano de Serpa e Militar
Foto: Fabiane de Paula

As escolas cearenses que, em 2025, já ultrapassam os 100 anos de existência surgiram como símbolos de pioneirismo e de construção de uma “brasilidade” para além das imposições portuguesas, como contextualiza o professor e historiador Paulo Airton Damasceno.

“O Brasil, durante muito tempo, foi cerceado do direito de ter escolas e instituições de ensino por parte da coroa portuguesa. Era uma exigência da lógica do domínio português evitar a formação intelectual. Então, o Brasil começou muito atrasado nesse universo, e isso é uma marca dessas escolas que a gente tem até hoje, as mais antigas”, recobra.

Legenda: Fachada do Liceu preserva grafia antiga do nome, com "y"
Foto: Fabiane de Paula

O professor lembra que o Liceu e o Imaculada se destacavam no cenário: o primeiro, como escola masculina; o segundo, como feminina. Mas ambos voltados “a uma educação erudita, para uma elite intelectualizada, mesmo sendo gratuita, no caso do Liceu”.

“Os meninos se preparavam para o direito, teologia, engenharia. Era uma formação intelectual, com leitura das grandes obras. As mocinhas tinham formação voltada à ‘prendação’, iam se preparar para um bom casamento. As duas escolas tinham formação erudita no que era pensado na Europa”, explica Paulo Airton.

Imagem em preto e branco mostra cartão postal com as fachadas da Igreja do Pequeno Grande e do Colégio da Imaculada Conceição, em Fortaleza, no ano de 1930.
Legenda: Igreja do Pequeno Grande e Colégio da Imaculada Conceição na década de 1930; ambas as construções foram tombadas pelo patrimônio histórico em 2015
Foto: Arquivo Nirez

Guardar essas memórias vivas em forma de prédios e documentos que resistem na cidade, então, “ajuda a entender como foi o processo de organização da cidade quando ela rompe com a estrutura da pequena vila e se organiza enquanto centro urbano moderno, organizado para o século XX, pensado para a modernidade”. É sobre identidade.

“As instituições de ensino servem a esse projeto civilizatório que se emprenhava no Brasil Imperial, que vai adentrar na Primeira República, que queria construir a brasilidade. Até o Império, você não tinha a ideia do que era Brasil. Foi preciso construir o Brasil”, finaliza.

Desafios de manutenção

A verba para manutenção dos prédios centenários de escolas públicas, descrita como insuficiente por gestores, é repassada pela Secretaria da Educação do Ceará (Seduc). Em nota, a Seduc informa que "trabalha pela melhoria contínua da infraestrutura física, com foco na promoção de um ambiente escolar adequado e seguro".

Os recursos para manutenção "dos diversos ambientes", explica a Pasta, são calculados "com base no número de matrículas, espaço físico e tipo de serviço ofertado na escola, como Tempo Integral". Além disso, "a Seduc tem destinado aportes financeiros para reformas nas escolas conforme a necessidade apresentada".

"Em 2025, por exemplo, foi autorizada para a escola EEMTI Visconde do Rio Branco a execução de uma reforma elétrica no valor de R$ 125 mil, atualmente em fase de licitação, com o objetivo de viabilizar a adaptação da rede e a climatização de 100% dos ambientes escolares", adiciona a Seduc.

"Já para a escola EEMTI Clóvis Beviláqua, foi autorizada a construção de uma subestação elétrica de 112 kVA, no valor de R$ 91,1 mil, para a climatização total da escola", menciona.

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